Equador vive convulsão social e sua antirrevolução de Lenín

As políticas de austeridade de um governo eleito pela esquerda provocam caos no país

Os equatorianos não obedecem ao estado de exceção. Foto: Martin Bernetti/AFP

Os equatorianos não obedecem ao estado de exceção. Foto: Martin Bernetti/AFP

Mundo

Eleger sucessores competentes, confiáveis e alinhados a um projeto de longo prazo tornou-se uma tarefa quase impossível para as lideranças progressistas da América do Sul. O golpe contra Dilma Rousseff atenua, mas não justifica a guinada econômica do início do segundo mandato que pavimentou a estrada do impeachment. No Uruguai, Tabaré Vázquez retrocedeu nos avanços sociais de Pepe Mujica, embora o eleitorado, principalmente os mais jovens, pedisse mais e não menos. O flerte com o conservadorismo pode custar a vitória da Frente Ampla nas eleições presidenciais deste mês após 15 anos ininterruptos no poder. Nicolás Maduro é um caso extremo: sua teimosia e incapacidade foram tão responsáveis quanto o embargo internacional para empurrar a Venezuela ao abismo. Na Bolívia, Evo Morales, à falta de um substituto, cedeu à tentação caudilhesca e atropelou as leis para disputar um quarto mandato. Nenhum exemplo é, porém, mais representativo do que a relação entre Rafael Correa e Lenín Moreno (não se engane pelo nome) no Equador.

Desde a sexta-feira 4, o país está mergulhado em uma convulsão social de consequências imprevisíveis. Moreno decretou estado de exceção – queria 60 dias, mas o Congresso só lhe deu 30 –, convocou os militares e mudou a sede do governo de Quito para Guayaquil. Tudo para tentar preservar sua autoridade e reprimir as manifestações que tomaram as ruas da capital e de diversas cidades do país. De pouco adiantou. O clima ficou mais tenso na terça-feira 8, quando 20 mil índios se juntaram aos manifestantes em Quito em desafio às ordens restritivas. “Não há mais diálogo com o governo”, afirmou Jaime Vargas, presidente da Confederação de Nacionalidades Indígenas. Em uma semana, os enfrentamentos entre a população e forças de segurança resultaram em uma morte, 73 feridos e 477 prisões.

 

A gota d’água da insatisfação popular foi a disparada dos preços dos combustíveis, alta de até 123% em alguns postos, depois de o governo cancelar os subsídios, exigência do Fundo Monetário Internacional como contrapartida a um empréstimo emergencial de 4,2 bilhões de dólares. Sob a administração Moreno, a dívida externa do Equador cresceu 47%, enquanto o déficit fiscal atingiu 36% do Produto Interno Bruto. Sem reservas cambiais e com problemas de liquidez, restou ao país recorrer ao socorro internacional. O governo projeta economizar 1,3 bilhão de dólares com o fim dos incentivos ao diesel e à gasolina.

O FMI aplaude, a população vocifera. Além dos embates em Quito, os manifestantes bloquearam estradas em 16 das 24 províncias e ocuparam o Congresso por algumas horas. As aulas estão suspensas nas redes pública e privada e há relatos de saques em fábricas, supermercados e fazendas. Três campos de petróleo que produzem mais de 60 mil barris por dia foram ocupados e tiveram as atividades paralisadas. Ao anunciar a mudança da sede do governo em pronunciamento no rádio e na tevê, ao lado de Oswaldo Jarrín, ministro da Defesa, Moreno descartou a suspensão do ajuste econômico, conclamou a sociedade ao diálogo, chamou os adversários de corruptos e culpou Correa, que atualmente vive na Bélgica, e Maduro de pretender derrubá-lo. “O sátrapa do Maduro ativou com Correa seu plano de desestabilização”, declarou.

Moreno, a criatura, morde Correa, o criador. Foto: Mariana Bazo/Reuters

Moreno chegou ao poder pelas mãos de Correa, de quem foi vice-presidente nos mandatos entre 2007 e 2017. Bastaram, no entanto, cem dias de governo para a criatura voltar-se contra o criador. O rompimento é um subproduto da Lava Jato, que também alcançou o Equador. As desavenças entre Moreno e Correa começaram quando o sucessor retirou as funções de seu vice, Jorge Glas, mais tarde condenado por receber propina da Odebrecht. A investigação de corrupção e a posterior punição de Glas, conduzidas nos moldes da Vara de Curitiba, serviram de pretexto para o aggiornamento de Moreno. Livre da influência do grupo de Correa, o presidente adotou uma política econômica liberal, demonizou o legado da “revolução cidadã” da qual foi um dos artífices e beneficiários e fez acenos aos Estados Unidos, que culminaram, entre outras medidas, na expulsão do ativista Julian Assange, fundador do WikiLeaks, da embaixada em Londres.

O apoio popular inicial ao presidente – mais de 70% dos equatorianos ficaram a seu lado na queda de braço com o vice Glas e os aliados de Correa – esvaiu-se à medida que o programa de ajuste fiscal e de privatizações não produziu resultados satisfatórios. Atualmente, apenas 20% dos equatorianos consideram seu mandato ótimo ou bom. No ano passado, a economia cresceu 1,4% e as projeções para 2019 indicam um desempenho ainda mais modesto do PIB. A liberação do preço dos combustíveis piora a perspectiva, dado o efeito negativo em cascata sobre alimentos, bens de consumo básicos e a renda dos trabalhadores.

Acuado pelas ruas, Moreno transferiu a sede do governo de Quito para Guayaquil

Correa enxerga na convulsão social uma oportunidade para se vingar do antigo aliado. O ex-presidente de fato estimula um movimento em favor do impeachment de Moreno e de antecipação das eleições gerais, inicialmente previstas para 2021. O pedido formal de afastamento do presidente foi protocolado na segunda-feira 7 pela deputada Gabriela Rivadeneira, da bancada “Revolução Cidadã” e partidária de Correa. “Devemos avançar para o impeachment de Moreno”, discursou a parlamentar. “Exigimos fazer neste espaço eco do desejo dos cidadãos. Se o Congresso e o governo não estão à altura, vamos propor a renúncia e a antecipação das eleições.”

Da Bélgica, o ex-presidente, para quem Moreno é “o maior traidor da história da América Latina”, pediu aos manifestantes que evitem a violência. “Vamos resistir com firmeza, mas em paz. Quanto a Moreno, ainda mais por sua traição, o terno de presidente ficou muito grande.” O presidente, por sua vez, disse aceitar uma mediação da ONU ou da Igreja Católica. Os manifestantes não foram consultados a respeito.

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É diretor-executivo de CartaCapital.

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