Ameaça de golpe aumenta o clima para ‘Fora, Bolsonaro’ nas ruas

Manifestações ocorrem neste sábado 24; dirigentes veem oportunidade de dar resposta imediata aos planos de ruptura institucional

Protestos em 3 de julho ocuparam cidades por todo o país. Foto: Felipe Campos Mello/Fotos Públicas

Protestos em 3 de julho ocuparam cidades por todo o país. Foto: Felipe Campos Mello/Fotos Públicas

Política

As sucessivas ameaças de golpe de Estado devem subir o tom dos protestos contra o presidente Jair Bolsonaro, marcados para o sábado 24. Organizadores creem que os próximos atos serão uma oportunidade de dar uma resposta imediata às intenções de rompimento democrático manifestadas por setores das Forças Armadas, que hoje fazem coro a Bolsonaro e afirmam que só haverá eleição no ano que vem se o Congresso aprovar o voto impresso.

 

 

A tensão está maior após vir à tona uma reportagem do jornal O Estado de S. Paulo que revelou que o ministro da Defesa, Walter Braga Netto, mandou um recado ao presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), com uma ameaça à democracia: “A quem interessar, diga que, se não tiver eleição auditável, não terá eleição“. Embora o governo federal diga que o atual sistema eleitoral é fraudulento, nenhuma autoridade apresentou provas.

Em resposta, a Campanha Fora Bolsonaro orientou nas redes sociais a palavra de ordem “ditadura nunca mais” nos próximos atos. Para Josué Rocha, do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto, o tema se torna central para a reta final das convocações e para os discursos pelo impeachment. Na manhã desta sexta 23, o MTST participa de obstruções de duas rodovias em São Paulo como atividades de agitação.

“As mobilizações demonstram que a sociedade não tem acordo com os ataques à democracia”, afirma Rocha. “Se o Exército e o governo seguem nessa proposta, as manifestações são fundamentais, num momento em que as instituições não têm conseguido responder à altura a diversos ataques.”

Atnagoras Lopes, secretário-geral da central sindical CSP-Conlutas, avalia que, para além do repúdio, é preciso haver um protesto “veementemente frontal” contra as declarações golpistas e a ocupação militar de mais de seis mil postos do governo federal.

“Indiscutivelmente, é uma pauta para os protestos”, avalia. “Há um desejo retrógrado de um regime ditatorial. A defesa das liberdades democráticas deve ser erguida no dia 24.”

Um fato novo é a participação “de corpo inteiro” das centrais sindicais. No primeiro protesto, em 29 de maio, essas organizações tiveram atuação tímida. Em 19 de junho e 3 de julho, houve maiores mobilizações, mas desta vez as centrais dedicaram mais forças nas convocações e em ações coordenadas no País e preveem um ato unificado em um caminhão próprio na Avenida Paulista, em São Paulo.

Nos bastidores, os líderes sindicalistas conversam sobre a articulação de uma paralisação de trabalhadores em agosto, possivelmente no dia 18. O plano seria se integrar a servidores públicos que se mobilizam contra a reforma administrativa.

Para Atnagoras Lopes, as centrais estão “atrasadas” e já deveriam estar organizando uma greve geral. Já Ricardo Patah, presidente da União Geral dos Trabalhadores, diz que os movimentos estão dando um passo de cada vez.

“Essa conversa existe [sobre paralisação em agosto], mas, entre construir uma possibilidade e torná-la factível, há uma metragem importante a ser perseguida”, afirma Patah.

Além das ameaças de golpe e da reforma administrativa, Patah também vê na polêmica do fundo eleitoral de 5,7 bilhões de reais outra fonte de descontentamento. O sindicalista considera que a discussão não pode colaborar para a volta do financiamento privado de campanhas, mas o valor dedicado ao fundo público está incompatível com os gastos sociais dedicados pelo governo na pandemia.

 

Unidade e capilarização

Em atividade virtual na noite de quinta-feira 22, foi manifestada preocupação com a unidade dos protestos, em referência aos episódios de depredação de agências bancárias e locais públicos e violência entre militantes do PCO com integrantes do PSDB, em 3 de julho, em São Paulo. Na segunda ocasião, o PCO defendeu a expulsão dos tucanos e rejeitou tecer autocrítica. A Campanha Fora Bolsonaro repudiou a ação em nota.

“Não nos interessa criminalizar antecipadamente os nossos atos”, disse João Paulo Rodrigues, dirigente do MST. “Não podemos nacionalizar o que aconteceu em São Paulo. Não podemos cair em uma divisão interna num momento como este”, acrescentou, chamando atenção para o PCO.

Rodrigues também apontou para a necessidade de ampliar a comunicação com as periferias e o campo.

“Ainda precisamos romper a bolha e chegar na classe trabalhadora. E não vamos resolver só com Twitter e Instagram. Precisamos de trabalho de base, utilizar rádios e fazer panfletagens.”

Atualização da Frente Povo Sem Medo na noite de quinta-feira computou 405 cidades confirmadas para os protestos e 15 países com previsão de atos. Os dirigentes veem que o recesso da CPI da Covid esfriou os desdobramentos dos escândalos. Mesmo assim, houve aumento no número de organizações nas mobilizações.

André Correia, porta-voz da Rede Sustentabilidade no Rio de Janeiro, anunciou nesta semana a primeira mobilização do partido em cerca de 10 municípios do estado para os protestos, apesar de a legenda já aparecer nos atos nacionalmente.

Segundo Correia, a iniciativa tardou porque ainda não existia uma executiva estadual, que está sendo formalizada agora. Além disso, os militantes fluminenses têm formado aos poucos as suas análises da conjuntura.

“Bolsonaro se excede em desmandos ditatoriais e deslegitima processos científicos e jurídicos. Isso nos faz acreditar que estamos do outro lado e precisamos fazer algo.”

 

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Repórter do site de CartaCapital

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