Política

Com Lula no poder, acampamento bolsonarista em Brasília esvazia e amarga piora na estrutura

Ao contrário do que se via antes da posse, no dia 1º de janeiro, muitos já não ficam ali 24 horas por dia

Foto: EVARISTO SA / AFP
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Passada a posse do presidente Lula (PT), os bolsonaristas que restam acampados em frente ao Quartel General do Exército em Brasília ainda mantêm a esperança de impedir o petista de governar.

CartaCapital voltou ao local na terça-feira 3 e encontrou um cenário diferente daquele visto em meados de novembro, quando milhares de manifestantes pediam intervenção militar contra a derrota de Jair Bolsonaro (PL).

Ao contrário do que se via antes da posse, no dia 1º de janeiro, muitos já não ficam ali 24 horas por dia. Outra diferença em relação a novembro é a redução das opções de alimentação no local.

A aposta de que Lula não subiria a rampa do Palácio do Planalto deu lugar a uma nova teoria: os militares, segundo os bolsonaristas, deixaram o presidente assumir para terem mais alguns dias para agir.

“Não podemos sair daqui. [A posse] Foi um teatro”,  disse um deles a um colega. Mais adiante, em outro grupo, uma senhora que distribuía água em uma barraca afirmava: “Pelos meus estudos, são 122 dias” – o tempo supostamente necessário para as Forças Armadas tomarem alguma atitude.

Uma das narrativas difundidas pelos bolsonaristas para justificar a continuidade dos acampamentos é que a não ida de Lula para o Palácio do Alvorada seria um sinal de que o presidente ainda encontra resistência de algumas autoridades para assumir o poder.

Vigora também uma fake news segundo a qual Paulo Guedes, ex-ministro da Economia, ainda não teria desocupado totalmente a Granja do Torto, uma das residência oficiais da Presidência da República. O ‘Posto Ipiranga’, entretanto, deixou o lugar há mais de duas semanas.

“As coisas já estão acontecendo”, confidenciou um militante. “O homem [Lula] ainda está no hotel, as mudanças de Bolsonaro e de Paulo Guedes ainda estão lá. Então é porque está acontecendo algo bom. Se não tivesse, eles já não teriam tirado?”.

A explicação verdadeira é outra: o Palácio do Planalto passa por varreduras da Polícia Federal para identificar possíveis grampos deixados por integrantes do governo anterior. Já o Palácio do Alvorada será reformado.

Para os bolsonaristas, a viagem do ex-presidente para os Estados Unidos não representa uma desistência do cargo. Nem as declarações do ex-capitão em uma live de despedida foram suficientes para desmobilizá-los.

Cansaço e piora na estrutura

CartaCapital acompanhou um debate sobre quem deveria permanecer em tempo integral e quem voltaria quando fosse chamado. Uma militante, que está desde o início no ato, admitiu o cansaço: “Só a fé move esse lugar”.

Antes, as barracas que distribuíam comida grátis contavam com frutas para a hora do lanche. Agora, há apenas água e biscoito recheado. O almoço, porém, segue mantido – uma fila se forma diariamente por volta do meio-dia.

Havia também espaços reservados para filantropia, atendimento médico e comércio. Desta vez, essas barracas não foram encontradas. “Descobrimos que a maioria dos ambulantes aqui era petista”, justificou um manifestante.

Um incomodo recorrente, disseram os bolsonaristas, tem sido as provocações de eleitores de Lula que passam pelo local. “Eu estou em uma tensão danada. Se esse povo aqui [o Exército] não resolver, vou comprar uma arma”, esbravejou um militante. “Eu não vou mexer com ninguém, mas quem encher meu saco…”.

Nesta terça 3, o estresse tomou conta do acampamento quando alguém descobriu a presença de um profissional da imprensa que cobria o ato antidemocrático. O jornalista foi expulso e precisou ser escoltado por militares.

Veja o vídeo:

A aglomeração de bolsonaristas na capital federal era vista por parte dos integrantes do novo governo como uma ameaça à posse de Lula.

O ministro da Justiça e Segurança Pública, Flávio Dino (PSB), defende uma ação mais enérgica para dissipar os apoiadores do ex-presidente. No entanto, pelo fato do acampamento estar localizado em uma área militar, cabe ao ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, a palavra final.

Mucio chegou a revelar que tem amigos e parentes nos acampamentos e que nem todos os participantes são radicais.

“Eu acho que aquilo [as manifestações] vai se esvair. Na hora que o ex-presidente da República entregou seu cargo, saiu do cargo, que o general Mourão fez um pronunciamento falando que todos voltassem a seus lares”, declarou a jornalistas após ser empossado. “Aquelas manifestações no acampamento, falo com autoridade porque tenho parentes lá, no de Recife, tenho alguns amigos aqui, é uma manifestação da democracia. Aos pouquinhos aquilo vai se esvair e vai chegar ao lugar que todos nós queremos.”

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