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10 anos depois, precisamos seguir gritando: foi golpe, sim
Chamar o impeachment de Dilma de golpe parlamentar nunca foi apenas uma bandeira militante. Foi, também, um esforço de interpretação
Neste 31 de agosto de 2026, completam-se 10 anos do golpe parlamentar contra a presidenta Dilma Rousseff. Nessa década, os conflitos políticos e sociais no Brasil se agravaram. Passamos a conviver com uma extrema-direita forte eleitoral e culturalmente, que não esconde que seu objetivo é acabar com a democracia e com a soberania brasileira.
Durante alguns anos, quem chamava de golpe aquele processo de impeachment foi desqualificado. Nas ciências sociais em geral e na ciência política em particular, fomos chamados de militantes e parciais. Ainda assim, seguimos argumentando contra aquela destituição, denunciando, sim, que ela foi ilegal e que constituiu uma ruptura com a ordem democrática de 1988.
Ser taxado de militante nunca foi um problema, muito pelo contrário. É motivo de orgulho saber que produzo um conhecimento crítico e engajado na defesa da democracia e no combate às desigualdades. Por isso mesmo, chamar o impeachment de Dilma de golpe parlamentar nunca foi apenas uma bandeira militante. Sempre foi, também, um esforço de interpretação sobre as causas da ascensão e consolidação da extrema-direita no Brasil e de reflexão sobre como podemos derrotá-la definitivamente.
Assim, é importante afirmar que, agora, em 2026, temos um acúmulo consistente de pesquisa nas Ciências Sociais e na Ciência Política que caracteriza aquele processo como golpe e demonstra seus vínculos com a força do bolsonarismo no Brasil.
Começando pela interpretação mais geral, é significativo que, logo em 2017, um dos principais cientistas políticos do país tenha lançado um livro para teorizar sobre os golpes parlamentares. Wanderley Guilherme dos Santos publicou a obra A democracia impedida: o Brasil no século XXI, com um duplo objetivo: por um lado, entender este novo tipo de golpe, relacionando-o com os tipos de golpe que já conhecemos, como o golpe militar; e, por outro, provar que o processo sofrido por Dilma Rousseff se enquadra neste novo tipo de golpe parlamentar.
Nestas páginas, Wanderley Guilherme não chegou a prever o bolsonarismo em si, mas antecipou que uma das principais consequências do golpe parlamentar era o aumento da instabilidade política que, por sua vez, havia sido alimentada para justificar o golpe. O novo governo golpista, diante deste cenário, apelaria mais e mais para a repressão, perdendo, assim, sua baixa legitimidade democrática, o que o levaria a se apoiar com mais força na violência política.
Foi exatamente o que ocorreu no Brasil pós-golpe parlamentar contra Dilma Rousseff. A violência política aumentou a ponto de levar ao assassinato de Marielle Franco e à prisão ilegal de Lula em 2018. Estes dois eventos – somados à intervenção militar e à eleição de Bolsonaro – abriram o ciclo político de maior risco para a democracia brasileira desde que a Constituição de 1988 foi promulgada.
Além desta interpretação geral, hoje temos um conjunto de pesquisas que aprofunda o nosso entendimento sobre os vínculos entre o golpe parlamentar de 2016 e a consolidação da extrema-direita no Brasil na dimensão institucional, social e cultural. Do ponto de vista das instituições, o principal laço entre o golpe contra Dilma e a extrema-direita está na operação Lava-Jato e no uso político que a coalizão golpista fez do tema do combate à corrupção. São dezenas de pesquisas na Ciência Política e no Direito explicando esta relação.
Todo este processo foi simbolizado pela entrada de Sérgio Moro no ministério de Jair Bolsonaro, acabando de vez com qualquer marca de imparcialidade que suas decisões poderiam ter. Moro, na verdade, já estava desmoralizado pela “Vaza-Jato”, base legal da anulação da condenação do presidente Lula em 2020. Apesar disso, a prática do lawfare e do uso político do Judiciário segue firme, como podemos ver agora na tentativa de desestabilizar a candidatura de Lula com as investigações sobre seu filho e seu ex-assessor.
Já na esfera social, o nexo entre o golpe parlamentar e a extrema-direita se deu pelo perfil social e pelo tipo de ativismo que protagonizou as manifestações contra Dilma em 2015. Novamente, dezenas de pesquisas da Antropologia e da Sociologia reforçam que os coletivos e lideranças daqueles atos migraram para as estruturas políticas do bolsonarismo em particular ou de outras expressões da extrema-direita. No mesmo sentido, boa parte da base mais ampla que estava presente nas ruas em 2015 repetiu o engajamento nas manifestações bolsonaristas contra a democracia em 2021 e 2022. Tal militância segue atual e marca presença nas ruas e nas redes em defesa de Flávio Bolsonaro e das demais candidaturas extremistas, como no caso de Renan Santos.
Resta o âmbito cultural. Aqui, a ligação mais importante é, sem dúvida, o crescimento no Brasil de uma cultura política de misoginia e machismo. Uma vez mais, são dezenas de pesquisas de diversas áreas provando a relação entre a violência política do golpe parlamentar e a força dos valores fascistas que movem a extrema-direita hoje. É dever de quem combate o feminicídio e a violência contra a mulher lembrar que a presidenta Dilma foi alvo sistemático de ataques covardes e desqualificações infames pelo fato de ser a primeira mulher a presidir o Brasil em nossa história. E ainda que tais ataques tenham sido absurdamente normalizados pela mídia empresarial em geral, com raras exceções. Hoje, a normalização permanece, se não mais na forma da violência misógina mais escancarada, mas em outras formas de comportamento fascista, tais como as declarações de Flávio Bolsonaro e Renan Santos propondo matanças e prisões em massa para supostamente combater o crime organizado.
Para concluir, obviamente, nenhuma dessas pesquisas afirma que a extrema-direita só existe no Brasil por causa do golpe parlamentar. Não é uma relação de causa e consequência, mas sim uma análise que identifica o golpe parlamentar como uma ruptura democrática que abriu as portas para o desenvolvimento de vários tipos de fascismo e de violência política. Por tudo isso, dez anos depois, precisamos seguir gritando que foi golpe, sim, em 2016!
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