Eleição no Equador pode fortalecer retomada à esquerda na América do Sul

Especialistas analisam o cenário da corrida presidencial no país, que pode optar pelo resgate das políticas de Rafael Correa

Eleição no Equador pode marcar volta do correísmo à presidência. Foto: Rodrigo Buendia/AFP

Eleição no Equador pode marcar volta do correísmo à presidência. Foto: Rodrigo Buendia/AFP

Mundo

Neste domingo 7, o Equador pode marcar mais um capítulo da onda de esquerda que reconquista o poder em países da América do Sul. Enquanto os brasileiros se mantêm ilhados sob a presidência de Jair Bolsonaro, a região viu a vitória de Alberto Fernández na Argentina, que substituiu o direitista Maurício Macri; a reversão do golpe na Bolívia com o triunfo de Luis Arce, aliado de Evo Morales; e ao sucesso dos chavistas nas eleições parlamentares da Venezuela, que representou o fracasso de Juan Guaidó e dos Estados Unidos nas ofensivas a Nicolás Maduro.

 

 

 

Dezesseis candidatos concorrem à presidência do país, um recorde. Embora nenhum deles tenha ocupado antes o cargo, o favorito promete reeditar o passado: o economista Andres Arauz, de 35 anos, ministro do ex-presidente Rafael Correa (2007 e 2017). As pesquisas lhe dão uma média de 35% dos votos. Para vencer em primeiro turno, Arauz deverá superar 40% dos votos, com mais de 10% de vantagem sobre o segundo colocado. Seus principais adversários são o ex-banqueiro Guillermo Lasso e o líder indígena Yaku Pérez.

Há ainda um enorme contingente de indecisos. O segundo turno, caso haja, está previsto para abril.

Entre as marcas positivas da era Correa, especialistas destacam medidas de distribuição de renda, fortalecimento do papel do Estado em setores como o petróleo e a energia, expansão histórica de gastos na saúde e na educação e reformas trabalhistas que restringiram a terceirização. Outro momento chave foi a fundação, por referendo de 2008, de uma nova constituição, celebrada pelo vanguardismo ambiental.

Sua gestão não conseguiu, entretanto, romper com problemas estruturais do Equador, como a segmentação do mercado de trabalho e o subemprego, além de não ter “desdolarizado” o país – que não tem uma moeda própria desde 2000.

No fim do último mandato, Correa enfrentava uma conjuntura crítica de valorização do dólar, queda nos rendimentos do petróleo e aumento no desemprego e na informalidade. Como não poderia se reeleger, levou ao cargo Lenín Moreno, seu vice. Eleito pela esquerda, Moreno se voltou contra Correa e hoje é chamado de “traidor”.

Nos primeiros anos de mandato de Moreno, o Equador viveu um quadro de convulsão social após a implementação de políticas econômicas de austeridade receitadas pelo FMI. Durante a pandemia, a situação piorou ainda mais. O país protagonizou as primeiras cenas de colapso na saúde pública em 2020, e chocaram o mundo imagens do caos pela dificuldade em recolher corpos de vítimas da Covid-19.

Moreno deixa o poder com apenas 7% de popularidade, com a terceira maior queda na economia na América do Sul durante a crise e aumento de 10% nos índices de pobreza. O desemprego está em 6,6%, segundo registro de outubro, com perda de 1,8 milhões de empregos “adequados” entre junho de 2019 e junho de 2020, num país com 17 milhões de habitantes.

Condenado e sem direitos políticos, Rafael Correa não pode disputar esta eleição. A Justiça o condenou a oito anos de prisão em 2020 por corrupção, pelo crime de suborno, junto a 17 pessoas. O caso começou quando uma investigação jornalística local apontou seu envolvimento com a Odebrecht e outras empresas multinacionais. Radicado na Bélgica, Correa nega as acusações, diz sofrer perseguição judicial e compara seu caso ao do ex-presidente Lula.

Para o sociólogo e professor David Chávez, da Universidade Central do Equador, a gestão Correa foi a primeira a afastar a influência das elites sobre o Estado e reduzir desigualdades, mas foi prejudicada pela crise das commodities em 2015, o giro à direita nos países vizinhos e um terremoto, em 2016, que afetou províncias equatorianas importantes.

Apesar dos reveses, o correísmo, avalia ele, ainda é o movimento político hegemônimo no País — Moreno, apesar da guinada neoliberal, foi eleito por essa corrente, e Arauz aparece na liderança em 2021.

Mas existe uma dificuldade da militância correísta em se organizar politicamente. Embora se mobilizem como uma “máquina” durante as campanhas eleitorais, os correístas estão pulverizados em partidos diferentes, sem articulações em bases populares firmes. Não foram capazes de reagir, por exemplo, às políticas neoliberais de Moreno.

“O correísmo tem sérias dificuldades em mobilizar a sua militância. É uma militância muito grande, mas desorganizada, e acostumada, sobretudo, à ação eleitoral”, analisa o professor, em entrevista a CartaCapital. “Falta uma estrutura orgânica, que lhe permita controlar melhor o processo de transição. Ao final, o correísmo era tão frágil organizativamente que eles inclusive perderam o próprio partido, que os sustentou pelos dez anos de governo Correa e está desmantelado com Moreno. O partido pelo qual concorrem nessas eleições é emprestado [Union por la Esperanza], e não próprio.”

 

O candidato de Rafael Correa, Andres Arauz. Foto: Rodrigo Buendia/AFP

 

 

O que prometem os candidatos

O programa de governo de Andres Arauz, de 53 páginas, contém um extenso plano em relação aos impactos da pandemia. Na economia, propõe oferecer mil dólares a um milhão de famílias, a partir de reservas monetárias que o Equador tem na Europa, e quer estabelecer um sistema massivo de créditos com taxas baixas para diminuir o endividamento, além de incorporar critérios de progressividade e igualdade na cobrança de impostos.

Seu principal oponente, Guilherme Lasso, de 65 anos, também prega em seu programa, de 87 páginas, um sistema de saúde público e gratuito. Na economia, fala em elevar a produtividade do setor privado, especialmente do capital estrangeiro, por meio de uma reforma tributária que elimine impostos. Nos direitos humanos, é conhecido por ser conservador em temas como o aborto e o matrimônio igualitário.

Para Fernando Casado, professor de Ciências Jurídicas na Universidade Técnica de Manabí, um governo de Arauz seria mais homogêneo no que diz respeito às nomeações à esquerda, em vez de repetir certo caráter “eclético” de Correa, que incorporou liberais em sua gestão. Por outro lado, segundo ele, Arauz não se inspiraria no processo venezuelano, onde o chavismo, visto como a esquerda mais radical na América do Sul, fez uso de nacionalização de indústrias e maior controle de preços.

“São postulados muito parecidos com a social-democracia europeia pós Segunda Guerra Mundial”, observa o espanhol, que leciona na cidade de Portoviejo, a cerca de 380 quilômetros de Quito. “Um controle das indústrias estratégicas do Estado, ou o investimento estrangeiro muito controlado pelo Estado, no setor petroleiro, nas telecomunicações. Provavelmente, Arauz intervirá mais no setor bancário do que na época de Correa.”

Lasso, em sua visão, seria o representante clássico da direita neoliberal do fim do século XX na América Latina. Depois de tantas vezes candidato, e com a mesma agenda, o ex-banqueiro tem mais dificuldades em obter êxito, diz o professor.

Já Yaku Pérez, terceiro candidato nas pesquisas, é uma figura “híbrida”. Líder indígena de 51 anos, prioriza uma agenda ambiental, voltada para a limitação do extrativismo mineral e da expansão da exploração na selva amazônica. No entanto, diz Casado, Pérez expressa orientação neoliberal em seu plano econômico. Suas propostas mais progressistas, como o salário mínimo universal e a descriminalização do aborto, têm sido minimizadas ou mesmo eliminadas de seu programa eleitoral, observa o pesquisador.

“São dezesseis candidatos, mas todos têm duas características em comum: a agenda neoliberal e a agenda de aniquilação política do correísmo”, examina.

 

O principal adversário de Andres Arauz, o ex-banqueiro Guillermo Lasso. Foto: Jose Sanchez Lindao/AFP

 

Segundo Casado, a derrota de Arauz não representaria somente um avanço para as forças neoliberais no Equador, mas seria também um fato interessante para os Estados Unidos. O ápice da aproximação entre Estados Unidos e Equador, na gestão Moreno, favoreceu a prisão de Julian Assange, fundador do WikiLeaks. Procurado pelos americanos, Assange passou sete anos em asilo na embaixada equatoriana em Londres. Foi removido por Moreno em 2019, por alegações de violações a termos do asilo. Atualmente, Assange se encontra detido pela Justiça britânica.

Hoje, sob a gestão de Joe Biden, os Estados Unidos veem no Equador uma possibilidade de avançar na desarticulação dos países da União de Nações Sul-Americanas, a Unasul. Um presidente equatoriano alinhado a Washington, portanto, poderia ampliar a influência americana na região.

 

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Repórter do site de CartaCapital

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