400 mil mortes: este é o começo, o meio ou o fim do pesadelo?

No dia em que o País atinge mais uma fúnebre marca, especialistas respondem a CartaCapital o que falta para enxergar uma luz no fim do túnel

Fotos: AFP e Mauro Pimentel/AFP

Fotos: AFP e Mauro Pimentel/AFP

Política,Saúde

Apenas 36 dias depois de lamentar a marca de 300 mil mortes por Covid-19, o Brasil atinge nesta quinta-feira 29 mais um dramático patamar: 400 mil vidas perdidas para o novo coronavírus.

Entre a primeira morte e o registro de 100 mil óbitos, se passaram 149 dias. Para chegar a 200 mil mortes, mais 152 dias. Já o índice de 300 mil mortes foi superado em 76 dias, o que indica o avanço ainda mais acelerado da Covid-19 em um País que, desde o início, abriu mão de centralizar ações de combate à crise e virou as costas à ciência e aos exemplos exitosos ao redor do mundo.

Enquanto isso, a vacinação caminha a passos lentos e sob a marca da incerteza quanto ao prosseguimento da campanha sem novas intercorrências. Na segunda-feira 27, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, admitiu as seriíssimas dificuldades em torno da capacidade de produção de imunizantes em solo nacional, o que afeta diretamente a garantia, por exemplo, de que haverá segunda dose a quem já foi vacinado pela primeira vez.

Diante desse cenário, uma das muitas perguntas que os brasileiros se fazem é: o País vive, no encerramento do quarto mês do segundo ano de pandemia, o início, o meio ou o fim do drama? É o que CartaCapital tenta responder com o auxílio de especialistas.

 

 

Para o ex-ministro da Saúde Arthur Chioro, que ocupou o cargo no governo de Dilma Rousseff, é difícil prever quando o Brasil voltará ao que minimamente se considera ‘normalidade’. Segundo ele, “milhares de mortes que poderiam ser evitadas” ainda serão registradas.

“Se mudanças importantes não forem adotadas, só teremos segurança a partir de meados de 2022, quando enfim 70% da população estará vacinada. Mas, até lá, continuaremos a ser um celeiro de novas variantes e talvez já precisemos de novas doses de reforço, sem que tenhamos garantida a oferta da primeira imunização.”, avalia. “Isso tende a prolongar e aprofundar nossa crise, econômica, social e sanitária. Uma lástima que compromete o nosso futuro.”

Para o deputado federal Alexandre Padilha (PT-SP), que também comandou o Ministério da Saúde no governo Dilma, o presidente Jair Bolsonaro “nos colocou em um pesadelo sem fim”, já que os impactos da pandemia “não se limitam aos gravíssimos 400 mil mortos”.

“Ainda temos milhões de sequelados que precisarão de um SUS mais forte, milhões que têm outros problemas de saúde, cirurgias que ficaram represadas ao longo de um ano inteiro. Temos milhões de brasileiros que adiaram exames de rastreamento de câncer, diabetes, e irão diagnosticar essas doenças mais tardiamente”, pontua.

 

“Bolsonaro nos colocou em um corredor da morte”, diz Alexandre Padilha

 

Enquanto a vacinação não chega à maioria, não resta outra opção ao Brasil que não é o isolamento. É o que pensa o sanitarista Gonzalo Vecina, um dos fundadores da Agência Brasileira de Vigilância Sanitária.

O especialista, que vê o País passando pelo meio da crise sanitária, não acredita que medidas como essa sejam tiradas de fato do papel. “Vamos conseguir terminar de vacinar a população por volta de fevereiro ou março do ano que vem. Daqui até lá, infelizmente não vamos ter uma redução no número de mortes”, lamenta.

“Talvez a partir de outubro ou novembro a cobertura vacinal permita que caia um pouco o número de mortes. Mas, até esse ponto, como não teremos vacinado a maior parte da população e não vamos fazer o isolamento, teremos um número muito grande de mortos”. Vecina diz não saber se o Brasil superará os recordes registrados entre março e abril, “mas com certeza continuaremos tendo muitos mortos”.

Avaliação semelhante faz o médico infectologista José David Urbaéz, da Sociedade Brasileira de Infectologia em Brasília. Para ele, nunca houve no País “medidas potentes de restrição de circulação em escala nacional”. Isso se deve, em primeiro lugar, à falta de um comando central que se responsabilize pelas ações, as quais deveriam estar acompanhadas de um robusto suporte econômico aos mais vulneráveis.

“O que se vê como regra é uma ‘flexibilização’ das medidas restritivas na vigência de elevadíssimos índices de transmissão, em uma leitura equivocada e conveniente de que a diminuição relativa que vem ocorrendo seria um sinal de ‘controle'”, pondera Urbáez. “As projeções são de que se alastre o número da casos e de óbitos em um platô muito elevado – lembrando que o ano passado passamos quatro ou cinco meses com mais de mil mortes por dia. Então, o pesadelo estaria em andamento”.

 

Para Urbáez, “a vacinação tem um impacto marginal, pois o número de vacinados é baixo e a velocidade de vacinação também”, sem contar “as irregularidades absurdas que o processo vem apresentando”

 

Na quarta-feira 28, a Fundação Oswaldo Cruz divulgou um boletim extraordinário de seu Observatório Covid-19 para informar que, apesar do registro de queda nos casos e mortes decorrentes do novo coronavírus nas últimas semanas, a pandemia segue em nível crítico no Brasil.

A análise do observatório da Fiocruz se baseia nos dados coletados entre 18 e 24 de abril, os quais apontam para uma redução de 1,5% ao dia no número de casos e de 1,8% no de mortes, “mostrando uma tendência de ligeira queda, mas ainda não de contenção” da Covid-19.

Os pesquisadores da fundação entendem que o comportamento identificado pode indicar a formação de um cenário semelhante ao de 2020, mas com números mais elevados de casos e óbitos. “Esse conjunto de indicadores, que vêm sendo monitorados pelo Observatório Covid-19 Fiocruz, mostram que a pandemia pode permanecer em níveis críticos ao longo nas próximas semanas”, alertam.

Além da vacinação a passos de tartaruga – nem 15% dos brasileiros receberam ao menos a primeira dose de um imunizante -, aflige os brasileiros a escassez de insumos básicos para tratar os pacientes que desenvolvem formas graves da Covid.

Não à toa, a ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal, estabeleceu na quarta-feira 28 o prazo de dez dias para que o governo Bolsonaro elabore um plano que garanta a compra e o fornecimento do chamado ‘kit intubação’, indispensável para sedar e anestesiar os acometidos pelos quadros mais complexos da doença.

A decisão, tomada em caráter liminar, se deu em ação movida pelo estado da Bahia, que aponta o corte de verbas destinadas pela União. “Tais fatos, incontroversos e notórios, emprestam credibilidade à ameaça de lesão à saúde pública e orientam para a necessidade de ajustes no gerenciamento sobre a disponibilidade dos insumos, em ordem a conferir segurança à população e previsibilidade aos entes subnacionais no enfrentamento da crise sanitária”, apontou Weber.

Por fim, há o fator ‘CPI da Covid’. A comissão do Senado, que mira principalmente a omissão do governo Bolsonaro no enfrentamento ao coronavírus, foi instalada nesta semana em um contexto desfavorável ao Palácio do Planalto, que conta com o apoio de apenas quatro dos onze integrantes.

Relatada pelo senador Renan Calheiros (MDB-AL), crítico à condução do combate à crise sanitária pela gestão federal, a CPI se debruçará, entre outros pontos, na demora do governo para viabilizar a chegada de vacinas, no sistemático e anticientífico boicote às medidas de distanciamento social, na omissão ante a iminência do colapso hospitalar no Amazonas e na promoção de medicamentos ineficazes contra a Covid-19.

Em seu primeiro discurso como relator, Calheiros garantiu que a CPI será “uma antítese estridente do obscurantismo negacionista e sepulcral, responsável por uma desoladora necrópole que se expande diante da incúria e do escárnio desumano”.

O recado foi compreendido e rebatido por seu destinatário. Na quarta-feira 28, Bolsonaro criticou a instalação da CPI e, em conversa com militantes na porta do Palácio da Alvorada, dobrou a aposta na cloroquina.

“CPI vai investigar o quê? Eu dei dinheiro para os caras. Mais de 700 bilhões [de reais] que dei, auxílio emergencial e muitos roubaram o dinheiro, desviaram, mas agora vem a CPI para querer investigar conduta minha. Se foi favorável a cloroquina ou não. Se eu tiver o vírus eu vou tomar de novo, eu me safei em menos de 24 horas, assim como milhões de pessoas”, afirmou.

O presidente declarou, também, que se imunizará contra a Covid-19 somente “depois que o último brasileiro tomar a vacina”.

Na semana que vem, a CPI ouvirá os ex-ministros da Saúde Luiz Henrique Mandetta, Nelson Teich e Eduardo Pazuello – este, com potencial explosivo – e o atual chefe da pasta, Marcelo Queiroga. Também prestará esclarecimentos aos senadores o presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres.

Enquanto isso, o Brasil continua a multiplicar as mortes pelo vírus, levando cada vez menos tempo para completar a macabra operação. Alexandre Padilha arremata: “O erro é Bolsonaro. Ele utilizou todos os instrumentos que um presidente pode utilizar para criar obstáculos ao desenvolvimento de qualquer ação para controlar a pandemia: para a ampliação de testagem, a ampliação de leitos hospitalares, a aquisição de vacinas em 2020, a mensagem pública, a credibilidade do Ministério da Saúde e as medidas de estados para restringir a aglomeração”.

 

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Editor do site de CartaCapital

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