Bolsonaro prejudicou programa de vacinação, diz ex-coordenadora do PNI

'Qualquer programa de vacinação, para ter sucesso, precisa de vacina e comunicação, e não tive nenhum dos dois', afirma Francieli Fontana

A coordenadora do Programa Nacional de Imunizações (PNI), Francieli Fontana.

Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

A coordenadora do Programa Nacional de Imunizações (PNI), Francieli Fontana. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Política,Saúde

Francieli Fontana, ex-coordenadora do Programa Nacional de Imunizações, o PNI, afirmou que as declarações do presidente Jair Bolsonaro prejudicaram o andamento e a estratégia de vacinação contra a Covid-19 no Brasil. A análise da ex-coordenadora foi feita em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo.

“Vimos que começou a haver dúvidas da própria população em relação à vacinação. Precisaríamos ter um comportamento que unificasse o país e uma comunicação única”, ressaltou ao relembrar das inúmeras declarações do presidente que questionavam a eficácia da vacina.

A postura, segundo ela, influenciou significativamente nas opiniões da população contra o imunizante e dificultaram o andamento do programa.

 

 

Outras declarações de Bolsonaro que atrapalharam as estratégias do programa se referem ao não uso de máscaras, principalmente a sugestão do presidente de que quem foi vacinado deveria parar de usar o item de proteção. A estratégia do PNI vai no sentido contrário.

Segundo explicou, a sugestão do presidente da República tornou o “cenário muito ruim para o Programa de Imunizações. Não vacinamos ainda quantitativo suficiente da população e estamos com número de casos expressivo”.

 

Governo dificultou propaganda da vacina

Durante a entrevista, a ex-coordenadora também revelou que o governo de Jair Bolsonaro dificultou as campanhas publicitárias sobre a importância da vacinação.

“Qualquer programa de vacinação no mundo, para ter sucesso, precisa de vacina e comunicação, e não tive nenhum dos dois”, afirma.

Fontana contou que solicitou várias vezes ao então ministro da Saúde Eduardo Pazzuelo e à comunicação da pasta que se fizessem campanhas informando a população sobre a eficácia da vacina e quais eram os grupos prioritários. Os pedidos, no entanto, não foram atendidos.

“Dificilmente se conseguia uma comunicação. Eu entrava em contato com o núcleo de comunicação, que fazia contato com a assessoria, e não era explorado esse tema”, conta.

O atraso nas doses também trouxe grandes problemas ao andamento do programa. Apesar de não fazer parte das negociações, a coordenadora afirma que sempre ressaltou ao ministério a importância de se iniciar o programa com um grande volume de doses para que ele tivesse efetividade.

A demora na aquisição e chegada de vacinas é alvo da CPI da Covid no Senado. Segundo apontam as investigações da comissão, Bolsonaro teria ignorado dezenas de e-mails da Pfizer oferecendo milhões de doses de vacina.

Também de acordo com o inquérito,  Bolsonaro dificultou a negociação da Coronovac pelo Instituto Butantã, com declarações que prejudicaram o relacionamento do Brasil com a China.

Ainda pesam sobre o governo suspeitas de corrupção nas negociações da vacina indiana Covaxin e da chinesa Convidencia, produzida pelo CanSino. Denúncias de pedidos de propina na aquisição de 400 milhões de doses de AstraZeneca e outras suspeitas também são alvos da investigação dos senadores.

Francieli Fontana, que pediu demissão do cargo nesta semana, foi convocada a depor na CPI da Covid.

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