Renato Meirelles

Comunicólogo, presidente do Instituto Locomotiva e fundador do Data Favela, autor de 'Um País Chamado Favela' e 'Como Ser Uma Empresa Antirracista'

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O PL da Misoginia e o seu Nilson

Ele achava que era coisa de comunista, até a filha abrir o celular e ler o que estava escrito na proposta

O PL da Misoginia e o seu Nilson
O PL da Misoginia e o seu Nilson
Créditos: Marcelo Camargo/Agência Brasil
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Seu Nilson tem 52 anos e roda doze horas por dia de aplicativo. Estava mexendo o feijão quando Rafaela, de 15 anos, segundo ano do ensino médio, encostou na pia com o celular na mão.

— Pai, o que é esse projeto da misoginia?

— Coisa de comunista, filha. Querem prender quem fala o que pensa.

— Prender por falar o quê?

— Qualquer coisa. Solta uma piada, já era.

— Qual piada o senhor faz que dá cadeia?

— Nenhuma. Mas e se der?

— Pai, racismo é crime desde quando?

— Desde 89.

— O senhor já foi preso por falar alguma coisa?

— Eu não falo essas coisas.

— Então.

Ele desligou o fogo. Ganhou tempo.

— Não é a mesma coisa. Racismo é racismo. Isso aí é subjetivo. Quem é que vai decidir o que é ódio?

— Lê comigo o que está escrito, então.

Ela virou a tela.

— Organizar campanha para atacar uma mulher. Ganhar dinheiro humilhando mulher. Incitar violência contra mulher. Me mostra qual desses aí é opinião.

— Isso já não é crime?

— Parte é. Mas depende de quem é a mulher.

— Como assim, depende?

— Ameaçar deputada tem lei com nome e pena desde 2021. Ameaçar enfermeira, professora, caixa de mercado, é ameaça comum: dá cesta básica. A lei já protege quem tem mandato. Quem tem plantão, não.

Seu Nilson pegou a colher de novo. Sem mexer nada.

— E se eu falar que mulher dirige mal?

— Aí o senhor está falando besteira. Mas besteira não é crime, pai, e vai continuar não sendo.

— Tá vendo? Já começou.

— Não comecei nada. Eu acabei de dizer que o senhor pode. O que ninguém pode é montar uma página para destruir a vida de uma mulher e vender publicidade em cima.

— Mas hoje em dia está todo mundo ofendido, Rafa. Não pode mais nada.

— Pode tudo. Menos ameaçar.

Ela ficou quieta um tempo. Quando voltou a falar, a voz tinha mudado de lugar.

— Pai, o senhor lembra da Bia?

— A do prédio da frente.

— Fizeram uma lista no grupo do colégio. Uma lista com as meninas da escola, com nota de cada uma. Com foto. A Bia trancou o ano.

O feijão começou a agarrar no fundo da panela.

— Ninguém foi advertido. A escola disse que era coisa de menino.

— Você estava nessa lista?

— Estava.

Seu Nilson largou a colher na pia.

— Por que você não me contou?

— Porque o senhor ia mandar eu sair do grupo.

— E eu ia mesmo.

— Pois é, pai. Sou eu que saio. É sempre a gente que sai.

Ele não respondeu. Ficou olhando para o fogão desligado como quem procura alguma coisa que não está ali. Quando falou, foi de um assunto que ninguém tinha puxado.

— E o Kauã?

O Kauã tem 12 anos e é irmão dela.

— O que tem ele?

— Ele fica vendo aqueles vídeos de como ser homem de verdade. Eu achava besteira de moleque.

— Não é besteira. Tem gente ganhando muito dinheiro ensinando isso pra ele.

— Ganhando dinheiro?

— A lei aumenta a pena até o dobro para quem lucra com ataque a mulher e para quem tem audiência grande. Não é pro senhor, pai. É pra quem fatura em cima da gente.

— Então essa lei é pra te proteger.

O feijão queimou no fundo. Seu ­Nilson não ligou.

— Me manda o link disso aí.

De um lado, um medo inventado: perder a liberdade de falar. Do outro, um medo vivido: ir para a escola. Os dois não pesam igual – um é hipótese, o outro é segunda-feira de manhã.

E repare no que desarmou o pai. Não foi argumento jurídico, não foi estatística, não foi ninguém o chamando de machista. Foi a lista com o nome da filha.

No Senado, o PL de Combate à Misoginia passou por 67 votos a zero. Nenhum voto contrário, de nenhum campo, de nenhuma bancada. Na Câmara, travou – e não travou por convicção, travou por conveniência.

Há anos o Instituto Locomotiva escuta o Brasil que a estatística costuma tratar como massa e a gente insiste em tratar como gente. E tem uma coisa que aparece em pesquisa atrás de pesquisa, década após década: o medo não é um sentimento das mulheres brasileiras, é um cálculo. Que horas voltar, por onde andar, o que postar, quando calar. Nenhum país pode se dizer desenvolvido enquanto metade da sua população precisa fazer conta de risco para viver a vida. •

Publicado na edição n° 1424 de CartaCapital, em 05 de agosto de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O PL da Misoginia e o seu Nilson’

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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