Aldo Fornazieri

Doutor em Ciência Política pela USP. Foi Diretor Acadêmico da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), onde é professor. Autor de 'Liderança e Poder'

Opinião

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O silêncio dos cúmplices

Não podemos ficar indiferentes ao sofrimento do povo palestino nem ignorar os crimes de guerra do Estado de Israel

No campo de refugiados de Nusseirat, região central da Faixa de Gaza, crianças palestinas observam a destruição de uma mesquita provocada por um bombardeio israelense
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Não podemos ficar indiferentes com a transformação de Gaza em cemitério de crianças e mulheres. Não podemos ficar indiferentes diante da tempestade de fogo que Israel despeja sobre a população civil. Não podemos ficar indiferentes com a destruição de hospitais, escolas, igrejas, campos de refugiados e toda a infraestrutura do território palestino. Não podemos ficar indiferentes com aqueles que não têm outro futuro, a não ser esperar a morte. Não podemos ficar indiferentes com a sistemática destruição dos lares de milhões de pessoas. Não podemos ficar indiferentes com o deslocamento forçado de 600 mil palestinos. Não podemos ficar indiferentes com os crimes de guerra praticados pelo Estado de Israel.

O mundo está vendo, inerte e acovardado, uma das maiores máquinas de guerra do planeta destruir uma população indefesa, que vive há décadas todos os tipos de vicissitudes, todos os tipos de privações, em um gigantesco campo de concentração a céu aberto. A indiferença da comunidade internacional em relação ao sofrimento do povo palestino e a covardia diante dos impiedosos e criminosos ataques das forças israelenses transformou Israel num Estado acima da lei, num Estado fora da lei, num Estado delinquente e bandido, que não segue as resoluções das Nações Unidas e viola sistematicamente o direito internacional.

As crianças de Gaza não podem brincar. À sua volta, só há escombros, amiguinhos mortos, gritos de dor, lamentações e desespero. As crianças palestinas não podem andar na praia. Ali o sol não aparece, porque o céu está encoberto pela fumaça escura das bombas. Elas tampouco podem colher o fruto das oliveiras, ouvir o canto dos pássaros. Não podem nem sequer dormir, pois as noites se enchem com o pavoroso bombardeio dos aviões, do terrível som dos mísseis, do aterrador medo da morte. A criminosa complacência do Ocidente é cúmplice assassina desta catástrofe.

Os cínicos colocam a culpa no Hamas. Mas o que é o Hamas senão o produto dos crimes que Israel e o Ocidente vêm cometendo há mais de 50 anos contra o povo palestino? O que é o Hamas senão a consequência do roubo das terras dos palestinos, da colonização forçada da Palestina, dos massacres dos palestinos, dos deslocamentos forçados de milhões de civis?

O Hamas cometeu atos de violência terríveis, mas o que são esses atos senão a consequência de décadas de violência e opressão? Os palestinos não têm voz, não têm segurança, morrem aos poucos todos os dias. Os palestinos sofrem contínuas catástrofes. Essa nakba permanente os impede de ter esperança, futuro, felicidade, alegria e paz. O Hamas é produto dessa violência sistemática que é imposta sobre o povo palestino.

Israel e o Ocidente se negam a discutir e a reconhecer as causas da violência. Este é o álibi dos criminosos para continuarem a cometer crimes. Os crimes de Israel e do Ocidente são ainda mais repugnantes, porque são praticados em nome de valores que nunca observaram. Israel e o Ocidente não são a civilização, pois seu discurso civilizatório é uma grande mentira.

A violência do Hamas é a manifestação da exasperação de uma situação inaceitável, que não oferece saídas para os palestinos. Nós, cidadãos comuns, precisamos compreender as causas desse grito de desesperados, para não sermos prisioneiros das máquinas de propaganda.

Israel e as potências ocidentais sabem quais são as causas da violência dos grupos palestinos, mas as escondem. Não as admitem. Aproveitam-se das explosões da exasperação para matar, massacrar, destruir e, ao término das matanças, continuar impedindo que os palestinos tenham liberdade e esperança. Não podemos aceitar esta situação. Não podemos ficar indiferentes. Tampouco podemos ser imparciais. Quando há injustiça, precisamos ser parciais em favor da justiça. Quando há impiedade, precisamos ser piedosos com os espezinhados. Quando há violência contra os indefesos, devemos lutar contra os agressores e os tiranos.

Lutar pelos injustiçados palestinos significa nos pronunciarmos nas redes sociais, nos mobilizarmos nas ruas, participar de movimentos de solidariedade. O governo brasileiro vem agindo bem e com destaque, ao colocar o foco de sua ação no cessar-fogo e na viabilização da ajuda humanitária. Mas, dada a continuidade da prática genocida de Israel, devemos exigir de Lula uma atitude mais contundente: o rompimento das relações diplomáticas com Israel enquanto este país for governado por um grupo de genocidas. Esses criminosos de guerra precisam ser julgados pelo Tribunal Penal Internacional, não podem permanecer impunes. •

Publicado na edição n° 1284 de CartaCapital, em 08 de novembro de 2023.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O silêncio dos cúmplices’

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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