O que a morte de George Floyd e o racismo brasileiro têm a ver com a Olimpíada de Tóquio

Em ação pioneira, atletas brasileiros que irão ao Jogos passam por um curso antirracismo. E o COI autoriza protestos contra a discriminação

Diogo Silva, atleta do taekwondo, representou o Brasil na modalidade em três olimpíadas. Foto: Valterci Santos/AGIF/COB

Diogo Silva, atleta do taekwondo, representou o Brasil na modalidade em três olimpíadas. Foto: Valterci Santos/AGIF/COB

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Antes de estrearem na Olimpíada de Tóquio, atletas da delegação brasileira terão a oportunidade de fazer um curso sobre o racismo no esporte. Iniciativa inédita do Comitê Olímpico do Brasil, o curso ‘Esporte Antirracista: Todo Mundo Sai Ganhando’ trabalha conceitos como ‘racismo estrutural’, ‘lugar de fala’ e ‘racismo institucional’.

O material — elaborado pela filósofa Djamila Ribeiro e pelo professor de direito da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul Tiago Vinícius André dos Santos — desconstrói de forma didática alguns lugares-comuns, como a ideia de que não existe racismo no Brasil.

“Existe uma contradição constante quando se fala de racismo e Olimpíadas”, diz Tiago a CartaCapital. “De um lado, os cinco aros da bandeira olímpica representam a igualdade, mas de outro, as instituições continuam a operar a ‘máquina de produzir racismo’”.

Tiago Vinicius acredita que o curso ganha em importância por atuar de dentro de uma estrutura historicamente racista, “com potencial para alterar as estruturas”, e destaca positivamente o fato de Comitê Olímpico do Brasil (COB) ter abraçado a ideia. “A educação que altera comportamentos, que altera mentalidades, para que essas mentalidades, que atuam nas instituições e estruturas de poder, possam alterar o status quo racial dominante. É essa a nossa busca”.

Confira, a seguir, os destaques da entrevista.

CartaCapital: Como foi o processo de elaboração do curso?

Tiago Vinicius: Acho que preciso falar, primeiramente, que tenho uma relação muito forte com o esporte. Foi porque eu praticava vôlei que consegui bolsa de estudos, no colégio e na universidade, para poder me tornar um bacharel em direito, um advogado. Então, essa relação com o esporte é muito forte na minha vida. E eu lembro que meu primeiro trabalho acadêmico, no primeiro ano de faculdade, foi justamente para falar sobre a Lei Pelé. Ou seja, uma lei que regulamentava, na época, as relações desportivas. E eu era federado, tinha 17 anos, jogava campeonatos da Federação Paulista de Vôlei.

Então, naquele momento, o esporte era muito presente na minha vida. Quando surge a oportunidade de estar junto à Djamila Ribeiro, colaborando para a realização desse curso sobre racismo, eu falei: “nossa, vou voltar aos 17 anos, mas agora pensando de uma outra perspectiva”.

Nas primeiras reuniões com a equipe do COB, por exemplo, eu percebi – como sempre acontece na sociedade brasileira – que as pessoas tinham uma ideia inicial de que o racismo decorre apenas das relações entre as pessoas. Por exemplo: fulano xingou o outro fulano de macaco. E somente isso seria racismo para eles. Com as reuniões e a apresentação do material que fomos elaborando, isso foi mudando. Começamos a trabalhar o conceito de racismo estrutural, de lugar de fala, de apropriação cultural e, inclusive, o conceito de racismo reverso.

Ou seja, o processo de elaboração desse curso começa com a desmistificação de que não existe racismo no Brasil; depois, são apresentadas outras perspectivas, além da perspectiva interpessoal, para mostrar como funciona o racismo na sociedade brasileira; e, por último, o curso explica que o racismo reverso não existe, e que isso não é ‘mimimi’. Então, foi muito interessante ver a evolução do processo. Deu para perceber que o COB abraçou o projeto. Dá orgulho de ter feito parte disso.

Em 2021, se tivermos manifestação contra o racismo, o atleta não será punido.

CC: Como foi trazer para o contexto esportivo a questão do racismo?

TV: O desafio era falar sobre racismo e esporte numa linguagem acessível; abordar, sob a perspectiva do esporte, a questão do racismo estrutural, o conceito de lugar de fala, e como isso poderia fazer sentido na vida dos atletas. Porque a gente precisa entender, por exemplo, que se, por um lado, de fato, alguns atletas são venerados na sociedade brasileira, como o Pelé; por outro lado, a gente não consegue ver muitas pessoas negras em cargos de gerência.

Ou seja, temos atletas negros, e esses atletas são vistos como heróis da nação, mas os negros e negras não representam a cultura organizacional dos clubes, das federações, das confederações. Não estão em locais de poder de decisão. E isto revela o racismo estrutural na sociedade brasileira.

É importante também falar sobre racismo estrutural porque, a depender da modalidade esportiva, pessoas negras não terão oportunidade de demonstrar seu talento. Se a gente pensar na esgrima, na natação, se pensarmos em determinados esportes, a participação da população negra será muito baixa.

Tiago Vinicius, professor da Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul, foi um dos realizadores do curso de antirracismo do COB para a delegação olímpica brasileira. Foto: Milena Áurea.

CC: Em que outros tipos de racismo o esporte toca?

Voltando ao caso desses atletas que são venerados, a veneração é tão grande que colabora, inclusive, para que possamos acreditar no mito da democracia racial. Mas ao mesmo tempo que temos esses atletas, vistos como heróis da nação, como exemplos de superação, temos atletas que, por não conseguirem bom desempenho olímpico, são vítimas de ofensas.

Basta lembrarmos o caso da judoca Rafaela Silva, que em 2016 ganhou o ouro para o Brasil, mas que em 2012, depois de ter sido eliminada, foi alvo de ataques racistas nas redes sociais, sendo chamada de macaca. É o racismo recreativo

Ainda sobre o mito da democracia racial, é preciso se perguntar: Por que não ter outra explicação para o que a gente vive? Por que só a explicação de democracia racial, de Gilberto Freyre, importa? Por que só esse conceito? Uma vez que ciência e debate pressupõem a coexistência de diversas perspectivas, por que a perspectiva de Lélia Gonzalez, de Abdias do Nascimento e de Luís Gama não fazem parte desse debate? Por que não existe essa coexistência? É inaceitável não coexistir.

Em 2020, sobretudo em razão dos protestos contra o assassinato de George Floyd, o COI passou a autorizar manifestações antiracistas nas Olimpíadas. É muita diferença.

CC – Como foi o diálogo com o COB?

TV: Para o curso dar certo, todo o Comitê precisaria estar conosco, especialmente o presidente do Comitê, Paulo Wanderley. Seria importante que o COB reconhecesse o racismo na sociedade brasileira, e reconhecesse que esse curso poderia ter sido realizado antes, mas também que nós estamos aqui, agora, com muita vontade de mudar o contexto de racismo no esporte. E foi isso que aconteceu. Na primeira página do curso, que tem a ‘palavra do presidente’, temos uma apresentação mais ou menos nesse tom, de reconhecimento e de que é necessária uma mudança. Então, temos esse primeiro feedback de acolhimento do Comitê Olímpico Brasileiro.

E teve uma questão muito interessante, pontuada de forma muito séria, que foi: “no Brasil, só existe racismo contra negros? E os asiáticos?”. A partir disso, houve a oportunidade de elaborarmos um trabalho mostrando que o racismo atinge várias minorias, mas que, no caso do Brasil, ele é mais cruel com relação à população negra, que corresponde a mais de 50% da população. Explicamos isso de várias formas, trazendo dados, conceitos etc. Tivemos muito cuidado também com relação à linguagem do material, para que pudesse ser acessível a atletas de todos os níveis de escolaridade.

CC: Quais atletas vão participar do curso?

TV – De acordo com o COB, todos os atletas que irão às Olimpíadas farão o curso. E esse curso, que é uma ação pioneira, também será traduzido para outras línguas. Existe uma parceria com o Unicef. Então, vai ganhar o mundo.

Damiris Dantas é uma das destaques da seleção brasileira de basquete classificada para as Olimpíadas de Tóquio. A ala/pivô costuma se posicionar junto à luta antirracista. Foto: Divulgação.

CC: De que forma a sua experiência no direito antidiscriminatório contribuiu para a realização do curso?

TV: O direito antidiscriminatório desvela a dinâmica social das instituições que colaboram para a manutenção do racismo, do machismo e da homofobia. Então, quando a gente utiliza esses conceitos, acaba observando: “tudo bem. Temos atletas negros. Mas a Diretoria do clube que ele pertence também é composta por pessoas negras?”. É isso que a gente tentou, a todo momento, desvelar: situações que, a princípio, passam a ideia de que, ali, o racismo não existe, mas que, na realidade, apenas encobrem a questão de forma dissimulada. E a gente, ao tratar disso, abre a ‘caixa’. A gente fala: isso é racismo. E isso a equipe do Comitê Olímpico do Brasil percebeu. Por isso que deu certo.

 

CC: Como as reprimendas a atletas que se posicionam politicamente se relacionam com o racismo?

TV: É uma regra supostamente neutra, válida para todos os atletas? Sim. Mas com relação aos atletas negros, isso tem um impacto muito mais complicado, porque o racismo nega a própria existência. Então, quando um atleta se rebela contra o racismo é para afirmar a própria existência que está sendo negada naquele momento. Não é mais uma questão de ato político. É uma questão de resistência.

E isso o Comitê Olímpico Internacional veio admitir em 2020. Nesse sentido, há uma evolução. O COI, no ano passado, emitiu um comunicado dizendo que as manifestações contra o racismo devem ser apoiadas. Acredito que o que aconteceu com George Floyd – e que acontece com a população negra no Brasil, sistematicamente, desde a abolição – alterou significativamente o entendimento da instituição. Então, temos, em 1968, um Comitê Olímpico que não aceita esse tipo de manifestação; e em 2020, sobretudo em razão dos protestos contra o assassinato de George Floyd, um COI que autoriza manifestações antiracistas nas Olimpíadas. Então, é muita diferença. Mas demorou mais de 50 anos.

Protesto em Minneapolis repudia brutalidade policial. Foto: Kerem Yucel/AFP

CC: Como o racismo se relaciona com a história dos Jogos Olímpicos?

TV: No início do século XX, o racismo científico era muito forte. E o Comitê Olímpico fez, em 1904, uma edição paralela das Olimpíadas. Eles queriam fazer uma experiência para saber como era a relação de afrodescendentes, indígenas e nativos norte-americanos com o esporte. Todos foram muito mal porque nunca haviam treinado aquelas modalidades. E o COI achou essa experiência importante porque demonstrava, segundo a visão deles à época, que indivíduos brancos eram mais civilizados e mais propícios à prática esportiva.

Somente nas Olimpíadas de 1920, em Antuérpia, na Bélgica, é que foi introduzida oficialmente a ideia do olimpismo, os cinco continentes representados nos aros da bandeira olímpica.

A essência das Olimpíadas, o olimpismo, é antirracista, só que a instituição, não. E nós colocamos esses exemplos no curso: a Alemanha de Adolf Hitler, os Estados Unidos do sistema Jim Crow. São questões políticas, e o COI, em vez de colidir, teve esses países como aliados na prática desportiva internacional, global. De um lado, somos todos iguais, de outro, as instituições operam essa máquina de produzir racismo.

Portanto, o olimpismo, por um lado, prega a ideia da igualdade. Ele é – em essência – antirracista. Só que a instituição não se comporta de forma antirracista, porque a instituição é composta por pessoas e as pessoas são racistas. É por isso que o curso é importante. Porque ele vai trabalhar as pessoas. E elas têm potencial para alterar as estruturas. Eu acredito nisso. Sou pessimista nas análises, mas otimista nas ações.

CC: Acredita que há uma espécie de captura do significado do olimpismo, dependendo da época?

TV – O olimpismo está dentro do contexto de disputa de narrativas. Então, vamos ter, durante a história, pessoas disputando o conceito de olimpismo. E, provavelmente, ele foi capturado de uma determinada maneira que permitiu ao COI se posicionar da seguinte forma: o olimpismo é uma coisa, mas o que os países decidem em seu âmbito interno é outra coisa. Isso imperou. Isso aconteceu. Mas quando o COI solta uma resolução afirmando que os atletas podem se manifestar contra o racismo, isso é uma outra narrativa, que, no meu modo de entender, está mais encaixada, se impõe. Em 2021, se tivermos manifestação contra o racismo, o atleta não será punido.

De forma inédita, a gente elaborou um texto contextualizando o olimpismo dentro da luta antirracista. E, como eu disse, o olimpismo é essencialmente antirracista. Então, é o momento de disputarmos essa narrativa. Eu, como um dos autores do material, preto, gay, ex-cotista, vou dizer: o olimpismo é essencialmente antirracista. E isso vai contemplar a população negra, o meu povo, a minha história. Esse debate precisa acontecer.

CC: E qual é o papel do branco na luta antirracista?

TV – O papel do branco na luta antirracista é nos ouvir e nos apoiar. A 3ª parte do curso se chama “Sejamos todos antirracistas”, e a gente elenca várias ações que devemos ter para superar o racismo no esporte. E é aí que a gente fala sobre a posição do branco. É ouvir, apoiar, porque estamos sozinhos. É denunciar os casos de racismo, porque muitas vezes o atleta negro é exceção; e não tratar como piada, como manifestação de afeto, situações de discriminação no cotidiano de treinamentos. É esse o lugar do branco na luta antirracista.

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Roberto de Martin é jornalista mineiro de Matias Barbosa radicado em Brasília

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