Política
Protagonista da queda de Dilma, Cunha usa o golpe como credencial para tentar voltar à política
Fora da política desde então, o ex-presidente da Câmara se aproxima de Flávio e tenta se posicionar como ‘parteiro’ do bolsonarismo
Eduardo Cunha (Republicanos) transformou o impeachment de Dilma Rousseff (PT) em seu principal patrimônio político. Dez anos depois do golpe contra a então presidente, o ex-presidente da Câmara passou a reivindicar publicamente uma responsabilidade que vai muito além da derrubada da petista. Para ele, a decisão tomada em 2016 foi o ponto de partida para a ascensão da direita, que culminaria na eleição de Jair Bolsonaro (então PSL, hoje PL) em 2018.
“Se eu não tivesse feito o impeachment, não teria existido Bolsonaro presidente da República, e nenhum desses expoentes da direita que aí estão teriam hoje alguma proeminência”, afirmou Cunha em abril, em entrevista ao jornal O Tempo. Na mesma conversa, disse não se arrepender do processo e foi ainda mais explícito ao atribuir a si próprio a retirada do PT do poder. “Quem tirou o PT do poder? O único fui eu. Pode falar o que quiser. Sem o meu ato, nada teria ocorrido”, declarou.
A avaliação de Cunha não é apenas uma leitura retrospectiva. Ele passou a utilizar o impeachment como credencial para tentar voltar à política. Candidato a deputado federal por Minas Gerais em 2026, afirma que teria feito o processo ainda mais rapidamente se pudesse voltar no tempo e diz que continua recebendo reconhecimento nas ruas. Segundo ele, “nove em cada dez pessoas” que o abordam aprovam sua atuação na queda de Dilma.
A reivindicação de protagonismo ganhou um novo componente neste ano, com a aproximação de Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência. Em junho, os dois se encontraram em Belo Horizonte durante a pré-campanha, e Cunha passou a declarar apoio ao senador na disputa pelo Planalto. Em agosto, a aproximação ganhou um gesto ainda mais explícito, quando os dois apareceram juntos em um culto evangélico em São Paulo, ao lado da deputada Dani Cunha (PL-RJ).
A relação deixou de ser apenas uma aliança entre políticos e passou a envolver uma narrativa compartilhada sobre 2016. Na quarta-feira 26, Flávio gravou um vídeo para pedir votos para Cunha. Ao apresentar o ex-presidente da Câmara, o senador recuperou justamente o papel desempenhado por ele no impeachment. “Foi aquele que abriu os olhos da população brasileira e derrubou a Dilma, talvez a pior presidente que esse País tenha tido na sua história e que, graças a Deus, o Brasil reagiu e reagiu a tempo”, afirmou.
Cunha agradeceu o apoio e declarou, no mesmo vídeo, que faz campanha por Flávio em Minas Gerais e no restante do País, apesar de o Republicanos ter adotado neutralidade na disputa presidencial. O material ainda termina com uma declaração de Jair Bolsonaro feita durante a votação do impeachment, em 2016, quando o então deputado parabenizou Cunha pela condução dos trabalhos na Câmara.
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A troca de apoios dá um novo sentido à tentativa de Cunha de recuperar espaço político. Ele não foi um “bolsonarista raiz” e sua trajetória antecede em muitos anos a ascensão do ex-presidente. Mas transformou a derrubada de Dilma em uma espécie de certificado de origem da direita que chegou ao poder em 2018. Agora, ao apoiar o filho de Bolsonaro e receber dele uma declaração pública de reconhecimento, Cunha passa a ocupar um lugar simbólico na própria história que reivindica ter ajudado a construir.
A tentativa de retorno à Câmara dá outra dimensão ao movimento. Cunha perdeu o mandato em 2016, por 450 votos a 10, depois de ser acusado de mentir à CPI da Petrobras sobre a existência de contas no exterior. No mesmo ano, foi preso no âmbito da Operação Lava Jato e chegou a ser condenado a quase 16 anos de prisão. As condenações foram posteriormente anuladas em decisões de 2021 e 2023.
Mesmo fora do Congresso, Cunha continuou circulando nos bastidores da política. Em 2026, mudou o domicílio eleitoral para Minas Gerais e tenta novamente conquistar um mandato, enquanto sua filha permanece na Câmara pelo Rio de Janeiro. A candidatura, porém, enfrenta questionamentos na Justiça Eleitoral. O Ministério Público Eleitoral pediu a impugnação do registro sob o argumento de que uma condenação por improbidade administrativa mantém Cunha inelegível até 2027. O caso ainda está em discussão na Justiça Eleitoral e no STF.
A campanha mineira também recolocou Cunha no centro de outra disputa que marca a política brasileira atual. Segundo investigação da Polícia Federal, ele teria atuado na destinação de 6,15 milhões de reais em emendas parlamentares para 29 municípios mineiros, embora não tenha mandato. O ministro Flávio Dino determinou o bloqueio de bens até esse valor. A defesa nega irregularidades e afirma que Cunha não apresentou nem formalizou as emendas investigadas.
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