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Ataques mortais em Kiev antes de novas negociações entre Ucrânia e Rússia

Os aliados ocidentais da Ucrânia adotaram novas e duras sanções contra a Rússia após o pouco avanço das negociações e a escalada nos ataques a Kiev

Foto: Sergei SUPINSKY / AFP
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Ao menos duas pessoas morreram na manhã desta terça-feira (15) em ataques contra zonas residenciais de Kiev, antes da aguardada retomada das negociações iniciadas na véspera entre Rússia e Ucrânia para tentar encerrar o conflito.

Parcialmente cercadas pelas tropas russas, a capital da Ucrânia acordou com três grandes explosões. Os serviços de emergência afirmaram que zonas residenciais em vários distritos foram atacadas.

Em Sviatoshyn, zona oeste de Kiev, um bombardeio atingiu um edifício de 16 andares, “onde os corpos de duas pessoas foram recuperados e 27 pessoas foram resgatadas”, informaram as autoridades locais em um comunicado.

Um ataque, que não deixou vítimas, atingiu uma casa em Osokorky (sudeste) e disparos de artilharia provocaram um incêndio rapidamente controlado em um prédio residencial de Podilsk (noroeste), onde uma pessoa foi hospitalizada.

No mesmo local, repleto de vidros e escombros, uma coluna de fumaça saía do enorme buraco provocado pelo impacto enquanto os moradores jogavam os objetos destruídos de suas casas pelas janelas quebradas.

Os ataques aconteceram antes da retomada das negociações por videoconferência entre os dois lados. Na segunda-feira, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky afirmou que o primeiro dia de conversas foi “bom”.

“Mas veremos, continuarão amanhã (terça-feira)”, disse.

No papel, as posições estão muito distantes. Moscou exige que a Ucrânia se afaste da Otan e reconheça a soberania das regiões separatistas pró-Rússia do leste do país, que tiveram a independência reconhecida pelo presidente russo Vladimir Putin poucos dias antes da invasão iniciada em 24 de fevereiro.

Kiev exige um cessar-fogo imediato e a retirada das tropas russas de seu território.

Antes, os dois lados participaram em três encontros presenciais em Belarus, além de uma reunião dos ministros das Relações Exteriores na Turquia.

Os primeiros-ministros da Polônia, República Tcheca e Eslovênia viajarão nesta terça-feira a Kiev como representantes do Conselho Europeu.

Mateusz Morawiecki, Petr Fiala e Janez Jansa “viajam hoje (terça-feira) a Kiev na qualidade de representantes do Conselho Europeu para um encontro com o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky e o primeiro-ministro Denis Shmyhal”, afirma um comunicado divulgado pelo governo polonês.

O objetivo da visita é “reafirmar o apoio inequívoco do conjunto da União Europeia (UE) à soberania e independência da Ucrânia e apresentar um conjunto de medidas de apoio ao Estado e sociedade ucranianos”, acrescenta a nota.

Quase três semanas depois de Putin determinar a invasão em larga escala da ex-república soviética, as forças russas bombardeiam e cercam várias cidades ucranianas.

A capital registrou a fuga de metade de seus três milhões de habitantes e está cercada pelas entradas norte e leste. Apenas as rodovias para o sul permanecem abertas, onde as autoridades municipais instalaram pontos de controle e os moradores recebem alimentos e remédios.

Kiev é “uma cidade em estado de sítio”, disse um conselheiro de Zelensky.

A ONU afirma que 2,8 milhões de pessoas fugiram do país e 636 civis morreram no conflito, mas suspeita que o balanço real de vítimas é muito superior.

Mais lento que o esperado

O avanço das forças russas, no entanto, é mais lento e problemático que o esperado.

O comandante da Guarda Nacional da Rússia, Viktor Zolotov, admitiu que a operação “não está seguindo tão rápido como gostaríamos”, mas insistiu que vitória chegará passo a passo.

Vladimir Putin havia ordenado até o momento a suas forças para “conter qualquer ataque imediato às grandes cidades”, disse o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, embora não tenha descartado a possibilidade de ações contra as grandes cidades “que já estão quase cercadas  sob controle total”.

Uma das cidades cercaras é Mariupol, na costa do Mar de Azov (sudeste), onde as autoridades afirmam que quase 2.200 pessoas morreram desde 24 de fevereiro.

Na segunda-feira, 210 veículos conseguiram sair pela primeira vez em vários dias por um corredor humanitário desta cidade, onde os moradores se escondem em porões sem água, energia elétrica, calefação ou alimentos.

O Estado-Maior da Ucrânia afirmou durante a noite que as tropas do país impediram um ataque de 150 soldados russos contra Mariupol e destacaram que as forças de Moscou pretendem “reforçar o reagrupamento de tropas em direção a Kharkiv”, a segunda maior cidade  do país.

Os aliados ocidentais da Ucrânia adotaram duras sanções contra a Rússia, onde começam a surgir vozes discordantes do Kremlin, apesar da repressão e censura imposta.

Durante a exibição do telejornal mais assistido do país, uma funcionária entrou no estúdio com um cartaz que afirmava “Não à guerra. Não acreditem na propaganda”. Ela foi detida, segundo a ONG OVD-Info.

Possível conflito nuclear

Os efeitos da invasão atingem cada vez mais áreas da Ucrânia, incluindo regiões que eram consideradas seguras como a cidade de Dnipro, centro do país, ou a faixa leste próxima da fronteira com a Polônia, que foram alvos de bombardeios.

Em uma localidade próxima a Rivne (noroeste), as autoridades locais informaram que nove pessoas morreram em um ataque contra uma torre de televisão.

Separatistas pró-Rússia denunciaram um bombardeio ucraniano no centro da cidade de Donetsk que matou 23 pessoas. Os rebeldes divulgaram imagens de corpos ensanguentados nas ruas, mas o exército ucraniano negou qualquer responsabilidade.

Após um bombardeio que deixou 35 mortos a poucos quilômetros da fronteira da Polônia, país membro da Otan, Zelensky renovou seu apelo à aliança transatlântica para que determine uma zona de exclusão aérea sobre seu país.

Mas até o momento, Estados Unidos e seus aliados europeus descartaram a opção para evitar um confronto direto com a Rússia, uma potência nuclear, e se limitaram a fornecer material militar à Ucrânia.

A Otan em luta contra a Rússia “é a Terceira Guerra Mundial”, disse o presidente americano Joe Biden.

O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, alertou sobre os riscos de um conflito entre potências atômicas, uma perspectiva “antes impensável, mas agora de volta ao reino da possibilidade”.

 

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