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‘Doria fala como se estivéssemos na Guerra Fria’, analisa professor

Política

No domingo 21, um ato pró-Bolsonaro ocupou a Avenida Paulista durante à tarde. Na manifestação discursaram o próprio presidenciável – por meio de um telão -, outras figuras do PSL e um agregado que mais parece parte do partido, João Doria, que concorre o segundo turno pelo governo de São Paulo pelo PSDB e tem como adversário Márcio França, do PSB.

“O recado vai para você, Márcio França, socialista esquerdista. Esse é o Brasil que a gente gosta”, disse em vídeo gravado durante o ato, apontado para o grupo verde-amarelo. Na companhia dos eleitores que pediam fotos e o seguiam no ato, Doria tenta abandonar a imagem de elitista, distante do povo. O ex-prefeito que se elegeu com a alcunha de gestor, hoje não refere mais a si mesmo dessa forma, prefere se associar a Jair Bolsonaro (PSL).

Aos gritos de “A nossa bandeira jamais será vermelha”, ele tentou e tenta, ao longo da campanha, se aproximar do eleitorado antipetista e empurra para o adversário, Márcio França, a fantasia de petista. Esse, por sua vez, se desvencilha. “João, eu não sei porque você insiste tanto com essa história do PT”, afirmou durante o debate da TV Bandeirantes, na semana passada.

O candidato do PSDB tem chamado a si mesmo de “BolsoDoria”, brincadeira que se difundiu durante o primeiro turno nas redes sociais. A provável dobradinha parece ter agradado o candidato. Na sexta-feira 19, Doria postou uma foto em seu Twitter ao lado do General Hamilton Mourão (PSL), vice de Bolsonaro. Na legenda: “Somos todos BolsoDoria”. O termo foi escolhido como palavra de ordem pelos bolsonaristas durante o ato.

Disputa de narrativas

CartaCapital conversou com dois especialistas sobre o cenário do segundo turno em São Paulo: Danilo Cesar Fiori, cientista político da USP, e Cláudio Couto, professor do departamento de gestão pública da FGV.

Segundo Fiori, o fato de São Paulo ter sido epicentro das manifestações pelo impeachment em 2016 dificultou a consolidação da esquerda nestas eleições. “Foi a primeira vez que um candidato do PT ficou em quarto lugar na corrida eleitoral desde 1990”, comenta. Em todos os últimos pleitos estaduais o partido tinha alcançado pelo menos o terceiro lugar.

Para o pesquisador da USP, “Doria tenta surfar na onda Bolsonaro e, ao mesmo tempo, galvanizar-se como uma liderança no campo da direita em contraposição ao PT”. O professor vê dois riscos na campanha “Bolsodoria”: o aumento da rejeição ao candidato e ressentimentos dentro do seu próprio campo político. Nesse cenário, de acordo com Fiori, em meio à onda antipetista, Márcio França tenta se colocar como uma “terceira via conciliadora em um momento de grande polarização”.

Para Couto, “de Minas Gerais ao Sul ninguém quer se identificar com o PT e alguns percebem a necessidade de identificar-se com o antipetismo extremista de Bolsonaro. O PT tornou-se tóxico. Para boa parte do eleitorado, tão ou mais tóxico do que Temer”, avalia.

A disputa de narrativas entre Doria e França, que gerou bate-bocas durante o debate da TV Bandeirantes, tem orientado a campanha no segundo turno. “Doria usa um discurso raivoso contra a esquerda, fala como se estivéssemos no auge da Guerra Fria, criando um espantalho comunista que não existe”, analisa o pesquisador da FGV. “Doria insiste na ideia de que França é uma espécie de Hugo Chávez da Baixada Santista.”

O professor questiona a associação entre Márcio França e o “esquerdismo”, já que o candidato era aliado de Alckmin. Além disso, aponta que os partidos da coligação eleitoral de Doria também fazem parte da base dos governos petistas no plano federal. “É uma mistificação”, afirma Couto.

No debate, França evidenciou a imagem de Doria como traidor do PSDB e de Geraldo Alckmin. Ao mesmo tempo, usou a estratégia de neutralidade em relação à disputa presidencial. “A estigmatização do adversário se concentra na questão dele ser um mentiroso e um traidor por abandonar a Prefeitura de São Paulo. França aponta o fato de Doria não ter convicção alguma”. Couto acredita que o candidato do PSDB é um direitista, mas faz “concessões à hipocrisia para se promover”.

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Quem é o herdeiro do PSDB em SP?

Em meio ao antipetismo crescente destas eleições do Estado, fica a dúvida de quem será o herdeiro dos mais de 20 anos do tucanato paulista. Doria é candidato do partido e França assumiu o governo de São Paulo após Alckmin deixar o posto para concorrer à presidência.

Os dois especialistas acreditam que, independente do resultado das urnas, haverá um rearranjo do partido em São Paulo. “A eleição de Doria reforçaria as divisões já acentuadas no PSDB paulista, com risco de implosão do partido ou de que o candidato vá para outra legenda, eleito ou não”, afirma Danilo. “Em termos partidários, certamente já há uma ruptura em andamento, pois mesmo a eleição de Dória reforçaria as divisões já acentuadas no PSDB paulista.”

Para Couto, Doria representa uma ala mais conservadora do PSDB, que nega alas tradicionais, das quais Alckmin faz parte. “Ele traiu o padrinho mais de uma vez, puxa o partido para a direita radical e bateu de frente com as lideranças históricas da agremiação”, comenta.

O professor acredita, no entanto, que Doria herdará o apoio angariado pelo PSDB no interior de São Paulo e será visto como o candidato antipetista, posto encarnado pelo partido por anos. França concorre como candidato situacionista à reeleição, já que herdou o governo tucano de Alckmin.

“França pode ser percebido por boa parte do antigo eleitorado tucano como a verdadeira continuidade dessa gestão, além de ser mais leal a Alckmin do que Doria”, afirma. Em uma eventual vitória de Márcio França, Couto enxerga a possibilidade de adversários tucanos de Doria o isolarem dentro do partido.

Danilo Fiori acredita, porém, que ambos os candidatos são governistas e têm propostas que se aproximam, principalmente no âmbito da segurança pública. “Tem prevalecido um discurso de apoio ao recrudescimento da violência policial para enfrentamento da criminalidade”, comenta.

Doria se alinha ao discurso de segurança pública de Bolsonaro, enquanto França, mesmo neutro, defende uma segurança pública de pulso firme, muito parecida com a de Alckmin. Ele tem como vice a coronel da PM Eliane Nikoluk, filiada ao PR.

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Estagiária de Jornalismo do site de CartaCapital

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