Luana Tolentino

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Mestra em Educação pela UFOP. Atuou como professora de História em escolas públicas da periferia de Belo Horizonte e da região metropolitana. É autora dos livros 'Outra educação é possível: feminismo, antirracismo e inclusão em sala de aula' (Mazza Edições) e 'Sobrevivendo ao racismo: memórias, cartas e o cotidiano da discriminação no Brasil' (Papirus 7 Mares).

Opinião

Em entrevista, Cornel West explica apoio da elite a Bolsonaro

‘Eles não acreditam na democracia. Só dizem que acreditam quando não precisam abrir mão de nenhum privilégio e poder’, disse o intelectual

O filósofo Cornell West (Foto: Reprodução/Site Oficial)
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Há cerca de um mês, o intelectual afro-americano Cornel West concedeu uma entrevista ao sociólogo Jessé Souza e ao economista Eduardo Moreira no canal ICL Notícias. O encontro simplesmente viralizou. Recebi o link em vários grupos de WhatsApp, como também recomendações por parte de amigos para que eu o visse. O furor em torno da conversa tinha razão de ser. Ao longo de quase duas horas, ficaram evidentes os motivos que fazem do filósofo uma das maiores vozes da luta contra o racismo e pelos direitos humanos no mundo.

Durante muitos dias, as declarações de Cornel West ressoaram em mim, alimentando o meu desejo de reproduzi-las neste espaço. Mas a vida de cronista semanal não é lá muito fácil. Às vezes, temos um texto pronto, mas um fato que causa comoção ou vira assunto em todos os lares nos faz mudar de rota e escrever sobre aquilo que é manchete principal nos jornais. Em outras ocasiões, às voltas com os afazeres cotidianos, a coluna só nasce aos 48 minutos do segundo tempo. Nessas idas e vindas, somente agora consegui registrar a entrevista histórica.

Dos Estados Unidos, onde vive, Cornel West lançou luz a questões prementes do Brasil. De forma contundente, o filósofo disse o que setores do agronegócio e parlamentares defensores do PL 490, que enfraquece os direitos dos povos indígenas e coloca em risco a sobrevivência da biodiversidade no Brasil e no mundo, são incapazes de ouvir: “O que está em jogo agora? O mais importante de tudo: o futuro do planeta, porque a ganância corporativa está abrindo caminho para a autodestruição do planeta com uma catástrofe ecológica e uma possível catástrofe nuclear”.

Cornel West nos ajuda a compreender também os motivos que levaram a elite financeira do País, quase em sua totalidade, a abraçar a eleição e o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro: “Eles não acreditam na democracia. Só dizem que acreditam quando não precisam abrir mão de nenhum privilégio e poder. Se tiverem que escolher entre o fascismo e a democracia, eles escolhem o fascismo para buscar seus próprios interesses, manter a riqueza e o status”.

Diante da ascensão econômica de grupos negros, amparado nos ensinamentos de Martin Luther King Jr., Cornel West destacou: “O povo negro de classe média tem que fazer escolhas e decidir que tipo de moralidade seguirão. Será aquela egoísta? Aquela que se preocupa consigo mesma? Estará vinculada apenas aos ricos no status quo vigente? Ou será na solidariedade com o sofrimento e a luta dos pobres e da classe operária? (…) A conclusão é que tipo de vida você vai viver, que tipo de serviço vai prestar? Que tipo de coragem vai dar de exemplo? Quais tradições você vai exaltar? Serão as tradições daqueles que têm lutado com os pobres e a classe operária? Ou serão as tradições da elite governante que tantas vezes se senta, toma seu chá e faz atividades luxuosas enquanto outras pessoas estão por aí, quase morrendo de fome?”.

Quando eu achava que já estava completamente arrebatada pela entrevista, Cornel West declarou: “Eu não vivo sem bell hooks”. Quase caí da cadeira, pois eu também não vivo sem a educadora afro-americana, falecida em dezembro de 2021. Costumo dizer que bell, que se apresentava como discípula de Paulo Freire, é uma espécie de guia espiritual para mim, que orienta meus passos na docência, na promoção de uma educação antirracista e me ensina tudo que preciso aprender sobre o amor.

Reconheço que escrevo sobre a entrevista concedida por Cornel West com um certo atraso, mas em face da importância e do valor que ela tem, acho que não há mal nisso. Sempre é tempo de assistir a uma aula de tamanha lucidez. Quem ainda não viu, veja. Para entender o Brasil, para encontrar caminhos que possibilitem o enfrentamento e a superação do racismo no País.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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