Thiago Rodrigues

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Doutor em Relações Internacionais pela PUC-SP e Sorbonne Nouvelle e professor na Universidade Federal Fluminense (UFF)

Opinião

A Justiça na República de Copacabana

A ‘gangue de brigões’ de Copacabana é expressão mais nua e crua do que a nossa sociedade com alguma posse deseja: uma guerra contra a maioria pobre e negra que a assusta e ameaça

Homem é preso em Copacabana com facão, faca e máscara — Foto: Divulgação
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Roubar é crime, assim como fazer justiça com as próprias mãos. Apesar disso, o espancamento de pessoas identificadas como “criminosos” parece plenamente justificável para os valentões que passaram a patrulhar as ruas de Copacabana neste início de mês. Os autodenominados “justiceiros” afirmam ter assumido a tarefa de “limpar” o bairro de pequenos assaltantes, pedintes e ladrões. São jovens homens de classe média que se dizem cansados das cenas de furto e de roubo nas ruas do tradicional bairro carioca. Já os agredidos são jovens pobres, quase sempre negros, trabalhando nas ruas, vivendo nas ruas e praticando ou não atos ilegais. 

Este fenômeno não é novo, e já ocorreu recentemente neste e em outros bairros de classe média do Rio de Janeiro.. Quem não se lembra do adolescente negro, supostamente assaltante, espancado e acorrentado nu a um poste no Flamengo, em 2014? Ou, no ano seguinte, da ação de grupos de agressores como os de hoje formados após uma onda de assaltos e arrastões na praia de Copacabana? 

Tanto antes como agora, a ação de “justiceiros” mobiliza pouco as autoridades policiais e políticas e conquista apoiadores entusiastas nas redes sociais. Existe uma expressiva chancela para que eles ajam diante do que percebem como “aumento da criminalidade”.

As razões que autorizam o revide estão nas raízes do Brasil ou, se procuramos mais, são tão profundas quanto as bases da nossa cultura judaico-cristã. Os marombados de Copacabana acreditam que o castigo (físico, principalmente) é a melhor maneira de educar e/ou de dissuadir um comportamento, e que a regra básica da “boa sociabilidade” é a lógica do “olho por olho, dente por dente”.

Esta crença vem acompanhada de valores morais legados por séculos de escravidão e de desumanização de pessoas negras, aos quais se somam a valorização absoluta dos bens materiais numa sociedade com profundas desigualdades socioeconômicas. Tudo isso recebeu, ainda, o verniz da ideologia neoliberal-meritocrática que faz crer que o “sucesso” e o “fracasso” são de responsabilidade totalmente individual, sendo medidos pela quantidade de dinheiro que se tenha ou pelo estilo de vida que se ostente. 

O que parte significativa dos moradores das Copacabanas do Brasil deseja é uma solução definitiva ‘à la Netanyahu para a questão social

A combinação acima serve de antídoto para que o “cidadão de bem” não “fraqueje”, abandonando o Antigo Testamento para voltar ao mais compassivo Novo Testamento. Ela atua assim como novo “ópio do povo”, anestesiando ideologicamente para o exercício da violência, enquanto a psiquiatria e a indústria farmacêutica cuidam da anestesia química. Então, por mais abjeto que possa ser o linchamento de alguém, o amedrontado cidadão fica aliviado quando alguém “faz o serviço sujo”. Trabalho, aliás, realizado constantemente por muitos agentes. A maioria deles é oficial (policiais em serviço), outros tantos legalizados (agentes de segurança privada) e outros ilegais (esquadrões da morte, milícias, facções do tráfico). 

O Rio de Janeiro exemplifica bem como funciona e o que produz o capitalismo contemporâneo: uma elite cada vez menor de super ricos, uma maioria cada vez maior de miseráveis e, no meio do caminho, uma classe média empobrecida pelo próprio capitalismo neoliberal – por ela celebrado – que precariza o trabalho, retira direitos sociais, acirra a competição entre os indivíduos e isola as pessoas, adoecendo-as mental e fisicamente, enquanto radicaliza as ideologias de ódio. Em Copa, a classe média exibe-se sem disfarces, reacionária e apavorada, exigindo “justiça” e “segurança”.

“Justiça” e “segurança”, no entanto, são sempre conceitos relativos, pois definidos por algum grupo social a partir de seus interesses e valores. Precisamos sempre nos perguntar: justiça e segurança para quem? O bad boy de Copacabana defende os seus valores, o seu patrimônio e, principalmente, a sua visão do que é “justo”. Por isso, o problema é mais grave do que a mera existência de uma gangue de brigões, pois significa a formulação mais nua e crua do que a nossa sociedade com alguma posse deseja: uma política de “segurança pública” que seja, na prática, uma guerra contra a maioria pobre e negra que a assusta e ameaça. 

Um dos “justiceiros” de Copa escreveu num grupo de WhatsApp que o plano era espancar “bandidos” até que o Exército interviesse. Eis aí o link entre o bando de valentões e a segurança pública entendida como “guerra”. Não é metáfora. Não há sutileza, nem eufemismo. O que parte significativa dos moradores das “Copacabanas” do Brasil deseja é uma solução definitiva “à la Netanyahu” para a questão social. Isso, tampouco é novo, mas cada vez que reemerge, vem mais duro e cruel.  Por isso, a “pena de morte”, a “tortura” e o “castigo físico” continuam sendo valores e práticas escravocratas vivos e ativos não apenas em Copacabana, mas em toda a sociedade brasileira. 

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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