Justiça
Omertà
Vorcaro insiste em poupar os amigos. Ainda assim, a coisa só piora para os Bolsonaro e o Centrão
Em abril de 2025, quando ainda não havia ido em cana e apelava à sua rede de relações no poder para tentar salvar o Banco Master, Daniel Vorcaro mandou uma mensagem pelo celular à namorada: “Esse negócio de banco sempre falei que é igual máfia. Não dá pra sair. Ninguém sai. Bem não sai. Só sai mal”. Vorcaro é neto de um imigrante italiano. Lá existe entre os mafiosos um código de silêncio conhecido como Omertà. Ninguém deve cooperar com as autoridades, revelar ilícitos, denunciar colegas de crime, mesmo se cair nas garras da lei. Preso preventivamente desde março por vigarices da hoje finada instituição financeira, o ex-banqueiro mineiro negocia há tempos uma delação premiada com a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República, na esperança de escapar da cadeia e salvar parte da fortuna. E o faz de forma paradoxal. Com ele, até aqui vale a Omertà. Não confessa delitos nem quer entrega parceiros, principalmente se forem da política. O responsável pelo maior escândalo financeiro da história brasileira parece achar-se mais esperto do que as autoridades e que se safará de algum jeito, basta deixar o tempo passar.
A atitude levou a PF a recusar nos últimos dias mais uma proposta de colaboração premiada, a segunda negativa em um mês. A Procuradoria-Geral da República tendia a repetir a dose, embora não houvesse confirmação por lá nem nos bastidores até a conclusão desta reportagem, na manhã da quinta-feira 11. Na sexta-feira 12, venceria o prazo dado pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, para que os advogados de Vorcaro pudessem falar com o cliente até oito horas diárias. A menos que o relator do caso Master esticasse o benefício, as conversas passariam a ser de, no máximo, meia hora por dia. O ex-banqueiro corria o risco ainda de deixar uma cela especial e ir para uma comum na carceragem da PF em Brasília, vaivém visto desde a negociação da primeira de delação, no início de maio, rejeitada pela polícia e pelo Ministério Público por conta das mesmas razões que prenunciavam igual desfecho agora. Vorcaro não conta nada que os investigadores já não saibam nem explica como pagaria a multa do acordo. As falcatruas foram tamanhas que são espantosas as cifras a circular sobre o pecúnio. Algo entre 40 bilhões e 60 bilhões de reais. Como teriam sido calculadas? Duas pistas. Primeira: a despesa do Fundo Garantidor de Crédito para ressarcir os clientes do Master após a liquidação da instituição pelo Banco Central, cerca de 40 bilhões. E o gasto do BRB, banco estatal de Brasília, com carteira de crédito fajuta do Master, 12 bilhões. A multa a um delator costuma embutir o prejuízo causado à sociedade e, também, uma espécie de castigo, para desencorajar novos crimes. Na PF, a informação é que, mais importante do que a quantia, é saber como, quando e onde Vorcaro providenciaria os recursos. O ex-banqueiro e alguns parentes estão com os bens bloqueados, o Master foi fechado.
A PF e a PGR não veem novidades nas informações prestadas até o momento pelo banqueiro
Para um advogado criminalista atuante em Brasília, os valores discutidos não são apenas espantosos. Permitem supor duas hipóteses. Ou Vorcaro prestou serviços a facções como PCC e Comando Vermelho e conseguiria os recursos com elas ou então tem protegido gente poderosa e graúda que se encarregaria de honrar a multa em troca do silêncio do cúmplice. E quem ganha com o silêncio protetor? O Centrão, caraterização inadequada para um grupo político que na essência é direitista, e o clã Bolsonaro.
A extrema-direita queria uma delação que enlameasse o PT, para trombetear que o Master é um escândalo suprapartidário. Compreensível. O senador Flávio Bolsonaro, filho mais velho do capitão e pré-candidato a presidente, tinha relação íntima com Vorcaro, a quem chamava de “irmão” e pediu dinheiro para financiar um filme sobre o pai, conforme revelou o site The Intercept Brasil em maio. O mesmo veículo revelou o fluxo dos 10 milhões de dólares usados supostamente para bancar a película. Na verdade, os recursos foram parar em fundos ligados a Eduardo, o filho 03, deputado cassado e autoexilado nos Estados Unidos, onde cometeu crimes de lesa-pátria e, por consequência, será julgado à revelia pelo STF. Não bastasse, a revelação da intimidade e da conjunção carnal com Donald Trump, cujo governo anunciou outro tarifaço ao Brasil e ameaçou o Pix, foi um mau negócio para o senador. Pesquisa Quaest divulgada na quarta-feira 10, em consonância com outros levantamentos, um deles censurado por Kassio Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, mostra o aumento da distância entre o 01 e o presidente Lula. São 10 pontos de vantagem para o petista no primeiro turno e 6 na segunda volta. Mais: 16% dos entrevistados acreditam que o clã Bolsonaro é o mais afetado negativamente pelo caso Master, enquanto para 10% é o governo. No levantamento anterior à divulgação das conversas de Flávio com Vorcaro, dava 11% a 9% de responsabilidade atribuída ao governo.
Uma das operações policiais no Rioprevidência, fundação generosa com o Master – Imagem: Polícia Federal
Certos conteúdos da nova proposta de delação vieram a público após começarem a correr os rumores de que ela seria rejeitada pelas autoridades. O ex-banqueiro teria dito não haver nada ilegal no financiamento do filme Dark Horse. Omertà na veia. Fontes da PF creem que os vazamentos foram obra dos advogados do mineiro, em uma tentativa de usar a mídia para forçar o acordo. Segundo os vazamentos, Vorcaro teria detalhado as relações com o senador Ciro Nogueira, chefe da Casa Civil no governo Bolsonaro, presidente do PP e um dos líderes do Centrão. E também com Cláudio Castro, do PL, ex-governador bolsonarista do Rio de Janeiro. Dois figurões que a polícia não precisava de confissões para colocar na mira. Os celulares do ex-banqueiro apreendidos pela PF são fontes de indícios e provas. Graças a eles, os federais realizaram batidas contra Nogueira e Castro em maio. A dupla é acusada de receber propina para defender os interesses de Vorcaro. O senador propôs no Congresso mudar a Constituição para ampliar os limites do FGC, iniciativa na medida para o Master. Já o fundo de previdência dos servidores fluminenses injetou bilhões no banco quando este já estava à beira do abismo.
O comando do Rioprevidência foi nomeado por Castro em um acordo com Antonio Rueda, cacique máximo do partido União Brasil. Rueda é um sujeito poderoso, embora não tenha um único voto, nunca tenha concorrido a nada, observa um juiz do Supremo. Sua especialidade, prossegue o togado, parece ser encontrar meios de lavar dinheiro sujo da política. A proposta de delação de Vorcaro o cita como alguém que teria recebido recursos, via escritórios de advocacia, embora sem esclarecer a troco de quê. Outro mencionado, segundo os vazamentos, é o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, que teria sido financiado por Vorcaro via caixa 2 na derrotada campanha ao Senado pelo PSD de Minas Gerais em 2022. Surpreende que não haja mais nomes do mundo político mineiro associados às falcatruas.
A PF desconfia que os advogados de Vorcarotêm vazado informações para impedir a rejeição da delação
Conforme outro vazamento, Vorcaro teria dito que o PT da Bahia, no poder no estado desde 2007, também teria recebido pagamentos. Eis um flanco que o bolsonarismo queria usar contra Lula e o governo no caso do Master. A ligação do petismo baiano com Vorcaro não é direta. Em 2018, a Bahia privatizou uma rede pública de supermercados. O Master não existia, seria autorizado a funcionar em 2019 pelo Banco Central. O comprador da rede foi uma empresa pertencente a um empresário baiano, Augusto Lima, que se tornaria sócio de Vorcaro no Master posteriormente, entre 2019 e 2020.
Apesar do flanco baiano, uma testemunha de reuniões presidenciais do ano passado sobre o escândalo do Master conta que Lula incentivou todo o tempo as investigações da PF, por acreditar que atingiriam um certo quinteto: Nogueira, Rueda, o senador Davi Alcolumbre, comandante do Senado, e os deputados Hugo Motta, presidente da Câmara, e Arthur Lira, o ex. A fina flor do dito Centrão, bloco político que instituiu um parlamentarismo disfarçado graças à explosão de verbas para emendas parlamentares, em especial a partir do governo Bolsonaro. Após o estouro do escândalo do Master, em novembro passado, um dirigente de uma grande entidade bancária comentou com um político do Distrito Federal que o caso era um “tiro na testa” de figurões políticos e elencou o mesmo quinteto mencionado por Lula.
Cláudio Castro ordenou os investimentos do fundo de pensão fluminense. Costa (de blazer preto) está pronto a denunciar Rocha. E Nunes Marques apela para a censura de pesquisas – Imagem: Gustavo Moreno/STF, Agência Brasília, Lúcio Bernardo/Agência Brasília e Tomaz Silva/Agência Brasil
A investigação assombra Alcolumbre, integrante do União Brasil de Rueda, por causa do tesoureiro de sua campanha ao Senado em 2022. Jocildo Silva Lemos assumiu no ano seguinte o comando do fundo de previdência dos servidores do Amapá, por um acordo de Alcolumbre com o governador aliado, Clécio Luís. Um irmão do senador, Alberto Alcolumbre, é do conselho fiscal do Amprev. Em 2024, o Master ficou à beira do abismo, e a entidade comprou 400 milhões de reais em títulos do banco. É proporcionalmente mais do que os quase 4 bilhões aplicados pelo Rioprevidência. A população do estado do Rio é 20 vezes maior do que aquela do Amapá. Em fevereiro, a PF fez uma operação, a Zona Cinzenta, sobre os negócios do Amprev com o Master. Lemos e mais dois diretores do fundo tiveram os celulares confiscados.
E os deputados Motta e Lira, como correm perigo? O presidente da Câmara tem uma “emenda Master” para chamar de sua, a exemplo de Nogueira. Com uma diferença. Foi bem-sucedido e emplacou-a na lei. Em dezembro de 2023, propôs alterar um projeto que tratava do “mercado de crédito de carbono” e estava em vias de ser votado. A emenda obrigava seguradoras e fundos de previdência a investir em ativos ambientais. A família Vorcaro tinha na Amazônia negócios no “mercado de crédito de carbono”, atividade que lucra com a preservação da natureza. A emenda virou lei em 2024. Naquele ano, Bianca Medeiros, irmã da esposa do presidente da Câmara, pegou empréstimo milionário no Master e nunca pagou. A Confederação Nacional das Seguradoras recorreu ao Supremo contra a emenda. Henrique Vorcaro, pai de Daniel e em prisão preventiva desde maio, procurou representantes do setor para encerrar o processo de forma amigável, desde que o investimento mínimo fosse mantido. Deu errado. O STF derrubou a emenda no fim de maio. Em sua defesa, Motta diz que a proposta “foi resultado de um acordo partidário”. A Casa legislativa era comandada na ocasião por Arthur Lira, padrinho de Motta ao mesmo cargo em 2025. Lira foi a favor da emenda. Eis por que o senador emedebista Renan Calheiros, inimigo de Lira em Alagoas, chama de “emenda Hugo-Lira”. Há alguns dias, Calheiros entrou com uma ação popular na Justiça na qual pede o bloqueio de 117 milhões de reais do que restou do Master e de dirigentes do fundo de pensão dos servidores de Maceió, o Iprev, pelos investimentos daquela monta no finado banco de Vorcaro. A cidade era comandada à época do aporte por João Henrique Caldas, ex-deputado aliado de Lira que se licenciou da prefeitura em abril para concorrer a governador contra o filho de Calheiros.
Mendonça, relator do caso Master no STF, queria a cabeça do colega Moraes. Fábio Luís permanece na linha de tiro do magistrado – Imagem: Nelson Almeida/STF e Rosinei Coutinho/STF
O emedebista é um dos maiores especialistas do Congresso sobre o caso Master, em razão de um time investigativo criado por ele na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado. Segundo Calheiros, trata-se de um escândalo sobretudo do Centrão. Personagens desse grupo, acredita, podem ser incriminados por uma delação de Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB. O executivo está preso em caráter preventivo desde abril, acusado de ganhar 146 milhões de reais em imóveis de Vorcaro em troca de favores. Diante de uma crise reputacional a partir de 2024, informa um documento do Banco Central, o BRB começou a comprar carteiras de crédito do Master. Gastou 12 bilhões de reais com papéis fajutos, cedidos ao Master por uma empresa de faz de conta aberta no fim de 2024, a Tirreno. A aquisição de parte do banco pelo BRB, barrada pelo BC, buscava encobrir o trambique. Costa topa acusar o ex-governador do Distrito Federal Ibaneis Rocha, do MDB, e apontar o caminho do dinheiro de Vorcaro até ele, conforme uma fonte com conhecimento da proposta de delação. Coube a Rocha nomear Costa para a instituição pública do Distrito Federal em 2019.
Calheiros destaca o fato de o Centrão ter obsessão por mandar em bancos via apadrinhados, caso do BRB e da Caixa Econômica Federal na atual gestão Lula. Costa foi para o BRB em 2019 depois de sair da Caixa após o governo Michel Temer. Um dos integrantes do conselho fiscal do BRB desde 2019, o advogado Engels Muniz, foi chefe de gabinete do responsável pela área jurídica da Presidência de Temer. Este é amigo de Rocha, ambos do mesmo partido. O ex-presidente atuou para encurtar o afastamento judicial do então governador após o 8 de janeiro de 2023 graças ao canal com Alexandre de Moraes, seu indicado ao STF em 2017. Temer foi contratado por Vorcaro no ano passado para tentar salvar a compra de parte do Master pelo BRB, fez reuniões com o então banqueiro e Rocha quando o BC proibiu o negócio, em setembro.
O bolsonarismo ainda espera que Mendonça faça alguma acusação formal contra Fábio Luís, filho do presidente Lula
O Centrão pressionou o BC para aprovar a transação, ao propor votar com urgência, na Câmara, uma lei que acabava com os mandatos da diretoria da autoridade monetária. Calheiros coloca o Master na lista dos bancos do agrupamento político. Uma integrante do grupo, a ex-deputada Flávia Arruda, ministra da Articulação Política de Bolsonaro de 2021 a 2022, enquanto Nogueira estava na Casa Civil, foi diretora, em 2023, da área de Relações Institucionais do Master. Depois assumiu a diretoria de Assuntos Ambientais, na virada para 2024. Em uma audiência pública no Senado na terça-feira 9, Calheiros contou ter recebido um recado de Vorcaro no início do ano, ligado para ele e ouvido o seguinte: “O noticiário estava sendo administrado pelo Centrão e contra o Supremo”. No momento da conversa, o ex-banqueiro estava solto e topava depor no Senado em março, mas acabou preso pela PF no início daquele mês.
O STF havia entrado na berlinda no caso Master a partir de dezembro passado, devido aos elos de dois magistrados com Vorcaro: Moraes e José Dias Toffoli. A mutação do noticiário interessava a todos que aprontaram ao lado do mineiro. Uma operação-abafa com apoio do tribunal viria a calhar bem a essa turma. De acordo com uma fonte bem informada sobre o universo jurídico em Brasília, graças ao cargo, Mendonça, o juiz do caso, queria a cabeça de Moraes na delação de Vorcaro. Não a de Toffoli. Quando chefiava a Advocacia-Geral da União em um governo anterior de Lula, Toffoli abriu a Mendonça, então servidor da AGU, as portas da progressão na carreira. No governo Bolsonaro, Mendonça comandou a AGU e o Ministério da Justiça, antes de ser indicado pelo capitão ao Supremo.
A PF de Andrei Rodrigues e a PGR de Gonet não têm pressa em chancelar a delação premiada – Imagem: Evaristo Sá/AFP e José Cruz/Agência Brasil
O juiz é relator de outro caso rumoroso atualmente, as fraudes com aposentadorias pagas pelo INSS. Segundo informações que circulam nos bastidores no Congresso, o gabinete de Mendonça estaria pronto para caracterizar Fábio Luís da Silva, filho mais velho do presidente Lula, como sócio de Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”. Falta saber se as investigações da PF sobre o caso vão chegar à mesma conclusão. “Não acredito (que haja essa caraterização do Fábio). Não há elementos (para isso)”, afirma o advogado Marco Aurélio de Carvalho, amigo e conselheiro jurídico de “Lulinha”. Que completa: “Acredito na condução serena do ministro André Mendonça desse caso”.
O indicado de Bolsonaro espera receber em breve um relatório da PF a respeito do estágio das apurações, em especial das descobertas feitas a partir da quebra dos sigilos bancário e fiscal de Roberta Luchsinger. A empresária é amiga de Fábio Luís e teve os sigilos quebrados juntamente com aqueles de “Lulinha” no início do ano. O relatório foi requerido pelo magistrado em maio, após o inquérito policial ter trocado de mãos. A PF diz que a saída do delegado original do caso, Guilherme Figueiredo da Silva, ocorreu porque as apurações mudaram de repartição internamente. Deixaram a área de Divisão de Repressão a Crimes Previdenciários e passaram à Coordenação de Inquéritos em Tribunais Superiores. Em meio a filmes e “Vorcarices”, a caracterização de “Lulinha” como sócio do “careca” daria uma mãozinha a Flávio Bolsonaro. Mas, se desde 2006, com o caso do “mensalão”, o tema “corrupção” virou um abacaxi para o PT em disputas eleitorais, neste ano deve ser diferente. Lula e o partido estão prontos para partir para o ataque. Promessa de uma eleição radicalizada. •
Publicado na edição n° 1417 de CartaCapital, em 17 de junho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Omertà’
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