‘O rei está nu, mas pode voltar a se vestir’

A unanimidade empresarial em torno de Jair Bolsonaro se manteve até pouco tempo atrás, apesar das políticas de destruição

O presidente da República, Jair Bolsonaro. Foto: Marcos Corrêa/PR

O presidente da República, Jair Bolsonaro. Foto: Marcos Corrêa/PR

Opinião

A frase que dá título a esta coluna foi proferida por André Perfeito, economista-chefe da corretora de valores Necton, e foi parar na primeira página do jornal Folha de S. Paulo na última sexta-feira 20. O economista se referia metaforicamente ao presidente Jair Bolsonaro e, pelo que sugere o contexto da matéria, representava a mentalidade dos setores financeiro e empresarial em relação ao capitão.

 

 

Na mesma matéria, a economista Zeina Latif afirma o seguinte: “É difícil falar do mercado como entidade de opinião única, mas antes havia mais unanimidade [sobre Bolsonaro], e isso não existe agora”. A Folha também deu destaque a essa frase na capa da mesma edição. Percebam que não estamos falando do cenário pré-eleitoral de 2018 em que essas pessoas poderiam justificar e se conceder, dissimuladamente, o benefício da dúvida em relação ao que Jair Bolsonaro poderia fazer quando sentado na cadeira da Presidência. Estamos em agosto de 202, sentados sobre uma pilha de quase 580 mil mortes por Covid-19 numa pandemia cujos efeitos foram demonstrativamente agravados por decisão deliberada deste governante.

Seria assustador, não fosse previsível para quem conhece as crenças, valores e moralidade que regem as opiniões, atitudes e condutas políticas do empresariado e dos financistas brasileiros. A unanimidade empresarial em torno de Jair Bolsonaro se manteve até pouco tempo atrás, apesar das políticas de destruição da educação, da saúde pública, do meio ambiente, da cultura, do aparelhamento político-ideológico das instituições, do desmonte de órgãos de fiscalização, da série ininterrupta de ataques às instituições democráticas, das promessas explícitas de golpe, das milhares de mortes e famílias enlutadas em decorrência do sucateamento e corrupção no Ministério da Saúde, da escalada assustadora da fome, da miséria e da insegurança alimentar, ou seja, das tragédias sociais, políticas e econômicas patrocinadas pelo governo federal.

Basicamente, a unanimidade empresarial está se desfazendo por duas razões: o calote nos precatórios e o aumento do valor e alcance do Bolsa Família. E não por alguma virtude ou preocupação genuína com os pobres e desvalidos, mas por puro oportunismo eleitoral.     Trata-se de um claríssimo sinal de que essa classe de poderosos profissionais não tem o menor compromisso com o bem-estar social, o bem comum e com a própria democracia. Esses que costumam se autointitular liberais formam tão e somente uma classe de predadores que tudo justifica quando se trata de defender seus interesses especiais: rifa-se vidas e o próprio Estado democrático se esse custo se reverter em lucro. Não é coincidência que Paulo Guedes seja o grande emblema desse setor no governo Bolsonaro: demofóbico e completamente desvinculado de qualquer interesse pela democracia, como deixa claro seu apreço pelo regime de Pinochet no Chile.

Não é à toa que me causou estranheza e espécie o comentário do colunista de Folha e influencer Joel Pinheiro em sua conta no Twitter. Inteligente, bem articulado e longe de ser um bolsonarista, afirmou que Paulo Guedes estaria amadurecendo no cargo por conta de um comentário no qual o ministro se colocou como favorável a uma moeda única para o Mercosul. Amadurecendo? Há pouco mais de dois meses Paulo Guedes defendeu uma política de combate à fome que consistia em recolher e entregar restos de comida de restaurantes para pessoas em situação de rua. Faz pouquíssimo tempo que se referiu de forma pejorativa e caricatural a um problema educacional no Brasil usando o filho de um porteiro recém-ingresso numa universidade. Ou seja, destilando o velhíssimo preconceito de classe tradicional em terras brasileiras. Pense num absurdo proferido pelo atual ministro da educação. Você acha fartos precedentes em Paulo Guedes.

Eu não sei exatamente o que Joel Pinheiro considera amadurecimento, mas sua manifestação escancara uma disposição em compartimentalizar as ações de Paulo Guedes, neutralizando todo resto em favor de um aspecto pontual. Ou seja, no fim, justifica-se metonimicamente o oceano de atrocidades vindo de Guedes em favor de uma pequena gota que lhe agrada. E considero, por óbvio, “amadurecimento” um elogio a um sujeito que deveria estar em qualquer lugar, menos no Ministério da Economia.

Tudo isso nos entrega duas lições muito básicas sobre o Brasil.

1) O governo Bolsonaro ensina aos postulantes à cadeira presidencial que é possível tocar até o fim um governo que destrói vidas, cultura, educação, saúde, territórios e povos indígenas, que devasta o meio ambiente e impõe consequências climáticas catastróficas, que insulta, ofende e atenta contra as instituições democráticas, que aparelha político e ideologicamente essas mesmas instituições, que ameaça golpes e atua para gerar confusão e caos na esfera pública. Contanto, obviamente, que você tenha uma agenda de dilapidação dos patrimônio e de serviços públicos essenciais em favor da suposta “saúde financeira” do Estado que garante ao rentismo e aos empresários seus privilégios históricos.

2) O presidente é um sujeito paranóico com traços de psicopatia. Tivesse alguma lucidez política, já teria enxergado, a essa altura, o tamanho da boa vontade dos setores poderosos e com capacidade de determinações políticas neste País. Teria uma vida muito mais fácil e tranquila tocando todo seu projeto de destruição sem maiores percalços. Teria percebido que esse País é muito mais a sua cara do que ele imagina.

Em tempo, é como já disse algumas vezes, Jair Bolsonaro é a demonstração do que o Brasil tolera e o que ele não tolera. Algo que certamente deve fazer John Locke se revirar no túmulo, afinal, toleramos o intolerável. “Intoleramos” o razoável.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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PhD em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professor e pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais, membro do Grupos de Pesquisa em Democracia e Justiça (Margem) e pesquisador associado ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD).

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