Rita von Hunty

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Drag queen intepretada pelo professor Guilherme Terreri

Opinião

‘Não há diferença substancial entre esquerda e direita na gestão da política institucional’

Não é de se espantar que tenhamos o menor número de jovens aptos a votar da história. Nosso horizonte de lutas foi cruelmente rebaixado

Rita Von Hunty (Foto: Reprodução/Redes sociais)
Rita Von Hunty (Foto: Reprodução/Redes sociais)
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Há uma piada que costuma ser feita pelo filósofo esloveno Slavoj Žižek quando ele retoma a conhecida décima primeira tese de Karl Marx sobre Feuerbach. Marx escreveu: “Os filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras; o que importa é transformá-lo”. Žižek, por sua vez, diz: “Tentamos mudar o mundo de diferentes maneiras; o que importa agora é reinterpretá-lo”.

Pode parecer uma brincadeira, mas, para quem atravessa um cenário de crise global, com atrocidades contra a humanidade em uma série de países, invasões de territórios e assassinatos de civis, não é. Tentar interpretar o mundo ao mesmo tempo que se vivencia a transformação no protagonismo do poder é uma tarefa ingrata e exaustiva.

Somam-se a esse cenário a iminente crise climática, o agravamento das lógicas de exploração centro-periferia e o cenário de terra arrasada que a gestão bolsonarista deixará para o País. O último escândalo nesse sentido foi a divulgação de um áudio no qual Milton Ribeiro (o quarto ministro da Educação desta gestão estapafúrdia) admite que o governo federal prioriza a liberação e negociação de verbas para os amigos do pastor Gilmar, a pedido de Jair Bolsonaro. O prefeito de Luís Domingues (MA), Gilberto Braga (PSDB), reportou o pedido de propina de 1 quilo de ouro, por parte do pastor.

Em minha última coluna publicada em CartaCapital, refleti um pouco sobre o sentimento de “desencanto” com o mundo, pensado por Max Webber, e a postura de combate da desesperança, encabeçada por uma série de intelectuais que pensam na política dos comuns e nas estratégias de reencantamento do mundo através da luta política. Entre eles, estão ­Silvia ­Federci e Michael Löwy. Confesso que luto mais no intento de comunicar e organizar esperança do que propriamente refletindo o meu espírito na época.

Agora, diante da data de entrega de um novo texto, penso: como é possível que eu comunique esperança a quem me lê, se o nosso horizonte está tão rebaixado? Dentre outras coisas, refiro-me ao grotesco teatro da política eleitoral no Brasil. A mais nova obscenidade é que agora devemos encarar Geraldo Alckmin como um socialista, oficialmente filiado ao PSB, o Partido “Socialista” Brasileiro, que conta com a presença de grandiosos quadros rigorosamente socialistas como Tabata Amaral, João Campos.

A gestão do ex-tucano que governou o estado de São Paulo por mais de 20 anos foi uma das que mais violentaram profissionais da educação – inclusive fisicamente, durante passeatas. Esse grupo de políticos também trabalha incansavelmente para o afogamento da classe trabalhadora, por meio de reformas neoliberais que a empobrecem, do desmonte da educação pública, do desaparecimento de verbas e da máquina de matar do Estado, especialmente cruel com a população jovem, preta, masculina e periférica. Falar qualquer coisa agora soa, na melhor das hipóteses, inútil.

A possível chapa Lula-Alckmin apresenta, de forma mais que declarada, o que muitos de nós comunicamos há tempos: não há diferença substancial entre esquerda e direita na gestão da política institucional no Brasil. E, rasgados pela verdade nua – e cortante –, o que os nossos olhos devem fazer? Vista grossa? Bradar à juventude que regularize sua situação eleitoral para votar em quem governará contra seus interesses? Não é de se espantar que tenhamos o menor número da juventude apta a votar da história. Com que consciência poderíamos adjetivar como “errada” tal atitude? É com imenso pesar que olho para o rebaixamento dos horizontes das nossas lutas no nosso tempo.

Antes de começar esta coluna, estava lendo uma matéria que falava sobre como a geração Y (da qual faço parte) e a geração Z são conhecidas como as “gerações deprimidas”, por enfrentarem uma carga sem precedentes de preocupações globais, fobias e transtornos sociais e frustrações pessoais e econômicas. Depois consultei de novo os preços da cesta básica, da gasolina, do gás de cozinha, da energia elétrica, do aluguel e o valor do salário mínimo, as taxas de desemprego e os índices de violência.

Seria hipocrisia querer dizer qualquer coisa diferente do que sempre tenho dito por aqui: que a tristeza nos radicalize. Que o rebaixamento abominável do nosso horizonte de lutas possa produzir um desejo radical por uma outra coisa, em outra direção. Seguimos. •

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1201 DE CARTACAPITAL, EM 30 DE MARÇO DE 2022.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “Marcas da exaustão”

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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