Justiça
Como o andamento do Caso Master embaralha as ofensivas eleitorais de Lula e Flávio Bolsonaro
No PT, uma ala defende que Jaques Wagner se explique longe do governo. No PL, a ordem é baixar o tom para tentar separar Flávio de Vorcaro, a quem chamou de ‘irmão’
A fase mais recente da Operação Compliance Zero embaralhou a estratégia eleitoral em torno do escândalo do Banco Master. Até aqui, o caso vinha sendo um problema mais incômodo para a direita, pela densidade das relações políticas, pessoais e financeiras entre Daniel Vorcaro e figuras do campo bolsonarista ou de seu entorno. A ofensiva contra Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo no Senado e um dos quadros mais graúdos do PT, muda esse cenário — não porque reescreva a natureza política do escândalo, mas porque leva o desgaste para a antessala do Palácio do Planalto.
Wagner tornou-se o primeiro aliado do núcleo de Lula a ser alvo de buscas na investigação. A Polícia Federal suspeita que vantagens econômicas tenham sido destinadas ao senador por meio de empresas ligadas ao seu núcleo familiar e da aquisição de um apartamento em Salvador. O senador nega irregularidades.
No PT, a ordem é tentar impedir que as suspeitas respinguem em Lula. Uma ala petista defende que Wagner deixe a liderança do governo no Senado para reduzir o custo político da crise. O senador, porém, desconversa. Lula, amigo de Wagner há décadas, ainda não se pronunciou publicamente sobre o caso.
Já o PL tenta explorar a chegada da investigação ao entorno de Lula, mas precisa separar Flávio Bolsonaro de um banqueiro a quem ele chamou de “irmão”, visitou durante sua prisão domiciliar e de quem teria obtido 134 milhões de reais para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro. A proximidade entre os dois tornou-se um escândalo que fez derreter nas pesquisas a candidatura do senador.
Nos bastidores da campanha de Flávio, a avaliação é que o caso deve ser explorado de forma pontual, sem transformá-lo no eixo da disputa. Aliados dizem que insistir demais no escândalo pode reacender questionamentos sobre a própria relação de Flávio com o banqueiro do Master.
A amplitude das relações de Vorcaro ajuda a explicar por que o escândalo deixou de ser uma arma de uso exclusivo e se tornou um problema para praticamente todos os polos de poder em Brasília.
Até aqui, a investigação já havia alcançado o senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro. Conversas apreendidas pela Polícia Federal mostram uma relação de proximidade entre ambos, incluindo viagens internacionais e troca frequente de mensagens.
Também surgiram nas investigações referências ao ex-governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), que mantinha contato constante com Vorcaro e participou de eventos promovidos pelo banqueiro.
Outro personagem citado ao longo das apurações é o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). Ele procurou Vorcaro para liberar um crédito de 22 milhões de reais para a sua cunhada e viajou às custas do banqueiro para Lisboa, em Portugal. O deputado nega irregularidades.
No caso de Flávio Bolsonaro, porém, a exposição é mais direta. Mensagens divulgadas ao longo dos últimos meses mostram não apenas uma relação pessoal com Vorcaro, mas palavras de apoio enviadas ao banqueiro durante as investigações.
O resultado é um cenário eleitoral em que nenhum dos principais campos consegue transformar o caso Master em munição limpa contra o adversário. O PT tenta sustentar que a relação entre Flávio e Vorcaro é mais profunda e atinge diretamente o próprio candidato à Presidência. O PL, por sua vez, aposta que a chegada da investigação ao entorno de Lula enfraquece o discurso ‘Bolsomaster’ petista.
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