Política

O que dizem os relatórios da Abin entregues à CPMI do 8 de Janeiro

Documentos, obtidos e revelados pela TV Globo, mostram uma espécie de roteiro da tentativa de golpe

Foto: Joedson Alves/Agencia Brasil
Apoie Siga-nos no

A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) compartilhou com a CPMI dos Atos Golpistas 11 relatórios de inteligência que descrevem as diversas frentes da organização da invasão e depredação das sedes dos Três Poderes, em Brasília, no 8 de Janeiro. Os documentos foram obtidos e revelados pela TV Globo nesta quinta-feira 20 e mostram uma espécie de roteiro da tentativa de golpe.

Os relatórios, entre outros pontos, rastrearam os suspeitos de financiar e divulgar os atos, bem como os organizadores e os planos, que envolviam ataques a torres de energia e a sistemas de controle do Distrito Federal.

Ao menos 83 pessoas e 13 organizações foram apontadas pela Abin nos documentos como contratantes dos 103 ônibus fretados que transportaram os bolsonaristas para Brasília. A maioria deles são empresários da região Sul e Sudeste. Nesta identificação, a Abin faz um alerta: ainda que os relatórios tragam nomes, “é provável que diversos contratantes tenham sido utilizados como ‘laranjas’ com objetivo de ocultar os verdadeiros financiadores das caravanas e dos manifestantes”.

Os documentos também apontam, de acordo com a emissora, a participação de uma rede de empresários do garimpo no financiamento dos atos. Entre eles, se destacam os nomes de Roberto Katsuda e Enric Lauriano, que estão diretamente associados à prática do garimpo e possuem relação com políticos da região.

Um dos relatórios identificou também outros 272 caminhões que integraram os comboios que tinham como destino o Distrito Federal. Pelo menos a metade deles pertencia a empresas, o que demonstra o envolvimento de grupos empresariais no financiamento dos acampamentos.

Outra informação encaminhada pela Abin à CPMI, segundo a Globo, é a identidade de um influenciador digital responsável pela convocação de bolsonaristas para o ato golpista. Ele participava de grupos extremistas em um aplicativo de mensagens.

Segundo o relatório, o influencer disse aos extremistas que estava estruturando um grupo paramilitar no estado do Rio de Janeiro, que teria integrantes da polícia, para “prover treinamento e armamento aos demais membros”.

“Além de trocarmos informações, devemos buscar nos organizar em células de autodefesa locais, porque a partir do momento que eles dominaram tudo, seus ‘coletivos’ como na Venezuela, já não teremos muito o que fazer”, afirmou em mensagem no dia 16 de janeiro, em um dos grupos.

Um candidato a deputado distrital do PTB também foi apontado como um dos extremistas responsáveis por auxiliar os bolsonaristas no DF. De acordo com o relatório, ele foi comprador de passagens para os “patriotas”. Ele também esteve presente na invasão dos prédios dos Três Poderes e, segundo as informações, integrava o grupo que tentou invadir a sede da Polícia Federal em dezembro.

Os documentos ainda mostram que houve uma intensificação na atuação dos extremistas violentos ideologicamente motivados.

“A disseminação de narrativas de incentivo à violência, somada ao emprego de discurso conspiratório, à difusão de notícias falsas e à veiculação de reivindicações de ruptura democrática, aumenta o risco de radicalização de indivíduos isolados ou pequenos grupos com potencial para mobilização para ação extremista violenta”, afirma o relatório.

Mesmo antes de janeiro, a Abin já havia observado “elevado grau de radicalização e potencial para mobilização para violência” entre os bolsonaristas.

Também foi apontado que as ações violentas foram premeditadas. Nos grupos foram encontradas mensagens que aconselhavam o uso de máscaras de proteção contra gás, vestimentas militares e porte de armas brancas ou armas improvisadas.

“Circularam em mídias sociais e aplicativos de mensageria instruções para confronto com forças de segurança, incluindo contramedidas em caso de uso de gás lacrimogêneo”, cita o documento.

Dos planos ainda constavam ataques a sistemas de controle, como os de distribuição de energia, gás e gasolina, que tinham como objetivo causar prejuízo no abastecimento do DF e seu entorno. Outras regiões do Brasil também eram alvos em potencial. Há registros de vandalismo em torres de distribuição que eram alvos dos golpistas, conforme apontado no relatório.

Ao menos 28 pessoas envolvidas nos ataques não tinham sido presas até o dia 26 de janeiro, momento da elaboração dos documentos. Três delas foram presos dias depois.

Um relatório anterior a escalada de violência bolsonarista, ainda de 2022, mapeou a presença de um grupo extremista violento em Brasília, que poderia trazer ameaças para a posse do presidente Lula, em 1º de janeiro deste ano.

“A presença desse grupo extremista na capital federal eleva o risco de ocorrência de ações violentas com potencial de impactar a posse do presidente eleito”, aponta o documento.

Foram apontadas a presença de militares da reserva entre os integrantes do grupo, a intenção de criação de unidades paramilitares para atuar no País e planos para impedir a diplomação do presidente.

Segundo a Abin, os membros do grupo “compartilham posição político-ideológica semelhante, discurso radical de deslegitimação do Estado de Direito e propensão à ação violenta”.

O último documento reforça a participação de empresário do agronegócio, pertencentes ao Movimento Brasil Verde e Amarelo, entre os patrocinadores dos Atos Golpistas.

“Muitos dos caminhões que partiram em comboio para Brasília após a eleição para apoiar o acampamento em frente ao Quartel do Exército partiram de regiões de influência do MBVA”, explica o parecer.

Segundo o documento, participaram da fundação do grupo em 2018: Associação Nacional de Defesa dos Agricultores e Produtores da Terra (Andaterra), as Associações de Produtores de Soja e Milho (Aprosojas) de Mato Grosso e Goiás, e a União Democrática Ruralista (UDR).

Atualmente, o grupo é coordenado pelas lideranças da Andaterra, Aprosoja Brasil, Aprosojas Mato Grosso, Goiás e Bahia.

Entre os principais líderes do grupo estão: Antônio Galvan, presidente da Aprosoja Brasil, e Jeferson da Rocha, advogado em Florianópolis e porta-voz do grupo.

“Com capacidade de mobilização nacional, o MBVA organizou atos em Brasília que contaram com deslocamento de máquinas agrícolas, caminhões e caravanas de suas áreas de influência local. A partir da articulação da sua rede de contatos nas Aprosojas e nos sindicatos rurais, o grupo demanda e coordena doações em suas bases. Os protestos geralmente ocorrem após o período de colheita da soja (entre janeiro e abril no centro-oeste) quando há mais disponibilidade de máquinas e pessoal’, diz o documento.

“Os municípios de influência das lideranças do MBVA são praticamente os mesmos de onde partiram os principais comboios de caminhões com destino a Brasília para as manifestações contra o resultado eleitoral em 2022, assim como nas manifestações ocorridas entre 8 e 10 de setembro de 2021”, explica.

ENTENDA MAIS SOBRE: , , , , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Um minuto, por favor…

O bolsonarismo perdeu a batalha das urnas, mas não está morto.

Diante de um país tão dividido e arrasado, é preciso centrar esforços em uma reconstrução.

Seu apoio, leitor, será ainda mais fundamental.

Se você valoriza o bom jornalismo, ajude CartaCapital a seguir lutando por um novo Brasil.

Assine a edição semanal da revista;

Ou contribua, com o quanto puder.

Leia também

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo