Justiça
O que afirma a PF sobre o homicídio que expôs uma rede criminosa no Maranhão
A investigação descreve para uma sequência que envolve, além do assassinato, uma sucessão de iniciativas destinadas a acobertar o crime
A Polícia Federal investiga se o homicídio do servidor público João Bosco Sobrinho Pereira de Oliveira, em 2022, expôs uma rede criminosa que envolveria corrupção, blindagem de autoridades e sucessivas tentativas de obstruir a Justiça no Maranhão.
O principal fio da investigação é o de que a morte de Bosco não decorreu de uma simples desavença privada, mas de uma disputa em um esquema de desvio de recursos públicos federais e estaduais.
As apurações tramitam no Supremo Tribunal Federal sob a relatoria do ministro Flávio Dino, que retirou o sigilo de decisões relacionadas ao caso nesta sexta-feira 14. CartaCapital teve acesso aos documentos e reconta a cronologia do caso.
O homicídio
Bosco foi assassinado em 19 de agosto de 2022, em São Luís, por Gilbson César Soares Cutrim Júnior, posteriormente condenado pelo crime. Segundo a PF, Gilbson exerceria uma função operacional no esquema, atuando na circulação de expedientes e valores em espécie entre integrantes do núcleo investigado.
A organização criminosa teria como provável líder, segundo a Polícia Federal, o governador Carlos Brandão (MDB). O grupo atuaria para direcionar pagamentos de contratos públicos de alto valor a determinadas empresas — incluindo débitos estaduais já prescritos superiores a 5 milhões de reais — em troca de vantagens indevidas.
Foi justamente a escolha das empresas beneficiadas e a divisão da propina, de acordo com a investigação, que começaram a provocar fissuras no grupo. Integrantes do esquema teriam passado a desconfiar de que Gilbson retinha parte dos valores recebidos das empresas que intermediava, sem repassar o montante combinado aos demais.
Nesse ambiente de desconfiança, Daniel Itapary Brandão, sobrinho do governador Brandão e atual presidente do Tribunal de Contas do Maranhão, telefonou para Gilbson e o convocou para uma reunião em 19 de agosto de 2022.
Ao chegar ao encontro, Gilbson teria encontrado Daniel Brandão, João Bosco e Werberth Macedo Castro, conhecido como Beto Castro, reunidos à mesa. Segundo a investigação, houve cobranças e ameaças contra Gilbson. Daniel participou inicialmente da discussão, mas deixou o ambiente pouco antes de Gilbson sacar uma arma e efetuar os disparos que mataram Bosco.
A tentativa de acobertar o crime
É a partir do homicídio que a investigação federal passa a enxergar uma segunda engrenagem do esquema: a tentativa de impedir que a morte revelasse os negócios que estariam por trás da reunião.
Segundo a PF, integrantes da estrutura da Polícia Civil do Maranhão teriam atuado para tratar o caso como uma desavença privada e afastar da investigação sua possível relação com desvios na administração pública. Daniel Brandão não foi incluído inicialmente no contexto da reunião nem ouvido durante a apuração, apesar de indícios apontados pela filha da vítima.
Meses depois do crime, em fevereiro de 2023, Brandão foi nomeado conselheiro do Tribunal de Contas do Estado. Em janeiro de 2025, assumiu a presidência da Corte.
Outro ponto considerado relevante pelos investigadores envolve as imagens das câmeras de segurança do Empório Fribal Ponta d’Areia, no local do crime. Requisitadas pela Justiça, as gravações teriam desaparecido em um jogo de empurra entre a Delegacia de Homicídios e o Instituto de Criminalística e nunca foram anexadas ao processo.
A investigação aponta ainda que, já sob custódia, Gilbson e seus familiares teriam sido alvo de ofertas financeiras e coação para impedir que autoridades estaduais fossem mencionadas no caso. Gilbson relatou ter sido retirado irregularmente do presídio pela delegada Caroliny Fernanda dos Santos Santana, que o teria orientado a omitir qualquer referência ao governador Carlos Brandão e a integrantes da família.
Em troca do chamado “silêncio absoluto” sobre a presença de agentes públicos no episódio, Daniel Brandão teria se comprometido, segundo a investigação, a viabilizar cargos de assessoria na Assembleia Legislativa do Maranhão. Marcus Brandão, irmão do governador, teria oferecido um imóvel em condomínio e suporte financeiro contínuo à família de Gilbson.
A rede de pagamentos
Os pagamentos destinados a assegurar esse silêncio após a prisão, de acordo com a PF, eram operacionalizados por Raimundo Soares Cutrim, ex-secretário de Segurança Pública e então secretário estadual de Assuntos Legislativos, sob orientação atribuída a Daniel Brandão.
O pai de Gilbson declarou à Polícia Federal ter recebido 160 mil reais em dinheiro vivo das mãos de Raimundo Cutrim, em sua residência no bairro do Vinhais. Segundo seu relato, a origem dos recursos seria Marcus Brandão.
A família teria continuado a receber pagamentos mensais em espécie, de 10 mil e 12 mil reais, além de 4 mil reais para custear passagens de Brasília a São Luís.
Em junho de 2026, porém, a possibilidade de Gilbson firmar um acordo de colaboração premiada no STF teria colocado esse arranjo sob risco. É nesse momento, segundo a PF, que a tentativa de manter o caso sob controle ganha novos contornos.
Em 14 de junho de 2026, Raimundo Cutrim convocou o pai de Gilbson à sua residência e passou a orientá-lo sobre como o filho e a nora, Lorena Santos, deveriam modificar os depoimentos prestados à Polícia Federal.
A versão proposta por Cutrim, segundo os investigadores, consistia em atribuir as declarações anteriores da família a dificuldades financeiras. Lorena deveria dizer que estava passando fome e sustentar que havia recebido entre 300 mil e 500 mil reais de integrantes da oposição para incriminar a família Brandão.
A conversa, porém, foi gravada secretamente pelo próprio pai de Gilbson e entregue à defesa. O áudio tornou-se uma das principais provas da suspeita de coação processual e obstrução da Justiça e embasou a decisão de Flávio Dino que determinou a prisão de Raimundo Cutrim.
Em outra frente, a PF também aponta Raimundo Cutrim como responsável por repassar informações sobre Dino e seus familiares ao blogueiro Luis Pablo Conceição Almeida, também alvo de buscas e apreensões. O episódio abriu uma investigação paralela e provocou debate sobre os limites entre a apuração criminal e a garantia constitucional ao sigilo da fonte jornalística.
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