Luana Tolentino

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Mestra em Educação pela UFOP. Atuou como professora de História em escolas públicas da periferia de Belo Horizonte e da região metropolitana. É autora do livro 'Outra educação é possível: feminismo, antirracismo e inclusão em sala de aula' (Mazza Edições)

Opinião

Benedita da Silva, Sueli Carneiro e o Brasil que eu quero

Um País protagonizado pelos saberes e pelos ideais de igualdade e justiça de mulheres negras

Créditos: Reprodução Redes Sociais
Créditos: Reprodução Redes Sociais
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Ontem, enquanto aguardava a minha vez de cortar o cabelo no salão que frequento, resolvi dar uma espiada no Instagram para passar o tempo. Ao abrir a rede social, deparei-me com uma foto de Benedita da Silva e Sueli Carneiro, juntas, sorrindo. Ambas participaram do encontro promovido pelo Instituto Marielle Franco, em uma ação conjunta com diversas organizações da sociedade civil, que teve Francia Márquez, vice-presidenta da Colômbia, como convidada principal.

Fui atravessada pela imagem de tal maneira que resolvi registrar neste espaço. De um lado, Benedita da Silva, deputada federal com 80 anos recém-completados. Do outro, a septuagenária Sueli Carneiro, que é, sem sombra de dúvida, uma das maiores intelectuais deste País.

Há muito as acompanho. Sempre com encantamento e gratidão. Benedita, que conheceu a fome, teve a trajetória política forjada nas associações de moradores do Morro Chapéu Mangueira, favela em que passou parte significativa dos seus dias. A vida de Benedita da Silva é marcada pelo pioneirismo: primeira senadora negra do Brasil, primeira governadora afrodescendente do estado do Rio. Benedita participou também da Constituinte de 1987, em que trabalhou ativamente para a inserção da questão racial no documento que deu origem à Constituição de 1988. A história dessa professora-alfabetizadora precisa ser re-contada e re-conhecida.

Na minha caminhada, posso dizer, com orgulho, que conheci Benedita da Silva – uma lutadora que, como eu e muitas outras mulheres negras deste País, já exerceu a profissão de trabalhadora doméstica. Era 2010. Benedita foi uma das convidadas do Seminário Mulher e Mídia, evento realizado no Rio de Janeiro, com o apoio da extinta Secretaria Nacional de Políticas para Mulheres, à época dirigida pela saudosa Nilcéa Freire. Eram outros tempos.

Fiquei impactada quando a companheira de vida do ator Antonio Pitanga subiu ao palco do Cine Odeon. Ela, que é muito alta, ficou ainda maior. Benedita é daquelas mulheres que não precisam de microfone para falar, para ser ouvida. Sua força está na voz, na sua existência. Bastaram poucas palavras para que meus olhos ficassem “rasos d’agua”, conforme cantou Cartola. Aquele encontro significou um divisor de águas em minha vida. Ao ouvi-la, pensei: o feminismo, o movimento de mulheres negras, a luta contra o racismo são caminhos dos quais não posso me afastar. Tenho Benedita da Silva como farol.

Ainda não tive o privilégio de conhecer, de abraçar Sueli Carneiro, mas o brilhantismo do seu pensamento se faz sempre presente: na minha dissertação de mestrado, nos meus discursos, nas minhas aulas, na minha condição de mulher negra, na minha tentativa de compreender melhor o Brasil. Doutora em Educação pela USP, Sueli, que é pioneira nos estudos sobre gênero e raça e há 34 anos está à frente do Geledés – Instituto da Mulher Negra, me ensina. Diariamente. Em 2017, ela me concedeu a honra de citar o meu nome em uma entrevista à revista Cult. Ao falar de nós, mulheres negras, Sueli Carneiro lembrou: “Nós, mulheres negras, somos a vanguarda neste País; nós, povo negro, somos a vanguarda das lutas sociais deste País porque somos os que sempre ficaram para trás, aquelas e aqueles para os quais nunca houve um projeto real e efetivo de integração social. Doravante, nada mais será possível sem nós”.

Embora por caminhos distintos na atuação política, Benedita da Silva e Sueli Carneiro têm em comum o fato de serem responsáveis por abrir portas para gerações inteiras de mulheres negras, nas quais eu me incluo. E não só: as políticas públicas de enfrentamento do racismo implementadas no Brasil nas últimas décadas contam com participação viva e ativa de ambas. Benedita e Sueli são vozes insurgentes em um País que ainda insiste em relegar as afro-brasileiras ao lugar do silêncio, da limpeza e da subserviência.

Benedita da Silva e Sueli Carneiro representam o Brasil que eu quero: um Brasil protagonizado pelos saberes, pelos ideais de igualdade e de justiça de mulheres negras. 

A Benedita e Sueli, meu muito obrigado.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

Luana Tolentino

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