É espantoso Paulo Guedes continuar ministro e tratado como técnico

Ou algum jornal, articulista de grande visibilidade e o empresariado já se pronunciaram pedindo a demissão do titular da Economia?

O ministro da Economia, Paulo Guedes. Foto: Evaristo Sá/AFP

O ministro da Economia, Paulo Guedes. Foto: Evaristo Sá/AFP

Opinião

Eu poderia tentar dar uma de vidente, mas seria extremamente patético. Simplesmente porque seria a declaração da previsão do óbvio. Do evidente. Ao menos a quem ainda resta algum tipo de lucidez e distanciamento ideológico necessário desse cidadão.

Deixa eu ser mais claro. No último domingo, publiquei um artigo nesta coluna em que manifestava meu espanto com algumas tantas manifestações sobre o ministro da economia, Paulo Guedes. Dentre meus incômodos e estranhamentos, estava uma publicação do colunista de Folha, Joel Pinheiro, que afirmou em sua conta oficial no Twitter que Guedes estava amadurecendo no cargo. Como poderia, vez que colecionava, até o último domingo, manifestações públicas carregadas do seu já tradicional estreitamento político e preconceito social, sem mencionar a ficha corrida de desserviços que está prestando como ministro da Economia?

Argumentei, na ocasião, o quanto não apenas Paulo Guedes, mas o próprio Governo Bolsonaro, como um todo, gozam, ainda e apesar dos flagelos e das desgraças que nos impõem cotidianamente, de uma enorme boa vontade vinda de setores da opinião pública e das classes que exercem, efetivamente, poderes político e econômico capazes de promover mudanças concretas no campo da política, a exemplo da viabilização de um processo de impeachment.

 

 

Bem, eis que chega a quarta-feira do dia 25 de agosto de 2021. O ministro que, não faz muito tempo, afirmou que a luz poderia ficar 7% mais barata com a venda da Eletrobras, que o governo, em julho deste ano, liberaria em duas semanas “o choque de energia barata” com a retirada da Petrobras do mercado de distribuição e transporte de gás natural, vem a público e afirma: “Qual o problema da energia ficar mais cara?”, em referência ao eminente aumento da tarifa de energia com a falta de chuva no País.

Bem, a princípio, nenhum problema para quem também não vê problema no aumento exponencial de famílias que não podem comprar um botijão de gás e se veem obrigadas a cozinhar em fogueiras e vendo o caso de acidentes com queimaduras aumentar. Esse aumento, sim, pode ser chamado de crescimento em V.

Nada disso espanta. O espantoso é Paulo Guedes não apenas continuar à frente de um dos principais ministérios do Governo Federal, mas sendo tratado como um sujeito técnico, desprovido dessa coisa repugnante chamada “ideologia” com a conivência, cumplicidade e complacência de múltiplos setores mediáticos e empresariais. Ou algum jornal e articulista de grande visibilidade, organizações de classe do empresariado brasileiro ou muitos deles já se pronunciaram pedindo a demissão de Paulo Guedes? Vocês conseguem imaginar a vida mansa de que goza Guedes para um Guido Mantega, neste estado de coisas, perguntando qual é o problema do aumento da conta de luz?

Não há descontinuidade nessa perversidade cínica. É parte do mesmo ethos bolsonarista constituinte da personalidade do ministro. Dentre os muitos cartazes, colunas, editoriais, abaixo-assinados e manifestos que pediam o impeachment de Dilma Rousseff e que se compuseram num emaranhado de justificativas para levar toda essa gente bolsonarista ao governo federal, estava a crítica ao aumento dos combustíveis e do dólar. Hoje, temos a calamidade em cifras nos postos de combustíveis: o litro da gasolina chegando a 7,36 reais em algumas cidades. O dólar está cotado hoje em 5,25. Em agosto de 2016, na data do impeachment de Dilma Rousseff, estava em cerca de  3. O botijão de gás, cerca de 53,38. Vejam só.

Em fevereiro de 2020, Paulo Guedes comemorou a alta do dólar que já batia acima dos 4. E ali naquela ocasião, desnudou (se é que ainda precisava) o fundamento de sua comemoração e o sistema de valores e costumes que orienta a sua conduta, ou seja, a sua ideologia, simetricamente afinada à de seu chefe: com o dólar baixo, o Brasil estava numa festada danada. Empregadas domésticas indo à Disney e tudo mais. Como se sabe, no universo de referências morais do ministro da economia, lugar de empregada doméstica pode ser em qualquer lugar, menos onde ele, sua família e seus semelhantes costumam passar férias. Quer dizer, elas até podem ir, mas contanto que saibam seu lugar, sua função e a roupa adequada que devem vestir: uma farda que não permita ambiguidades semióticas para os que a vejam frequentando um ambiente que não lhes é de direito. É à toa que esse cidadão serve a um sujeito que, quando parlamentar, votou contra a regulamentação do trabalho doméstico? Só para quem lhe enxerga como “técnico” porque partilha de seus mesmos referenciais ideológicos.

O mar de atrocidades classistas, demofóbicas, sexistas e, de toda sorte, moralmente atrozes que esse cidadão já compartilhou publicamente é capaz de fazer o presidente da República parecer um sujeito razoável e tolerante.

Ao contrário de ricos como ele, que são ricos porque poupam, pobres são pobres porque não economizam. Promovem uma gastança desenfreada em vez de economizarem. Isso no País mais desigual de todas as democracias do mundo, com fome e misérias crescentes e cuja a maioria da população sobrevive com menos da metade de um salario mínimo. Na mesma toada, do alto da mesma perversidade abjeta, acusou esses mesmos brasileiros, que vendem o almoço para comprar a janta, de desperdiçarem comida fazendo pratos fartos, ao contrário dos europeus. Qual seria a solução para o problema da fome? Coletar e distribuir restos de comida de restaurante a pessoas em situação de rua. Essa é a política de combate à fome sugerida por esse cidadão.

Em Davos, sugeriu que a pobreza é a razão das queimadas e desmatamentos no Brasil, escondendo todas as responsabilidades intrínsecas do governo de que faz parte nesses crimes ambientais e no hoje consequente aumento da escassez das chuvas. Diagnosticou que o problema da Previdência era o fato de que “todo mundo quer viver 100 anos”. E como o diabo mora nos detalhes, principalmente na língua de um sujeito com seus valores e visões de mundo classistas, percebam que ele não condena todos os que querem viver 100 anos. Esse direito é facultado a alguns nas entrelinhas da frase. O problema é que todo mundo quer. E todo mundo não pode ser. Agora imaginem quem, de que classe social, na cabeça do ministro, não pode querer assoprar velinhas de comemoração de 100 anos. Não é difícil de adivinhar vindo de um sujeito que escolhe justamente um filho universitário de um porteiro para criticar políticas de acesso à Universidade.

Guedes já quis acabar com a isenção tributária de livros afirmando que “só rico lê”. Ele não tem a menor intenção de promover a leitura entre os mais pobres. Pense num absurdo proferido pelo ministro da educação e encontre precedentes no ministro da economia. Do mesmo modo, o preço do arroz teria subido porque a vida do pobre melhorou, ou seja, o pobre não está podendo comer arroz por conta da inflação galopante dos itens alimentícios, mas porque a procura por esses itens pelos miseráveis aumentou exponencialmente elevando o preço do artigo. É a lei da oferta e da procura do imaginário social de Paulo Guedes, tão representativo do pensamento classista brasileiro.

Este texto poderia ter o triplo do tamanho apenas com exemplos minimamente comentados das barbaridades ditas pelo ministro da Economia. Mas, a esse ponto, parece que não se pode ter mais dúvidas sobre o que tudo isso nos ensina.

Ensina que, contanto que você tenha uma agenda de reformas (nunca a agrária, se lembrem) cujo o propósito seja o de dilapidar o patrimônio público, reduzir os serviços públicos, atacar o funcionalismo e prometer à iniciativa privada tomar posse daquilo que elas nunca ajudaram a construir, você pode dizer e fazer o que quiser, inclusive pode justificar o injustificável e entregar inflação de combustíveis, de alimentos, de aumento da fome, da miséria, do desemprego, do desamparo dos vulneráveis que ninguém realmente relevante nas arenas públicas que importam pedirá a sua cabeça. Alguém poderia me lembrar de que você pode até quebrar com as promessas feitas em campanha ou ao longo desse mandato, mas eu contesto. Isso nunca esteve no centro efetivo das preocupações de quem apoiava e ainda apoia esse sujeito, explícita ou implicitamente. Tudo isso é tolerável contanto que o Estado, principalmente em suas funções sociais, seja reduzido exclusivamente aos que já desfrutam de seu máximo.

Paulo Guedes e o governo que o abriga, que o acolhe por afinidades múltiplas, são uma lição de política para o Brasil. Uma receita de como se manter no poder. Um desvelamento do que o Brasil é capaz de tolera e aquilo que não tolera.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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PhD em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professor e pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais, membro do Grupos de Pesquisa em Democracia e Justiça (Margem) e pesquisador associado ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD).

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