Frente Ampla

Não chore por nós

As argentinas e argentinos mostraram ao longo de sua história que são capazes de resistir, de lutar por seus direitos. Não há por que chorar por quem tem essa coragem

Ato peronista em frente ao Congresso da Argentina. Foto: Juan Ignacio Roncoroni/AFP
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No dia 19 de novembro, Javier Milei venceu as eleições argentinas, superando o candidato Sergio Massa. A ultra-direita chega ao poder na Argentina, assim como chegou no Brasil nas eleições de 2018. A fagulha que culminou neste resultado, no entanto, teve suas diferenças. E, com certeza, consequências igualmente diversas.

Neste ponto, sobram especulações sobre o que será o governo Milei e faltam bases para afirmar que as promessas feitas em campanha serão mais do que um discurso moldado para angariar votos. Muitas delas, inclusive, inaplicáveis.

Há um ponto comum entre as eleições de 2023 da Argentina e as de 2018 no Brasil? Com certeza, sim, mas as diferenças saltam aos olhos. Lá, como aqui com o antipetismo, o fenômeno antiperonista não é desconsiderável. Ambos foram fomentados a partir de discursos de ódio, fake news e lawfare. Mas, a situação econômica dos dois países tem assimetrias importantes.

Nos governos Lula e no 1º governo Dilma, vivemos um ciclo virtuoso que impulsionou nosso PIB, gerou empregos, renda e crescimento econômico. Políticas públicas foram elaboradas e executadas para superar desigualdades, pagar a dívida externa e permitir investimentos. Uma era de conquistas que contrasta com verdadeiras décadas perdidas do país vizinho. No 2º governo Dilma, mesmo com todos os persistentes impactos da crise de 2008, crise hídrica, erros de construção macroeconômica de Joaquim Levy, não chegamos nem perto da atual realidade argentina. Aqui vivenciamos um golpe planejado, utilizando-se de uma farsa jurídica para empurrar uma agenda ultraliberal, com graves restrições ao Estado, à Democracia e aos direitos do nosso povo.

Os argentinos, por sua vez, foram fustigados, ano após ano, com o empobrecimento da população e com limitações que se desdobraram em perda de qualidade de vida para uma parcela considerável do povo. Medidas pontuais não foram suficientes para vencer o cansaço dos eleitores frente à situação. A pergunta mais ouvida nas ruas era: até quando vamos insistir no melhor candidato sem que isso se reverta em uma vida melhor? E parte respondeu que bastava. A parte suficiente para disparar um tiro no escuro.

Os brasileiros mais otimistas, que também fizeram essa aposta, julgavam que o peso do cargo transformaria um bufão num chefe de Estado. Que eleito, ele respeitaria o rito, as instituições, a Constituição e o Estado Democrático de Direito. Ledo engano… Talvez, os argentinos igualmente tenham essa ilusão e aguardem que o dito “novo” transforme a Argentina. O tempo dirá. Fato é que não há democracia sem respeito ao resultado das urnas. E elas falaram. Espelharam a vontade da maioria.

Aqui, esta vontade se converteu em caos e ainda tentaram um golpe em 8 de janeiro para, na prática, anular o resultado das urnas. Mais do que a condução desastrosa durante a pandemia, o governo Bolsonaro mostrou a que veio. Virou as costas para quem mais precisava do Estado e deu as mãos para o capital especulativo, o mercado e para as negociatas que beneficiaram a si próprio e sua família. Reformas que cortaram direitos. Todos lembram da reforma da previdência, fim da política da valorização do salário mínimo, corte brutal nos investimentos em educação com repasses a universidades federais regredindo a níveis anteriores a 2013.

Lá, aguardamos com certo ceticismo que haja respeito ao povo e às instituições. A vice de Milei, Victoria Villarruel, piora as expectativas fazendo apologia à ditadura. Mas as argentinas e argentinos mostraram ao longo de sua história que são capazes de resistir, de lutar por seus direitos. Não há por que chorar por quem tem essa coragem.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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