Política

Empossado, Bolsonaro promete libertar o País de “submissão ideológica”

Ao discursar, o presidente voltou a acenar para a sua base conservadora e disse que irá combater a “ideologia de gênero” e o “socialismo”

Bolsonaro desfila em carro aberto com a mulher, Michelle (Foto: Carl de Souza/AFP)
Bolsonaro desfila em carro aberto com a mulher, Michelle (Foto: Carl de Souza/AFP)
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Em seu primeiro discurso após tomar posse como o 38° presidente da República, Jair Bolsonaro fez um aceno para a sua base conservadora, prometendo combater a “ideologia de gênero”, respeitar a “tradição judaico-cristã” e libertar o Brasil da “submissão ideológica”. Bolsonaro reafirmou, ainda, o compromisso de promover “reformas estruturantes para a saúde financeira e sustentabilidade das contas públicas”.

“Convoco cada um dos congressistas para me ajudar na missão de restaurar e de reerguer a nossa pátria, libertando-a definitivamente do julgo da corrupção, da criminalidade, da irresponsabilidade econômica e da submissão ideológica”, afirmou ao Parlamento. “Vamos unir o povo, valorizar a família, respeitar as religiões e nossa tradição judaico-cristã. Vamos combater a ideologia de gênero, conservando os nossos valores. O Brasil voltará a ser um país livre das amarras ideológicas”.

Depois, em pronunciamento no Palácio do Planalto, voltou à carga: “É o início da libertação do Brasil do socialismo, do politicamente correto e do gigantismo do Estado”.

Sob forte e inédito esquema de segurança, a cerimônia começou às 14h, com a saída do presidente e sua mulher, Michele Bolsonaro, da Granja do Torto para a Catedral de Brasília. De lá, a comitiva desfilou em carro aberto, o Rolls Royce presidencial. Além de Michelle, o vereador carioca Carlos Bolsonaro, um dos filhos do presidente, também estava no carro. Em seguida, foi a vez de Bolsonaro e seu vice, o general Hamilton Mourão, serão recebidos no Congresso Nacional pelos presidentes da Câmara e do Senado, o deputado Rodrigo Maia e o senador Eunício Oliveira, além do presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, e a procuradora-geral da República, Raquel Dodge.

Bolsonaro e Mourão prestaram, na sequência, o juramento constitucional. O texto é o mesmo para todos os presidentes e vices eleitos. Eles se comprometem a “manter, defender e cumprir a Constituição, observar as leis, promover o bem geral do povo brasileiro”. Após assinar o termo de posse, eles se tornaram oficialmente presidente e vice-presidente da República.

Bolsonaro faz juramento à Constituição no Parlamento (Foto: Carl de Souza/AFP)

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Obstáculos ao trabalho da imprensa

Um inédito esquema de segurança marca a posse de Bolsonaro, a incluir mísseis antiaéreos guiados por laser e capazes de abater aviões a até 7 quilômetros de distância. Mais de 6 mil agentes foram mobilizados, entre membros das Forcas Armadas, policiais civis, militares e federais e bombeiros. Na semana passada, um decreto assinado por Michel Temer autorizou que a Forca Aérea Brasileira possa abater aeronaves “suspeitas ou hostis”.

O esquema provocou restrições severas ao trabalho da imprensa. Jornalistas que cobrem a cerimônia foram impedidos de circularem livremente entre os locais em que ocorrem as diferentes etapas da cerimônia. Desta vez, o credenciamento dos meios de comunicação foi feita por setores, e jornalistas, fotógrafos e equipes de filmagem só puderam ter acesso a um único local de cobertura. Assim, profissionais autorizados a acompanhar o discurso solene de Bolsonaro no Congresso Nacional não poderão entrar no Palácio do Planalto.

Os profissionais também foram obrigados a esperar longas horas em locais pré-determinados antes do início de cada etapa. Em cerimônias anteriores, a circulação da imprensa era livre. Vários veículos também não tiveram seus pedidos de credenciamento concedidos na totalidade, ficando restritos a apenas algumas etapas da cerimônia.

Mais do que evidenciar problemas de organização, as ações parecem mostrar o relacionamento tumultuado que Bolsonaro deve ter com a mídia. Jornalistas relataram que membros de veículos e blogs conservadores pró-Bolsonaro conseguiram circular livremente entre os diferentes setores, ao contrário dos profissionais de veículos conhecidos. Vários profissionais de imprensa foram hostilizados por partidários de Bolsonaro que foram à Esplanada dos Ministérios acompanhar a posse.

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Expectativa de mudança embala apoiadores

O dia nublado, com pancadas de chuvas, não afugentou os apoiadores de Bolsonaro. Em grupos, milhares de cidadão desceram a Esplanada dos Ministérios para acompanhar a cerimônia de posse, usando camisetas brancas, amarelas, verdes e pretas, algumas delas com slogans de campanha, como “Bolsonaro Presidente” e “Meu partido é o Brasil”.

Perto de uma das entradas, um jipe do Exército dava as boas-vindas “à festa da democracia” e lembrava que há atiradores de elite posicionados em locais estratégicos e um dispositivo em caso de ataque químico. A cerimônia foi planejada com medidas de segurança sem precedentes para este tipo de ato, que bloqueou a Esplanada dos Ministérios, entre a Catedral de Brasília, o Congresso e o Palácio do Planalto.

“Vim pelo mito. É algo que nunca vivemos antes na história do Brasil”, afirmou a professora baiana Vandelice Morais, de 67 anos, em entrevista à agência AFP. Usando uma camisa com o símbolo da polícia de Nova York, o também professor Mauro Pena não escondia as esperanças depositadas no novo governo. “Contamos com ele para acabar com a criminalidade e para tomar medidas mais liberais na economia”, disse o docente de 36 anos, admirador do governo dos Estados Unidos.

Milhares de apoiadores compareceram na Esplanada dos Ministérios a posse de Bolsonaro (Foto: Evaristo Sá/AFP)

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Da caserna para o Palácio do Planalto

Capitão reformado do Exército, Bolsonaro saiu das Forças Armadas em 1988, após um rumoroso processo disciplinar no qual foi acusado de planejar explodir bombas em quartéis para reivindicar aumento salarial. Acabou absolvido pelo Superior Tribunal Militar por falta de provas. Naquele mesmo ano, lançou-se na política e conquistou uma cadeira de vereador no Rio de Janeiro. Dois anos depois, ele desembarcava na Câmara dos Deputados.

No início, a sua atuação legislativa era voltada, sobretudo, à defesa de benefícios e melhor remuneração para os militares. Por se portar como uma espécie de “sindicalista da caserna”, sempre foi visto com desconfiança pelo alto oficialato – resistência que parece ter diminuído somente nos últimos anos, à medida em que o parlamentar conquistou a simpatia e o apoio de generais da reserva. Em 1993, o ex-ditador Ernesto Geisel chegou a chamar Bolsonaro de um “mau militar”.

Em quase 30 anos de atuação parlamentar, Bolsonaro conseguiu aprovar apenas dois projetos de sua autoria. O primeiro trata de uma proposta que estendia o benefício de isenção do Imposto sobre Produto Industrializado (IPI) para bens de informática. O segundo autorizava o uso da chamada “pílula do câncer” – a fosfoetanolamina sintética, que jamais teve sua eficácia científica comprovada. Ele nunca ocupou cargo de destaque no Parlamento e sempre integrou o chamado baixo clero.

Racista, homofóbico, misógino e pró-ditadura, como resumiu o jornal francês Liberátion e diversas outras publicações estrangeiras, Bolsonaro foi recordista em representações no Conselho de Ética da Câmara. Nos anos 1990, chegou a dizer que o então presidente Fernando Henrique Cardoso deveria ter sido fuzilado durante a ditadura. O desejo de eliminar adversários políticos à bala parece uma obsessão. Em plena campanha, durante um comício no Acre, prometeu “fuzilar a petralhada”, enquanto simulava uma execução com um tripé de câmera.

Dono de um discurso visceral contra o PT, soube como ninguém se beneficiar do antipetismo alimentado pela mídia desde o impeachment de Dilma. Com uma legião crescente de seguidores nas redes sociais, é frequentemente saudado por apoiadores aos gritos de “mito”. Fenômeno digital, era o candidato à Presidência com maior número de seguidores no Facebook, mais de 7,3 milhões. No Twitter, eram mais de 1,6 milhão.

Sua maior força, no entanto, está no WhatsApp, onde as postagens dos incontáveis grupos de fãs não podem ser rastreadas. De acordo com um estudo do Instituto para Internet de Oxford, os apoiadores de Bolsonaro são os que mais disseminam notícias falsas ou distorcidas.

Ao longo da campanha, Bolsonaro foi acusado de se beneficiar de uma rede ilegal de disparo de mensagens anti-PT bancada por empresários próximos, a exemplo de Luciano Hang, da rede varejista Havan. O Tribunal Superior Eleitoral determinou a abertura de um inquérito para apurar o caso.

Bolsonaro foi eleito presidente da República com 57,7 milhões de votos, 55% do total válido. Foram mais de 10 milhões de sufrágios de vantagem sobre o seu adversário no segundo turno, o petista Fernando Haddad. Com promessas de reformas liberais na economia e um agressivo discurso contra a esquerda, ele interrompeu a série de vitórias do PT, que ganhou quatro eleições consecutivas entre 2002 e 2014.

* Com informações da AFP e da Deutsche Welle.

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