Política

Na própria filiação, Deltan é deixado em segundo plano pelo Podemos

Sob protestos do lado de fora, Moro roubou o protagonismo esperado pelo ex-procurador; o evento foi se esvaziando com a saída do ex-juiz

Deltan exibe um cartaz com os 'compromissos' que diz que terá se eleito deputado.
Deltan exibe um cartaz com os 'compromissos' que diz que terá se eleito deputado.
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Deltan Dallagnol, oficializou sua candidatura ao Podemos nesta sexta-feira 10, em um luxuoso hotel do centro de Curitiba. O pequeno auditório escolhido pelo ex-procurador da Lava Jato foi o mesmo que sediou as primeiras coletivas de imprensa da Lava Jato há alguns anos.

Mais de 150 pessoas foram até o local para acompanhar o evento. O clima, porém, mostrou que boa parte do público não estava ali para prestigiar o ex-procurador, mas sim ver e ouvir o ex-juiz Sergio Moro, recém filiado e pré-candidato à Presidência pelo partido.

Nem mesmo os políticos do primeiro escalão do Podemos que integraram a mesa deram destaque à chegada do golden boy da Lava Jato à sigla. Em todos os discursos, o prólogo das declarações foi de reverência a Moro e sua nova missão. Só depois vinham os agradecimentos ou boas vindas ao novo filiado.

Além das mais de 70 vezes em que a palavra saiu da boca de Deltan, o termo corrupção e suas variantes foi usado mais de 50 vezes pelos demais participantes

O ex-procurador só ganhou mais atenção após a despedida do ex-juiz, atrasado para um compromisso em São Paulo. Assim que Moro se deslocou para fora do auditório, parte do público também se foi. Um jovem com a camiseta do MBL, acompanhado de amigos, foi um dos primeiros a deixar o local. O movimento foi acompanhado por mais alguns homens e mulheres de meia-idade.

Com a saída do ministro, assessores se movimentaram para anunciar ao público fora do auditório que ‘agora tinha lugar’ lá dentro. O chamado não teve sucesso: Deltan seguiu discursando com alguns lugares vazios na plateia. Em ao menos duas ocasiões, os mesmos assessores tiveram que pedir silêncio aos convidados acumulados no hall. Àquela altura, o público lá fora mais conversava do que ouvia o que o ex-procurador tinha a dizer.

Ainda que o auditório estivesse lotado, tanto Moro quanto Deltan circularam tranquilamente no espaço. Ambos chegaram até a mesa principal sem serem ‘barrados’ por admiradores, nem mesmo para fotos, e sentaram tranquilamente sem qualquer tipo de ‘incômodo’. Um sinal de que a rejeição à candidatura lavajatista não é apenas um número apontado pelas pesquisas.

Auditório da filiação de Deltan ao Podemos. Sobrou lugar após a saída de Moro do evento.

Sem falar com imprensa

Mais uma vez, Moro não atendeu a imprensa, nem antes, nem depois da sua participação. Quem foi até o local, portanto, não viu ou ouviu qualquer novidade da boca do ex-juiz. No discurso protocolar, ele reafirmou, por exemplo, que seu governo será ‘uma força-tarefa’ e que seu plano de governo ainda está em construção.

A mesa

Na mesa estavam os principais caciques do Podemos. Além de Deltan e Moro, sentaram em lugar de destaque no apertado espaço os senadores Álvaro Dias, Oriovisto e Flávio Arns. Os três adotaram um tom de ‘já ganhou’ ao falarem de Moro e Deltan.

Dias, por exemplo, cravou que o ex-juiz ‘será o próximo presidente do Brasil’. Com a mesma confiança, garantiu que Deltan fará ‘a maior votação da história do Paraná’ para ocupar os corredores da Câmara em 2022. A leitura foi repetida por muitos dos seus pares.

Na mesa estavam também os paranaenses Paulo Roberto ‘Galo’, apresentador e deputado estadual do Podemos, e o presidente estadual do partido, César Silvestre Filho. A parlamentar Renata Abreu, presidente nacional do Podemos, foi a única mulher a ocupar uma cadeira. Como de praxe nestes casos, ‘a força feminina’ para liderar deu o tom dos agradecimentos pela presença da líder na bancada. A pouca diversidade da mesa se repetiu nas cadeiras da plateia: peles brancas e cabelos lisos e grisalhos foram quase unanimidade. Homens também eram a maioria.

Álvaro Dias cumprimenta Sergio Moro antes do ex-juiz se retirar do evento de filiação de Deltan.

A plateia

Na plateia, além dos integrantes do MBL, chamou a atenção a presença de Narli Resende, líder do ‘acampamento Lava Jato’. Na sua cadeira de rodas uma série de adesivos sugerem que o ‘morismo’ tem raízes semelhantes ao ‘bolsonarismo’: a defesa do voto impresso, por exemplo, marca um espaço de destaque entre as etiquetas ostentadas por ela. O tema parece interessar à pauta lavajatista mais apaixonada tal qual aparece recorrentemente nas declarações de apoiadores do presidente no ‘cercadinho’ em Brasília.

As críticas ao Supremo Tribunal Federal também foram destaque nas conversas e comprovam que o Podemos não está tão distante de Jair Bolsonaro (PL) como quer fazer parecer. Deltan, por exemplo, voltou a afirmar que ‘não compreende a decisão’ tomada pela Corte. A mesma discordância foi explicitada por Moro e repetida por alguns dos outros políticos nos discursos. Quase todas as menções negativas ao tribunal foram aplaudidas.

“[A decisão do STF] institucionalizou a impunidade dos corruptos no Brasil. Nós vimos o STF também desestimular as delações premiadas e a devolução do dinheiro que havia sido desviado de todos nós”, criticou o ex-procurador.

“O errado parece o certo. Os criminosos são soltos pelos tribunais por razões que a gente não consegue entender e que ninguém consegue explicar direito. E a gente começa a pensar que não existe mais Justiça”, reforçou a crítica mais adiante.

Moro é a segunda dose de bolsonarismo

Ainda que não fosse sua intenção principal, Silvestri Filho, presidente do Podemos Paraná, parece ter resumido bem o sentimento dos presentes com a candidatura de Moro. Segundo disse em seu discurso, a candidatura de Bolsonaro teria sido ‘a primeira dose de um remédio’ e a de Moro seria ‘a segunda dose’ necessária para ‘curar’ o País.

“A eleição de Bolsonaro foi importante para o Brasil, nos livrou do PT. É como uma vacina, Bolsonaro foi a primeira dose e Moro será a segunda dose”, destacou o político em um trecho do seu discurso.

Adesivos mostram que apoiadores de Moro ainda se encantam com pautas típicas do bolsonarismo.
Foto: Getulio Xavier/CartaCapital

Lavajatistas foram recebidos sob protestos

Como nos outros eventos, Moro e companhia tiveram que enfrentar protestos já na entrada do hotel. Os mesmos ‘Lulas’ que marcaram presença no lançamento do livro do ex-ministro na capital paranaense estavam novamente prontos para ‘recepcionar’ os convidados de Deltan. Em coro bradavam: ‘Deltan fascista, corrupto e entreguista’. O grupo ainda gritava que o ex-procurador estaria inelegível.

Ainda que em pequeno número, os manifestantes assustaram a segurança do local, que acompanhou a movimentação com atenção e questionou jornalistas que pararam para fotografar e conversar com o grupo. Antes de ser autorizado a me deslocar para o hall, fui inquirido mais de uma vez se era repórter e estava credenciado. O mesmo se repetiu com colegas. Mesmo depois que entrei e peguei minha credencial, um segurança, que minutos antes me assistiu de longe falar com o grupo, chegou a questionar outro repórter no evento para saber se eu era mesmo ‘da imprensa’, como disse ao me apresentar na porta.

O protesto não foi ignorado pelos presentes. O senador Oriovisto, ao tratar do tema, chamou o grupo na entrada do hotel de ‘carinhas de bandeira vermelha falando bobagem’. “Parece que não enxergam a realidade”, disse incomodado o parlamentar.

Lula, o inimigo número um

A ‘presença de Lula’ não ‘assustou’ apenas os seguranças do ato de filiação de Deltan. Em ao menos duas ocasiões, o ex-presidente pelo PT foi citado como sendo uma das maiores ameaças ao Brasil.

Aos gritos, o deputado paranaense Paulo Roberto Galo parabenizou Moro por ter colocado ‘o maior ladrão do planeta na cadeia’. Deltan, alarmado, se referiu a Lula como ‘um monstro da corrupção brasileira’ revelado pela Lava Jato.

‘Corrupção, corrupção, corrupção…’

Antes de assinar a sua filiação, Deltan falou por pouco mais de 40 minutos, agradeceu a quem o ajudou a se formar como um político e citou o termo corrupção 77 vezes. O uso da palavra tornou a ‘palestra’ dada pelo procurador monótona. Não a toa, cerca de 20 minutos após o início da sua participação os assessores cobraram silêncio, ao olhar para os lados, era possível ver que a maior parte dos presentes estava de cabeça baixa e no celular.

Além das mais de 70 vezes em que a palavra saiu da boca de Deltan, o termo corrupção e suas variantes foi usado mais de 50 vezes pelos demais participantes.

Getulio Xavier

Getulio Xavier
Repórter do site de CartaCapital

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