Política

O ponto fraco do depoimento de Anderson Torres, segundo membros da CPMI

Parlamentares pediram acareações a partir das declarações do ex-ministro da Justiça e ex-secretário de Segurança do DF

O ex-ministro da Justiça Anderson Torres. Foto: Sergio Lima/AFP
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A chave do depoimento do ex-ministro da Justiça Anderson Torres à CPMI do 8 de Janeiro está no trecho em que ele admitiu ter tirado férias de forma antecipada, ao deixar o Brasil para uma viagem aos Estados Unidos na antevéspera dos ataques na capital federal.

Na oitiva desta terça-feira 8, Torres disse ter embarcado às 23h50 de 6 de janeiro, com passagens compradas em 21 de novembro. No momento da viagem, ele exercia o cargo de secretário de Segurança Pública do Distrito Federal.

A ida aos Estados Unidos levanta suspeitas sobre Torres porque o seu período oficial de férias teria início somente em 9 de janeiro, com término 11 dias depois.

Segundo ele, o prazo de descanso dizia respeito a um acordo com Ibaneis sobre a retirada de férias acumuladas em atividades anteriores no serviço público.

Ao ser questionado sobre ter viajado antes do período formal, Torres alegou ser comum entre servidores a emenda do fim de semana, quando as férias têm início na segunda-feira. Além disso, afirmou que não teria viajado se tivesse conhecimento de alertas sobre os ataques.

Parlamentares avaliam que as lacunas na justificativa não se limitam ao fato de se tratar de um cargo do primeiro escalão, o que por si só já obrigaria o então secretário a respeitar o período formal das férias. O problema é que também há suspeitas de que Torres teria, sim, recebido alertas sobre os atos.

Segundo um documento em posse da CPMI ao qual CartaCapital teve acesso, uma subsecretaria subordinada à pasta de Anderson Torres no Distrito Federal emitiu um alerta em 5 de janeiro, às 18h50, intitulado Manifestações de oposição ao atual governo federal. O informe foi encaminhado pela Subsecretaria de Inteligência em um grupo de WhatsApp chamado “DIFUSÃO”.

A mensagem dizia que havia cerca de 300 manifestantes em frente ao quartel-general do Exército, com um motorhome estacionado e uma área de estacionamento balizada com cones e fechada com corda para impedir a entrada de novos veículos.

O alerta também mencionava a previsão de atos para os dias 6, 7, 8 e 9, com a convocação de uma manifestação intitulada de Tomada de Poder, com pauta contrária ao presidente Lula.

“A manifestação está prevista para ser realizada entre os dias 6 e 8 de janeiro, no Congresso Nacional/Esplanada dos Ministérios”, dizia o informe, segundo o documento em posse da CPMI. “Além dos atos previstos, cogita-se uma ‘greve geral’ que seria deflagrada no dia 09JAN2023.”

Segundo esse informe, a convocação circulava em redes sociais e em grupos de mensagem, mas notava-se “menor engajamento em relação à mobilização decorrida após o resultado da eleição presidencial”.

O documento obtido pela reportagem também diz que o gabinete da Secretaria recebeu um relatório do Ministério da Justiça e da Segurança Pública em 6 de janeiro que alertava sobre os seguintes aspectos:

  • “Possibilidade de invasão e ocupação a órgãos públicos”;
  • “Participação de grupos com intenções de ações diversas, bem como orientação para que público participante fosse adulto em boas condições físicas”;
  • “Participação de pessoas que pertenceriam ao segmento de Caçadores, Atiradores e Colecionadores (CACs);
  • “Possíveis ações de bloqueios em refinarias e/ou distribuidoras”.

Ainda de acordo com o documento da CPMI, a Subsecretaria de Inteligência recebeu dois informes da Agência Brasileira de Inteligência, a Abin, por meio de um grupo de aplicativo de mensagens denominado “CIISP manifestações”, em 8 de janeiro.

O primeiro informe teria chegado ao conhecimento da unidade às 9h, com informações sobre o dia anterior que davam conta de três mil pessoas na área próxima ao Setor Militar Urbano, em Brasília.

O alerta dizia que, na madrugada de 7 de janeiro, 16 ônibus haviam desembarcado passageiros nas proximidades do quartel-general do Exército, totalizando 101 veículos até as 8h20. Parte dos ônibus estava estacionada na Granja do Torto.

“Após discussão acalorada entre acampados às 8h50, ficou decidido que os manifestantes partirão em marcha para a Esplanada às 13 horas”, dizia o alerta.

Às 10h30 do dia 8, um novo alerta no grupo de WhatsApp tratou de “convocações e incitações para deslocamento até a Esplanada dos Ministérios, ocupações de prédios públicos e ações violentas”.

Parte do documento foi lida pelo deputado Rogério Correia (PT-MG) diante de Torres.

Contudo, na visão de um dos parlamentares da base, o ex-ministro da Justiça ao menos se beneficiou da decisão de falar à CPMI, mesmo podendo se manter calado em questões que pudessem incriminá-lo.

Segundo essa avaliação, os depoentes que permanecem em silêncio, apesar de exercerem um direito constitucional, contribuem para o aumento das suspeitas de responsabilidade na opinião pública.

Em seu depoimento, Torres se preocupou em empurrar para a Polícia Militar a culpa pelas falhas em conter os atos golpistas. Além disso, negou ter conhecimento sobre a origem da “minuta do golpe”.

Depoimento motivou pedidos de acareação

Dois parlamentares solicitaram acareações a partir das declarações de Torres. O procedimento confronta duas ou mais testemunhas cujos depoimentos tenham apresentado inconsistências.

A relatora da CPMI, Eliziane Gama (PSD-MA), apresentou um requerimento para uma acareação entre Torres e Leandro Almada, então superintendente da Polícia Federal na Bahia.

Os dois se reuniram na Bahia com Márcio Nunes, então diretor-geral da Polícia Federal, cinco dias antes do segundo turno da eleição de 2022. Torres disse que o encontro tinha como motivação a vistoria de obras, mas Almada garantiu em depoimento que “a tônica da reunião foi em torno da questão eleitoral”.

Já o deputado federal Duarte Júnior (PSB-MA) pediu uma acareação entre Torres e as seguintes figuras:

  • Fernando de Souza Oliveira, ex-secretário-executivo da Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal;
  • Fábio Augusto Vieira, ex-comandante-geral da Polícia Militar do Distrito Federal;
  • Jorge Eduardo Naime, ex-comandante de Operações da Polícia Militar do Distrito Federal.

Duarte Júnior argumenta que, em CPI na Câmara Legislativa do Distrito Federal, Fernando Oliveira disse que Torres saiu de férias sem deixar “nenhuma orientação específica” sobre os atos.

Na CPMI, porém, Torres disse ter deixado um Plano de Ação Integrada antes de ir para os Estados Unidos, mas que houve “grave falha” na execução das tarefas e que a responsabilidade era da Polícia Militar.

Além desses nomes, uma avaliação ouvida pela reportagem é a de que o depoimento de Torres aumentou as possibilidades de convocação de Marília Ferreira Alencar, então subsecretária de Inteligência no Distrito Federal, e do coronel Paulo José Bezerra, da PMDF, que respondia pela Diretoria no lugar de Naime.

O próximo depoimento ocorrerá na quinta-feira 10, com o hacker da Vaza Jato, Walter Delgatti Neto.

A estratégia da oposição, segundo apurou a reportagem, deve ser questionar se o hacker foi contratado pela deputada federal Carla Zambelli (PL-SP) para invadir as urnas eletrônicas e qual o nível de contato com o então presidente Jair Bolsonaro.

A expectativa do presidente da CPMI, Arthur Maia (União-BA), é de finalizar em duas semanas a etapa de investigações que recai sobre os dias que antecedem o 8 de Janeiro.

Segundo Maia, não haverá novas sessões deliberativas antes da próxima quinta. O presidente da CPMI sinalizou a possibilidade de agendar um depoimento para a terça 15.

Sem definir uma data, ele defendeu a convocação como testemunha de Adriano Machado, profissional de imprensa da Reuters, alvo de requerimento aprovado pela comissão.

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