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Laranjas podres antecipam o embolor do governo Bolsonaro

Opinião

Sem completar sequer dois meses de vida, o governo Bolsonaro parece envelhecer um ano a cada dia. O presidente e os parlamentares do PSL se elegeram prometendo acabar com “tudo que está aí, tá ok?”. Desde então, quem procura a “nova política” do PSL, só a encontra encolhida entre as velhas e empoeiradas práticas de corrupção. E assiste um governo que, ao invés de dar respostas, transmite a crise ao vivo e pelo Twitter como um patético reality show.

Antes da posse, a investigação sobre o ex-assessor Fabrício Queiroz envolveu diretamente Bolsonaro e seu filho Flávio, eleito senador também pelo PSL. Na investigação do MP foram descobertas movimentações bancárias típicas de lavagem de dinheiro – com saques e depósitos fracionados – transações imobiliárias em que a conta não fecha e empregados fantasmas, os laranjas.

A pior parte, é claro, foram os fortes indícios de ligação de Flavio Bolsonaro com milicianos que podem estar envolvidos no assassinato de Marielle Franco. Queiroz e Flávio Bolsonaro se recusam sistematicamente a comparecer para depor do Ministério Público. Mas isso foi somente o início do Laranjal.

Quem diria que, em menos de de 50 dias, saberíamos que o uso de laranjas para transações nebulosas com dinheiro público era o modus operandi do PSL. Há uma semana, a Folha de São Paulo revelou que Marcelo Álvaro Antônio, ministro do Turismo e deputado federal do PSL, patrocinou um esquema de candidaturas laranjas em Minas Gerais.

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Quatro candidatas repassaram boa parte dos 279 mil reais de recursos públicos de suas campanhas para empresas de pessoas ligadas diretamente a Marcelo. Uma das candidatas relata ter sido ameaçada com armas por dois assessores do ministro quando se negou a transferir o recurso. O deputado segue despachando como ministro, após um providencial afastamento de 1 dua para tomar posse do cargo na Câmara.

Poucos dias depois, noticiou-se também que Luciano Bivar, deputado federal e atual presidente do PSL, usou uma candidata laranja em Pernambuco para receber 400 mil reais de dinheiro público. Com apenas 274 votos, 95% do recurso foi gasto em uma gráfica que sequer tem máquinas. Em um sincericídio cínico e profundamente machista, Bivar justificou a baixa votação alegando que política não seria “coisa muito da mulher”. Sim, claro, principalmente quando certos homens desviam ilegalmente 95% dos recursos da candidata para seus interesses eleitorais ou sabe-se lá pra que mais.

A notícia atingiu o Planalto quando o deputado recifense apontou Gustavo Bebianno, atual ministro da Secretaria-Geral da Presidência e ex-presidente do PSL, como responsável por controlar e ter liberado o repasse nacional da verba. No jogo do empurra-empurra, o ministro devolveu a responsabilidade para Bivar. E tentou amenizar a crise instaurada em Brasília, assegurando estar em contato com o presidente.

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A partir daí o absurdo tomou conta da realidade. Pelo Twitter, um dos filhos de Jair Bolsonaro, Carlos, decidiu desmentir publicamente Bebianno e, para comprovar, divulgou um áudio do seu pai enviado a ele. Poucas horas depois, Bolsonaro retransmitiu o conteúdo publicado pelo filho e colocou no ar o trecho de entrevista à TV Record em que ameaçava a demissão do ministro. Ao invés de assinar a exoneração, como cabe ao Presidente da República, Bolsonaro usou o Twitter e um áudio de Whatsapp para tentar derrubar um ministro.

Talvez os rodeios e a falta de coragem expressem rabo preso com Bebianno que, eventualmente, tenha boas histórias da campanha para contar ao país. Mas é difícil se recordar de um gesto tão infantil vindo de um Presidente da República, agravado pelo papel do filho. Nem mesmo as aventuras de Michel Temer como youtuber contra ex-aliados chegaram a tanto.

Para além do ridículo, estamos falando aqui de crime eleitoral e, possivelmente, no caso de Flavio, de lavagem de dinheiro. A demissão de Bebianno não encerra o assunto. Seguiremos exigindo investigações independentes e punição dos responsáveis.

Bolsonaro foi eleito vendendo a falsa esperança de “limpar” o país da corrupção. As milhões de pessoas que apertaram 17 agora assistem às denúncias de um governo desorientado. Em breve, conhecerão as propostas amargas de Paulo Guedes para a economia.

Conforme vai ficando claro que a verdadeira agenda é retirar direitos e não combater a corrupção, a crise pode sair do Twitter e ocupar as ruas.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). Foi candidato à Presidência da República em 2018, pelo PSOL.

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