Política

PF recebe documentos dos EUA que atestam recompra de relógio de Bolsonaro

Nos próximos idas, a expectativa é que investigadores brasileiros desembarquem nos EUA para diligências em campo

O presidente Jair Bolsonaro. Foto: Sergio Lima/Poder360/AFP
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A Polícia Federal começou a receber documentos da Justiça dos Estados Unidos sobre o possível esquema de venda ilegal de presentes oficiais recebidos durante o governo de Jair Bolsonaro (PL). A informação é da GloboNews. A colaboração entre os países foi autorizada em outubro pelo Departamento de Justiça norte-americano.

Nos próximos idas, a expectativa é que investigadores brasileiros desembarquem nos EUA para diligências em campo. A PF apura os crimes de lavagem de dinheiro, ocultação de valores, apropriação indevida e falso testemunho.

Entre os materiais recebidos estão documentos que mostram que o advogado Frederick Wassef recomprou em dinheiro vivo um relógio do acervo presidencial vendido no exterior. Teria partido do general Mauro César Lourena Cid, pai do ex-ajudante de ordens de Bolsonaro Mauro Cid, a ordem para reaver a peça.

Wassef já havia admitido, em agosto, ter ido aos Estados Unidos para recuperar o objeto, mas negou que tenha sido a mando de Cid. Após a confissão, o advogado foi alvo de mandados de busca e teve dois celulares apreendidos.

A solicitação de cooperação internacional foi apresentada pelo Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional, em agosto.

O pedido previa a quebra de sigilos bancários de Bolsonaro, da ex-primeira-dama Michelle e de Mauro Cid, diligências em joalherias na Florida e na Pensilvânia, além de depoimentos de testemunhas sobre a venda de presentes oficiais.

Até o momento, as investigações da PF dão conta de duas hipóteses para explicar o possível esquema, ambas a ressaltar o papel de Bolsonaro. A conduta descrita pelos investigadores sustenta que houve clara utilização da estrutura do Estado para obtenção de vantagens.

Ao desvio dos presentes segue-se um movimento de ocultação da origem, da localização e da propriedade dos valores provenientes da negociação. Essas linhas de investigação constam de um relatório enviado ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, e embasaram uma operação contra aliados de Bolsonaro em 11 de agosto.

De acordo com a PF, entre 2019 e o fim de 2022, Bolsonaro, Mauro Cid, Marcelo Costa Câmara (então assessor), Osmar Crivelatti (braço-direito de Cid), Marcelo da Silva Vieira (então chefe do Gabinete Adjunto de Documentação Histórica da Presidência) e outros se uniram com o objetivo de desviar, em proveito do então presidente, presentes recebidos em caráter oficial e entregues por autoridades estrangeiras. A PF menciona pelo menos quatro conjuntos de alto valor.

Após serem apropriados pelo então presidente, os itens foram transportados, de forma oculta, para os Estados Unidos, em 30 de dezembro de 2022, em um avião presidencial. Depois, foram levados a lojas especializadas na Flórida, em Nova York e na Pensilvânia, para serem avaliados e vendidos.

O dinheiro ficaria sob responsabilidade de Lourena Cid e, posteriormente, seria transferido em espécie para Bolsonaro.

“Identificou-se, em acréscimo, que os valores obtidos dessas vendas eram convertidos em dinheiro em espécie e ingressavam no patrimônio pessoal do ex-Presidente da República, por meio de pessoas interpostas e sem utilizar o sistema bancário formal, com o objetivo de ocultar a origem, localização e propriedade dos valores”, escreveu Moraes, com base nas conclusões da PF.

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