Política

Declarações de Moro não empolgam plateia em lançamento de livro em Curitiba

Na terra da Lava Jato, ex-juiz repetiu os discursos protocolares e foi alvo de protestos: ‘Moro ladrão, seu lugar é na prisão’

Sergio Moro fala para uma plateia morna na 'República de Curitiba', terra natal da Lava Jato.

Foto: Reprodução/Redes Sociais
Sergio Moro fala para uma plateia morna na 'República de Curitiba', terra natal da Lava Jato. Foto: Reprodução/Redes Sociais

Quem pagou o ingresso para ver Sergio Moro (Podemos) lançar seu livro em Curitiba na noite de quinta-feira 2 ouviu poucas novidades da boca do ex-juiz. Em evento cheio, mas com público morno, Moro repetiu as mesmas declarações que garantiram espaços a ele na mídia desde que oficializou sua chegada ao cenário eleitoral.

A capital do Paraná não foi escolhida por acaso para sediar o primeiro evento de lançamento da obra, como fez questão de reforçar o ex-juiz logo na abertura do monólogo. É, segundo sua própria definição, o seu ‘local de poder’, já que foi onde nos últimos anos consolidou a operação Lava Jato que o levou de vez ao jogo político.

Como repórter, acompanhei ao longo de 2015 e 2016 dias movimentados no ‘acampamento Lava Jato’, uma tenda de apoiadores montada em frente à Justiça Federal em Curitiba. Esperava ver no lançamento aquele mesmo caos que encontrei quando estive no ‘centro da República de Curitiba’. Essa também era a intenção do ex-juiz. Surpreende, portanto, que o evento não tenha atraído os lavajatistas mais ferrenhos da sua terra natal.

Ainda que poucos lugares vazios tenham sobrado no teatro, em muitos momentos era como se o ex-ministro falasse apenas com o jornalista que mediava as declarações com perguntas genéricas e pouco comprometedoras.

O quase silêncio no evento só era interrompido vez ou outra por palmas protocolares durante as poucas frases de efeito ditas pelo pré-candidato. Em todas elas, porém, a sensação que tive foi de que alguém teve que aplaudir com muita insistência antes de ser seguido pelos demais.

Para ter certeza da frieza da plateia, acompanhei as mais de duas horas de evento de três lugares distintos: um mais ao fundo, um na faixa intermediária da plateia e outro de mais destaque, logo na terceira fileira a poucos metros do juiz.

Na última escolha fui mais ‘feliz’. Sentei ao lado de dois jovens do MBL, que soavam bem mais empolgados do que o restante da plateia. Ao todo, contei ao menos dez homens ostentando a camiseta da sigla que ajudou a fundar o bolsonarismo. Na minha frente outros dois lavajatistas um pouco mais ferrenhos. Deles pude ouvir alguns comentários sobre o que Moro dizia no palco a poucos metros dali. Em uma das ocasiões, um deles decretou:

“Este país vai para frente. Essa é a verdade. Estamos bem nas pesquisas”, disse antes de tratar sobre a chegada de André Mendonça ao Supremo Tribunal Federal. Segundo disse ao colega do lado, o melhor cenário era Moro no tribunal, mas Mendonça foi razoável perto das opções disponíveis. “Poderia ser o merda do [Augusto] Aras, já pensou?”, finalizou antes de voltar a prestar atenção no ex-juiz, que naquele momento dizia que o tribunal teria cometido um ‘grande erro jurídico’ na decisão que devolveu os direitos políticos ao ex-presidente Lula (PT).

Moro acena aos lavatistas de Curitiba.

Na plateia, Moro também contou com figurões familiares do seu tempo de magistrado, como o ex-procurador Deltan Dallagnol, com quem, como mostrou a Vaza Jato, definiu as estratégias de atingir opositores e aliviar os aliados. Um dos ‘aliviados’ também marcou presença, o senador Alvaro Dias, um dos responsáveis pela chegada de Moro ao Podemos. O parlamentar estava acompanhado de outros dois colegas do partido no Senado, Oriovisto e Flávio Arns, este último, quase esquecido por Moro nos agradecimentos.

Segundo o próprio ex-juiz, estavam presentes ali a maior parte da sua equipe no Ministério da Justiça. Muitos também ex-integrantes da Lava Jato que o acompanharam na empreitada pelo bolsonarismo.

Omissão

Moro voltou a se comprometer nas entrelinhas das suas declarações. As frases soaram a todo momento como uma confissão de culpa. A intenção, claro, era de mostrar virtudes, alegando, por exemplo, que seguiu no governo Bolsonaro para proteger a Polícia Federal, mesmo tendo presenciado mais de uma interferência direta do presidente no comando do órgão.

Os crimes do ex-capitão só vieram à tona após sua saída, mas aconteceram, segundo o próprio livro, ao longo de toda sua trajetória como ministro palaciano. Moro, com naturalidade, confessou sua omissão aos presentes.

Quando questionado pelo jornalista sobre motivos que o fizeram seguir mesmo tendo visto ‘tanta coisa’, Moro confessou: “É difícil abdicar dos seus sonhos. Tem muita coisa boa te prendendo no cargo”. Para ele, os projetos pessoais de ‘combate ao crime’, que tocava no Ministério da Justiça, eram suficientes para fechar os olhos para os desmandos do presidente.

Ali, o jornalista, único autorizado a fazer perguntas, não insistiu e o evento seguiu. Mas, no livro, Moro dá fortes indícios de que o ‘sonho’ a qual se refere era justamente ocupar uma cadeira no STF.

“A indicação do meu nome [ao STF] viria naturalmente se eu, como ministro da Justiça, fizesse um bom trabalho (aqui de fato fui ingênuo, admito)”, escreveu em um dos trechos da obra em que trata do assunto.

A pouca coragem de Moro de contrapor o presidente durante o governo também apareceu nas entrelinhas de seu discurso no lançamento. Em vários momentos, fez questão de usar a expressão ‘eu defendo vidas’, em uma tentativa de desvincular seu nome de um governo genocida. O ex-ministro deixa claro que participou de toda a discussão inicial das políticas de Bolsonaro para a condução da pandemia no Brasil. Diz que agiu para convencer o presidente de que ele estava errado na forma de lidar com vírus, mas que não cabia a ele contrapor seu chefe publicamente.

“Defendia sempre internamente. Falei para ele que, diante do desconhecido, nós deveríamos pensar no pior cenário possível para agir com cautela. Mas não cabia a mim falar publicamente, já que o porta-voz era o ministro da Saúde [Luiz Henrique] Mandetta”, explica Moro.

Novamente, o ex-juiz deixa claro que viu os primeiros passos de uma política de genocídio sendo desenhada, mas não trabalhou com afinco para impedir que ela seguisse.

Em suma, seguiu a ordem dada por Bolsonaro em outra ocasião, mas que, ao que parece, pautou sua atuação política: “Se não for para ajudar, não atrapalhe”, teria dito o ex-capitão ao conseguir barrar um dos passos importantes nas investigações contra o filho Flávio Bolsonaro. E foi de fato o que Moro fez, seguiu por meses no governo, ‘sem atrapalhar’.

Candidato Sergio Moro

Moro iniciou o evento dizendo que não iria misturar as coisas. Falaria ali sobre o seu livro e não trataria do seu projeto político, ainda em construção, segundo ele.

No decorrer do monólogo inicial, porém, deu alguns detalhes do que pretende fazer se eleito. Em resumo: “reviver a Lava Jato” e “fazer voltar a prisão em 2ª instância”.

“Sei que as pessoas estão preocupadas, com razão, com a inflação, desemprego, preços…é importante…mas temos que retomar o foco no combate à corrupção”, resumiu ao fim do evento seu projeto.

Protestos

Moro teve ainda que ‘enfrentar’ um pequeno protesto de opositores na entrada do estacionamento do evento. Ali, era possível ver alguns ‘Lulas’ recepcionando quem chegava ao lançamento.

Protestos com ‘Lulas’ na entrada do evento de lançamento do livro de Moro, em Curitiba.

Conversei com um deles, Felipe ‘Magal’ Mongruel, que me disse ter organizado o protesto com as máscaras do ex-presidente para ‘dar um recado’ aos lavajatistas.

“Moro ladrão, seu lugar é na prisão”, gritavam em alto e bom som para os carros que entravam no evento. Alguns motoristas devolviam buzinas e outros, um pouco mais ‘irritados’, gritavam que o grupo estava ‘defendendo um bandido’.

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