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Fake news e populismo: as eleições da Bolívia na mira de Steve Bannon

Disputa de Evo Morales pelo quarto mandato divide opiniões e é cercada de incertezas. Analistas apontam ingerência americana no processo

Evo Morales
Evo Morales

Neste ano, a Bolívia escolhe se dará ou não a Evo Morales o mando do país por mais cinco anos. Uma pesquisa da consultoria Tal Cual, divulgada neste mês, põe Morales com 38% dos votos, onze pontos à frente de seu principal adversário, o ex-presidente Carlos Mesa (27%). O terceiro colocado, o empresário conservador Óscar Ortiz, tem 8,7%.

O alto percentual de indecisos, porém, indica um caminho nebuloso. Segundo a sondagem, mais de 16% dos bolivianos ainda não sabem em quem votar.

O primeiro presidente de origem indígena transformou radicalmente a Bolívia, um país em que indígenas — que somam dois terços da população — viveram historicamente dominados por uma minoria branca. Mais de um milhão de pessoas (cerca de 10% da população) passaram a fazer parte da classe média. Desde a posse de Evo, o PIB cresce sempre acima de 4%. Houve anos, como 2013, que tiveram aumento de 6,8%.

Eleito pela primeira vez em 2005, Morales ficará no poder até 2025 caso vença desta vez. Mas o eventual quarto mandato divide opiniões e é cercado de incertezas.

Muitos bolivianos que o apoiaram nas eleições anteriores, mesmo agradecidos pela melhora de vida, acham que o tempo de Evo acabou. E querem dar um adeus ao presidente.

Em 2009, Evo promulgou uma Constituição que impunha aos presidentes um limite de dois mandatos consecutivos de cinco anos. De olho em uma nova reeleição, convocou, em 2016, um referendo nacional para acabar com essa limitação. A mudança, porém, foi rechaçada pelos bolivianos.

Ainda assim, no final de 2017, o Tribunal Constitucional do país entendeu que impedir alguém de se candidatar (mesmo um presidente eleito outras três vezes) era “uma violação dos direitos humanos”, e deu a Evo a chance de disputar o cargo mais uma vez.

A determinação de Morales em manter-se na cadeira ecoa a fragilidade das democracias vizinhas e o colapso econômico. Diante desse cenário, aliados do governo temem que haja um processo similar ao que tirou Lula do páreo eleitoral no Brasil, e terminou dando a Jair Bolsonaro a vitória.

Os olhos de Bannon apontam para a Bolívia

Lá como aconteceu cá, as eleições são marcadas por fake news e guerras culturais e pela influência das táticas de Steve Bannon, o profeta do populismo.

A linha dos acontecimentos indica que esse processo já está em curso.

Não há, na oposição boliviana, um nome competitivo que possa ser classificado como outsider. O rival imediato de Morales é Carlos Mesa Gisbert, que foi presidente por dois anos após a queda de Gonzalo Sanchéz de Lozada, um presidente apoiado pelos Estados Unidos que falava espanhol com um forte sotaque anglófono e teve deixar o cargo após greves e protestos generalizados contra a decisão de exportar o gás natural boliviano ao país.

A indústria de boatos por outro lado, serve e muito ao cenário boliviano. Já há algum tempo milícias digitais vem triplicando os esforços para difundir uma velha narrativa da oposição, que associa o governo ao narcotráfico.

Recentemente, integrantes do alto-escalão das forças policiais do governo foram exonerados e presos por suposta ligação com Pedro Montenegro, um traficante procurado pela polícia brasileira desde 2005. As principais evidências, até agora, são fotos.

Montenegro foi preso em maio deste ano, após se entregar às autoridades locais.

O caso, chamado na imprensa boliviana de narcovínculos, rende uma infinidade de ataques virtuais contra o atual presidente, apontado como sabedor e incentivador dessas relações — sem qualquer evidência até aqui, diga-se. A teoria encontra eco em sites de direita brasileiros, como o Terça Livre.

Os dedos dos Estados Unidos pressionam a Bolívia

Analistas políticos simpáticos ao governo atribuem o movimento a uma conspiração encabeçada pelos EUA. A ideia, dizem, é fixar na Bolívia a imagem de a Bolívia é um narcoestado, que promove, protege e é sócio da indústria da cocaína.

Não é de hoje que a política de drogas é alvo de contenda entre andinos e ianques. Em 2009, a Bolívia foi incluída pelos americanos em lista negra dos países que não se esforçam para combater as drogas. Evo rebateu dizendo que os EUA ‘não tinham moral’ para falar de guerra às drogas. Não demorou para que o ex-líder cocaleiro tramasse a saída dos Estados Unidos das ações locais de combate ao narcotráfico. Há dez anos, Evo expulsou Administração para o Controle de Drogas dos Estados Unidos (DEA) do país.

Longe dos americanos, implantou uma política baseada no controle social e na regulação dos cultivos. Morales sustenta que, desde que assumiu o poder, o número de hectares onde se planta coca caiu de 50 mil para menos de 22 mil — cerca de 10% do território andino. Os Estados Unidos, porém, contestam esses dados.

Um outro ponto de tensão com os Estados Unidos é o forte apoio de Morales a Nicolás Maduro na Venezuela. Recentemente, a Câmara dos Deputados dos EUA aprovou uma resolução pedindo que o presidente respeite o resultado do referendo de 2016.

Entre os ideólogos da direita, há um temor declarado de que a decepção do povo com as políticas neoliberais  antecipem uma mudança de rumos no continente — o presidente Jair Bolsonaro, por exemplo, não esconde a preocupação com as eleições na Argentina e volta e meia fala em ‘retorno’ do PT.

Não cairia mal a uma oposição historicamente bem relacionada com os Estados Unidos aplicar as mesmas táticas que levaram o militar ao poder no Brasil.  

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