Milton Rondó

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Diplomata aposentado, foi secretário socioeconômico do Instituto Ítalo-Latino Americano; vice-presidente do Comitê Consultivo do Fundo Central de Emergências da ONU e representante, alterno, do Itamaraty no extinto Consea

Opinião

Que Lula e Alckmin honrem nossos votos

O ex-governador enfatizou a importância da lealdade na política. Um valor importante, mas ainda bastante menosprezado no Brasil

Foto: Ricardo Stuckert
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“Disseram a um sábio que ele era considerado uma pessoa má. Respondeu ele: ‘É bom que não saibam de tudo a meu respeito, pois de outro modo poderiam dizer coisas ainda piores.” – Leon Tolstoi

No lançamento da chapa Lula-Alckmin, o candidato a vice-presidente, Geraldo Alckmin, enfatizou a importância da lealdade na política. Um valor importante, mas ainda bastante menosprezado no Brasil.

Em nosso país, vemos que ser leal ainda não extrapolou a esfera privada, para irrigar a pública.

Com efeito, Michel Temer traiu a presidenta Dilma da forma mais descarada possível. Agindo assim, abriu caminho para a Lava Jato, que, por sua vez, traiu todo um país.

Quanto aos militares – com raras e gloriosas exceções – praticamente só conhecem aquela condição, como os golpes de 45, 54, 64 e 2016 tristemente atestam.

Em “O velho está morrendo e o novo não pode nascer” (editora Autonomia Literária), de Nancy Fraser, Victor Marques, no prefácio à edição brasileira, vai à raiz das traições e observa como – sob o neoliberalismo agonizante – meritocracia tornou-se falsamente sinônimo de igualdade.

Para explicar essa distorção, Marques aponta também os erros da esquerda: “A tática de reformulação eleitoral abraçada pela centro-esquerda foi, portanto, se desconectar das bases sindicais e das promessas de segurança social e conciliação de classes do pós-guerra, para se apresentarem como partidos das classes médias profissionais, vibrantes, modernos e cosmopolitas, na aposta de que a antiga base continuaria fiel ao voto, porque não teria outro lugar para ir. Foi assim que progressismo e neoliberalismo puderam formar o que Fraser chama de uma nova ‘aliança governante’. O jogo desta centro-esquerda integrada à nova ordem global das coisas foi apresentar-se como multicultural, politicamente correta, inovadora, conectada à franja mais dinâmica e avançada da sociedade – em contraste com a velha classe operária fabril e os trabalhadores manuais das antigas regiões industriais (deixadas para trás na marcha da modernização globalizante), estigmatizados como paroquiais, atrasados e incultos.”

Nesse sentido, Lula é quase um “elo perdido”, na medida em que representa um dos setores mais atingidos pela desindustrialização, a metalurgia.

Essa parece ser uma contribuição brasileira ao novo, que tenta surgir, inclusive em âmbito internacional, como o questionamento da hegemonia estadunidense deixa claro.

Em “Os filhos dos dias” (editora L&PM), Eduardo Galeano propõe para o 11 de setembro um “Dia contra o terrorismo: Procuram-se os sequestradores de países; Procuram-se os estranguladores de salários e os exterminadores de empregos; Procuram-se os violadores da terra, os envenenadores da água e os ladrões do ar; Procuram-se os traficantes do medo.”

Ou seja, todos os traidores da própria pátria mãe. Todos os que a violentaram e ainda ameaçam com mais ditadura, mais violência, mais mortes.

Mas nossa Pátria Grande não é feita de traidores, ao contrário, é desfeita por eles, aos quais se opõem os construtores da Pacha Mama, Mãe Terra, como Galeano recorda na obra citada: “A primeira reforma agrária da América. Aconteceu em 1815, quando o Uruguai ainda não era país, nem se chamava desse jeito. Em nome do povo sublevado, José Artigas expropriou as terras dos maus europeus e piores americanos, e ordenou que fossem repartidas. Foi a primeira reforma agrária da América, meio século antes que Emiliano Zapata. Projeto criminoso, disseram os ofendidos, e, para completar, Artigas advertiu: – Os mais infelizes serão os mais privilegiados. Cinco anos depois, Artigas, derrotado, foi para o exílio, e no exílio morreu. As terras repartidas foram arrebatadas dos mais infelizes, mas a voz dos vencidos continua dizendo, misteriosamente: – Ninguém é mais que ninguém.”

No Brasil, o direito à terra e à água ainda repousa no Congresso, que prefere o orçamento secreto ao reconhecimento de direitos tão fundamentais.

De fato, uma das características dos que não fazem mas fingem é a vida dupla: a imagem (falsa) e seu avesso (real). Os que se apresentam como honestos consomem recursos públicos em obras superfaturadas, compras de Viagra, próteses penianas, picanha, cerveja e whisky.

Nessa farsa – como sempre – não estamos sós.

Em “Não assassinem o futuro dos jovens” (editora Dalai), Don Andrea Gallo, refere-se à Itália sob o neoliberalismo: “…único país europeu em que se é premiado, punido e sancionado não mais por aquilo que se é capaz de fazer e se faz, mas por aquilo que se aparenta, se finge ser.”

Coincidindo com Victor Marques, Don Andrea faz diagnóstico preciso da manipulação social na Península, que coincide perfeitamente com quanto ocorreu no Brasil: “Berlusconi, em primeiro lugar, foi lenta e progressivamente substituindo, com a subcultura da linguagem das suas TVs comerciais e dos slogans da publicidade que as alimentavam, aquelas que eram a cultura e a linguagem da esquerda, transformando, lentamente, imperceptivelmente, o cidadão em consumidor.”

Que Lula e Alckmin honrem nossos votos e nunca se esqueçam que somos cidadãos e cidadãs, antes de meros consumidores e consumidoras, detentores de direitos humanos universais e sedentos por sair deste túnel em que a subcultura televisiva conseguiu – mas não mais conseguirá – nos manipular.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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