Onda de ataques a asiáticos aterroriza comunidades nos Estados Unidos

Crimes de ódio desse tipo no país mais que dobraram nos últimos 12 meses. Caso mais recente culminou na morte de oito mulheres em Atlanta

Membros e apoiadores da comunidade asiático-americana participam de uma manifestação contra o ódio na cidade de Nova York (Foto: Ed JONES / AFP)

Membros e apoiadores da comunidade asiático-americana participam de uma manifestação contra o ódio na cidade de Nova York (Foto: Ed JONES / AFP)

Diversidade,Mundo

por Clarissa Carvalhaes, de Nova York 

Ainda era manhã de quarta-feira 17 e Xiao Zhen Xie, uma senhora de 75 anos aguardava para atravessar a rua no semáforo quando foi violenta e repentinamente agredida com um soco no olho esquerdo. Ela caiu desnorteada, mas embora com a visão comprometida, conseguiu se desvencilhar momentaneamente e agarrar um pedaço de madeira que estava no chão. Não hesitou em usá-lo para se defender. As pauladas da senhora miúda e valente acabaram levando Steven Jenkins, 39 anos, de maca para o hospital e, em seguida, para a delegacia com duas acusações de agressão, lesões corporais e abuso de idosos. Avó amorosa que vive na cidade de São Francisco, na Califórnia, há mais de duas décadas, Xiao Zhen sofreu ferimentos graves no rosto. Ela descobriu, horas mais tarde, que antes de atacá-la Jenkins havia agredido da mesma maneira, há poucos quarteirões dali, Ngoc Pham, um vietnamita de 83 anos que também precisou ser socorrido e levado às pressas para um hospital.

Chinatowns mais antigas, como as da Califórnia e de Nova York, são as que mais denunciam ameaças e ataques

Ataques como esses têm se tornado cada vez mais comuns nos Estados Unidos e são parte de uma violenta onda anti-asiática que vem se espalhando desde o início da pandemia, quando o então presidente Donald Trump – diante das câmeras e em seus muitos comícios – passou a inflamar a xenofobia contra asiáticos e asiático-americanos. Não por acaso, crimes de ódio mais do que dobraram a partir de março de 2020 em comparação com o ano anterior, de acordo com o Centro para o Estudo do Ódio e Extremismo da Universidade Estadual da Califórnia.

Nas últimas semanas, porém, o aumento nos casos de violência, ódio e da retórica contra asiático-americanos passou a sinalizar que a situação vem se alastrando exponencialmente. Segundo a Stop AAPI Hate, uma organização que começou a monitorar a violência e o assédio contra os asiáticos americanos e as ilhas do Pacífico em 19 de março do ano passado, 68,1% das denúncias recebidas são de assédio verbal, 20,5% são referentes a evasão (ou seja, à rejeição deliberada de asiático-americanos), 11,1% de agressão física. Queixas relativas à violação de direitos civis, como a discriminação no trabalho, somam 8,5%. Ainda de acordo com o grupo, aqueles que se reportam à Stop AAPI Hate são desproporcionalmente mulheres, jovens e idosos.

Xiao Zhen Xie, uma senhora de 75 anos, foi violenta e repentinamente agredida na Califórnia (Foto: Reprodução)

As Chinatowns mais antigas do país, como as da Califórnia e de Nova York, são as mais vêm denunciando ameaças e ataques. Na mesma semana em que Xiao Zhen Xie e Ngoc Pham foram espancados, oito mulheres – seis delas de descendência asiática e que trabalhavam em um spa em Atlanta, na Georgia, foram mortas à tiros por Robert Aaron Long, de 21 anos. Em depoimento à polícia, o suspeito alegou ser viciado em sexo e justificou que os spas eram “uma tentação (…) que ele queria eliminar”.

A insistência de Trump em usar os termos ‘vírus chinês’ ou ‘kung flu‘ direcionou o medo e a raiva que as pessoas tinham da Covid-19 para os asiáticos

Em conversa com a CartaCapital, a jornalista da NBC News, Vicky Nguyen, que tem noticiado extensivamente o sentimento anti-asiático, afirma que ataques como os da Geórgia traumatizaram profundamente a comunidade asiático-americana, especialmente porque acontecem depois de um ano em que muitos já se sentiam alvos de ódio e violência. O número de vigílias e protestos nas ruas, associados a movimentos nas redes sociais com a hashtag #StopAsianHate revelam o medo que aterroriza as comunidades asiáticas.

No último final de semana, só na cidade de Nova York, pelo menos cinco pessoas de ascendência asiática foram atacadas – incluindo uma mulher que compareceu a uma dessas manifestações. Por causa disso, o prefeito de NYC Bill de Blasio assegurou que aumentaria a presença da polícia nas comunidades asiáticas.

As palavras importam e estamos vendo o que acontece quando são transformadas em armas. As pessoas podem dizer que os termos depreciativos que Trump usou não são racistas, mas quando querem magoar os asiático-americanos, que palavras usam? Basta olhar para a pichação deixada recentemente no restaurante Noodle Tree, no Texas”, explicou Vicky Nguyen referindo-se às palavras de ódio deixadas na fachada do estabelecimento.

Pichação deixada no restaurante Noodle Tree, no Texas (Foto: Reprodução)

“Oito pessoas foram baleadas. Sete eram mulheres e seis eram mulheres asiáticas. O assassino culpou aquelas mulheres asiáticas por seus próprios problemas e as matou. Ele não entrou em outros spas diurnos não-asiáticos próximos entre Atlanta e o condado de Cherokee”, completa.

“Como meu amigo e colega repórter Brendan Keefe observou: ‘a polícia diz que ele tinha como alvo esses spas porque já tinha os visitado antes. Ele escolheu spas asiáticos por sua ‘tentação’ em uma nação onde os homens brancos sexualizam e objetificam as mulheres asiáticas.'”

O presidente Joe Biden e a vice Kamala Harris visitaram Atlanta dias após o ataque. “O racismo é real na América e sempre foi. A xenofobia é real na América e sempre foi. O sexismo também”, disse Harris.  O presidente e eu não vamos ficar calados. Não vamos ficar parados. Sempre falaremos contra a violência, crimes de ódio e discriminação, onde e quando ocorrerem. Todos têm o direito de ser reconhecidos como americanos. Não como o outro, não como eles, mas como nós.”

Bode expiatório

O ódio anti-asiático precede a administração Trump e continuam a aumentar mesmo depois que o republicano deixou o cargo. Russell Jeung, presidente do Departamento de Estudos Asiático-Americanos da Universidade Estadual de São Francisco e um dos líderes do Stop AAPI Hate destaca, no entanto, que a insistência do ex-presidente em usar os termos “vírus chinês” ou “kung flu” direcionou o medo e a raiva que as pessoas tinham do Covid-19 para os chineses e aqueles que parecem chineses.

“Seu discurso de ódio se tornou viral, e isso abre as portas para a violência. O racismo contra os asiático-americanos aumenta em tempos de guerra, pandemia e crise econômica. No ano passado, o presidente Trump atacou a China como bode expiatório. Como resultado, os chineses nos EUA também foram derrotados”, destaca.

Mas como conter o ódio? A pandemia escancarou as muitas mazelas que assombram há décadas os Estados Unidos. Mais de 543 mil pessoas morreram de Covid-19 no país, mas foram as comunidades mais pobres e discriminadas que foram massacradas pelo vírus. O movimento Black Lives Matter também mostrou ao mundo o quão grave é o racismo no país. Os ataques aos asiáticos ou asiático-americanos são mais uma chaga que se expõe e necessita urgentemente ser curada.

Treinamento de autodefesa organizado em resposta a um aumento nos ataques violentos, incluindo a morte de mulheres asiático-americanas em Atlanta na semana passada. (Foto: Patrick T. FALLON / AFP)

Para Vicky Nguyen, é preciso, primeiro, reconhecer que o problema existe. Do ponto de vista legislativo, as autoridades precisam encontrar uma maneira cumprir a lei e responder aos incidentes de maneira ágil e eficaz. “É um primeiro passo simples que está muito atrasado no nível federal”, pontua.

O professor Jeung pontua que só ações mais amplas chegraão às raízes do racismo. “Estudos étnicos ensinariam empatia racial aos jovens. A ampliação da proteção dos direitos civis nos protegeria contra incidentes de ódio. Os investimentos em segurança da comunidade diminuiriam a violência nas ruas. E a justiça transformadora, por meio da mediação de conflitos, ajudaria a curar comunidades em todas as raças”, acredita.

A jornalista espera que este momento catalise uma mudança, para que os asiático-americanos sejam plenamente vistos e ouvidos pela sociedade americana. “Por muito tempo, muitos na comunidade permaneceram em silêncio e silenciados, nossa história não foi ensinada na escola e, em parte, graças às mídias sociais e à democratização da informação, aos meios de comunicação tradicionais que finalmente representam vozes diversas, temos a oportunidade de continuar este impulso e trabalhe contra o ódio. Isso é o que me dá esperança e otimismo”, afirma.

Membros e apoiadores da comunidade asiático-americana participam de uma manifestação contra o ódio em Nova York(Foto: Ed JONES / AFP)

Em tempo, a história de Xiao Zhen Xie, a corajosa senhora que lutou contra seu agressor narrada no início da reportagem se tornou um viral nos Estados Unidos. Por causa das fortes pancadas que recebeu no rosto, John Chen, o neto dela, abriu um financiamento colaborativo para ajudar a custear as despesas do hospital. A meta era arrecadar $50 mil, mas em menos de uma semana as doações chegaram a quase $1 milhão. Na página, Chen agradece ao apoio e afirma que a avó já está se sentindo melhor. Mais do que isso: a família decidiu doar o valor coletado. 

No texto assinado por Chen no site do financiamento, ele explica porque Xiao Zhen Xie decidiu realizar a doação. “Minha avó está começando a se sentir otimista novamente e está de bom humor. Ela disse que não devemos atingir o racismo e devemos lutar até a morte, se necessário. Ela também pediu várias vezes para doar todos os fundos gerados para a comunidade asiático-americana para combater o racismo. Ela insiste em tomar essa decisão dizendo que esse problema é maior do que ela. Esta é a decisão da minha avó, do meu avô e da nossa família. Meu coração está com todos os outros idosos asiáticos que também foram gravemente feridos ou mortos nesta onda de ataques à comunidade asiática”.

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