Guilherme Boulos

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Coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). Foi candidato à Presidência da República em 2018, pelo PSOL.

Opinião

Vai ter golpe?

Bolsonaro emergiu de um caldo autoritário e golpista. As eleições não serão normais

Foto: EVARISTO SA / AFP
Foto: EVARISTO SA / AFP
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Novamente, nas últimas semanas, Jair Bolsonaro elevou o tom de suas ameaças golpistas. Voltou a criticar o sistema de votação e o processo de apuração e a colocar em dúvida o Tribunal Superior Eleitoral. Agora propõe uma auditoria paralela, a ser realizada por uma empresa privada contratada por sua campanha. As declarações fizeram acender a luz amarela da ameaça golpista, que passou a ser debatida abertamente na mídia e, inclusive, por diplomatas norte-americanos.

É verdade que Bolsonaro utiliza, desde o início do seu mandato, as ameaças golpistas como cortinas de fumaça: espécie de manobra de distração para evitar os temas sociais, econômicos e até mesmo de corrupção política, para os quais não tem nenhuma resposta. Assim ele pauta a agenda pública a partir de suas declarações bombásticas e faz com que a própria oposição não tenha foco naquilo que verdadeiramente toca na vida do povo. Em vez de debater o aumento da gasolina, passamos semanas a discutir o indulto a Daniel Silveira. Em vez de pautar a corrupção das barras de ouro do Ministério da Educação, debatemos suas ameaças ao TSE. E por aí vai.

Mas essa é somente uma meia-verdade.

Para Bolsonaro, o golpismo não é apenas cortina de fumaça, embora cumpra também esse papel. É uma intenção política real. Restam poucas dúvidas de que ele, se tivesse apoio decidido dos comandos militares, já teria dado um autogolpe. O circo armado para o 7 de Setembro do ano passado foi uma expressão disso. Se os generais da ativa dessem respaldo para que ele fechasse o Supremo e estabelecesse um regime de exceção, ele o teria feito. Enfim, se o golpe depender de Bolsonaro, ele o dará.

Aliás, basta lembrar o seu DNA político. Bolsonaro é herdeiro da tradição linha-dura da ditadura, representada pelo general Sylvio Frota, de quem inclusive Augusto Heleno, hoje ministro do GSI, foi ajudante de ordens. Frota tentou dar um “golpe dentro do golpe” contra Geisel, buscando frear a transição lenta, ­gradual e pacífica que resultou na Constituição de 1988. Foram os mesmos militares da linha-dura que forjaram o atentado à bomba no RioCentro e explodiam bancas de jornal para tentar culpar os comunistas e endurecer o regime. É desse caldo autoritário e golpista que Bolsonaro veio. E não mudou nada de lá para cá.

A questão é que 2022 não é 1964. Dar golpe não é para quem quer, é pra quem pode. E, hoje, o cenário é bem mais difícil para um golpe militar no sentido tradicional. Se em 64 os golpistas contaram com o apoio direto dos Estados Unidos, hoje certamente não contariam, ainda mais depois da derrota de Donald Trump. Ficariam isolados internacionalmente e sofreriam sanções. Mais: a situação interna de desastre econômico e social do governo e sua tremenda rejeição gerariam uma forte oposição social ao golpismo.

Justamente por isso é muito difícil supor que as Forças Armadas embarcariam numa aventura bolsonarista. Uma coisa são generais da reserva, que estão com ele no governo, outra são os comandantes militares da ativa, aqueles que têm de fato o controle sobre as tropas. Se Bolsonaro tivesse o apoio deles, teria avançado em seu projeto autoritário.

Isso não quer dizer que devamos estar tranquilos. Mesmo sem contar, provavelmente, com o apoio do Exército, Bolsonaro tem influência sobre setores das polícias militares em todo o País e conta com uma milícia privada de frequentadores de clubes de tiro, para os quais liberou licenças de armas. Sua postura não deixa dúvidas de que ele vai buscar criar o caos, uma vez derrotado, e vai apelar justamente para esses setores. Hoje, ele tem o desespero como guia: o medo de ser preso e ter ainda os filhos como companheiros de cela. Por isso, vai dobrar a aposta e não deve recuar das iniciativas golpistas, mesmo sem apoio institucional.

Neste cenário, nosso papel é construir uma muralha democrática do lado de cá. Essas eleições não serão normais. Exigirão mais do que nunca forte organização popular e mobilização da sociedade. A maior vacina contra o golpismo é enraizarmos comitês e grupos de ação em todos os cantos do Brasil e sermos capazes de promover amplas mobilizações para defender a soberania do voto popular. Vamos fazer nossa lição de casa para derrotar qualquer ameaça golpista. Depende de todos nós. O destino do Brasil vai ser decidido nas urnas e também nas ruas. •

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1208 DE CARTACAPITAL, EM 18 DE MAIO DE 2022.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “Vai ter golpe?”

 

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

Guilherme Boulos

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