A Semana do Mercado #27: À espera do novo round entre Bolsonaro e STF

O editor de Finanças William Salasar apresenta as principais tendências da abertura dos mercados nesta segunda-feira 13

Jair e Flávio Bolsonaro. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Jair e Flávio Bolsonaro. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Economia

A 2ª Turma do Supremo Tribunal Federal inicia nesta terça-feira 14 o julgamento sobre o foro privilegiado do senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ), relativo às ações em tramitação no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro em que o parlamentar é investigado por suposto crime de peculato, envolvendo a prática de “rachadinhas”. Também deverá retomar, na sexta, o julgamento de ações que questionam a flexibilização da compra de armas de fogo, decretada por Bolsonaro em 2019.

 

 

Ou seja, a semana já começa com as atenções dos mercados voltadas para a reação do presidente Jair Bolsonaro à atuação do Supremo, para ver se ele mantém o tom apaziguador de sua “Declaração à Nação”, da quinta-feira passada, dia 8, quando tentou desdizer as agressões ao STF, em particular ao ministro Alexandre Moraes, feitas nas manifestações golpistas do 7 de Setembro. A turbulência política fez o Ibovespa encerrar a semana passada em 114,2 mil pontos – uma queda de 12,6 % em relação ao pico de 130,8 mil pontos, no início de junho. De segunda-feira, véspera do 7 de Setembro, até sexta, o Ibovespa, principal índice do mercado de ações brasileiro, viveu uma montanha russa: dos 117.853 pontos na segunda, desabou para 112.473 na quarta, uma queda de 3,78% – a maior desde 8 de março, quando o STF anulou as condenações do ex-presidente Lula. O Ibovespa subiu com o recuo de Bolsonaro na quinta, para os 116.684 pontos, mas caiu para os 114.285 na sexta.

Na direção contrária da bolsa, o dólar comercial disparou 2,89% na quarta e fechou a sessão cotado a 5,326 reais na venda, a maior valorização diária desde 24 de junho de 2020, quando a moeda americana teve alta de 3,36%. Na quinta, o dólar recuou a 5,22 reais, mas fechou a sexta com alta de 0,82%, a 5,26 reais. Ou seja, pelo menos até sexta, os mercados não pareciam ter comprado a declaração de paz de Bolsonaro pelo valor de face. Tanto que, na carta aos cotistas sobre o desempenho do fundo multimercado Verde FIC FIM em agosto, a gestora do “guru” Luis Stuhlberger assinalou: “O cenário local continua com doses altíssimas de incerteza. O governo estimula as chamas de uma crise institucional, que leva à corrosão dos pilares do equilíbrio fiscal, num contexto macroeconômico de complexidade acima do normal: pior ano de chuvas nas séries históricas, geadas em partes do país e problemas globais com cadeias de suprimento”.

A esperança dos agentes do mercado é que o apaziguamento permita a retomada das tramitações e novos avanços na pauta econômica no Congresso. A solução para o problema do pagamento dos precatórios a partir de 2022 parece a mais urgente, diante da inviabilização do avanço de outras pautas de interesse do governo, como a reformulação do Bolsa Família. A proposta de parcelamento dos precatórios no Orçamento de 2022 para que não haja corte de outras despesas no Teto de Gastos não agrada ao mercado, já que pode aumentar o risco fiscal do País. Além disso, há uma série de projetos em tramitação, como a reforma do Imposto de Renda, a privatização dos Correios, o novo marco legal das ferrovias, o novo marco legal do câmbio e a BR do Mar (apelido dado ao novo marco legal da cabotagem).

Como pano de fundo, a elevada probabilidade de uma aceleração da alta dos juros básicos já na próxima reunião do Comitê de Política Monetária, diante do surpreendente IPCA de agosto, que subiu 0,87%, a maior alta para o mês desde 2000 e acima da expectativa do mercado (+0,71%). Em 12 meses, o índice acumula variação de 9,68%. A Itaú Asset, em boletim a clientes, assinala que “o núcleo de inflação (cálculo retirando itens mais voláteis) roda em 8,6% na base trimestral, com ajuste sazonal, valor que está em linha com o que projetávamos, porém com uma abertura ruim que mostra serviços bem pressionados”.

Nessa linha, o Boletim Focus divulgado nesta manhã pelo BC atesta que os economistas do mercado financeiro continuam a rever para cima suas expectativas de inflação para 2021 e 2022.  Para o IPCA deste ano, as projeções subiram de 7,05% para 7,11%, enquanto há quatro semanas estavam em 6,56%. Foi a 20ª semana seguida de deterioração da perspectiva inflacionária. A estimativa fica acima da meta, de 3,75%, e rompe o teto do limite superior, de 5,25%. Em relação ao IPCA de 2022, as estimativas foram elevadas de 3,9% para 3,93%, enquanto para 2023 ficaram em 3,25%. No entanto, os economistas mantiveram a projeção de uma taxa Selic de 7,50% para o fim deste ano, contra 7% há quatro semanas. A manutenção do consenso continuou em 7,5% para 2022 e de 6,50% para 2023 e 2024. Essa, porém, é uma medida das estimativas; já circulavam hoje cedo, no mercado, conversas de uma alta de 1,5 ponto percentual na próxima reunião do Copom, para daqui a uma semana, dia 22, o que elevaria a Selic, a taxa básica de juros, para 6,75% (hoje está em 5,25%), terminando o ano em 8%.

Os economistas também rebaixaram as estimativas para o crescimento do Produto Interno Bruto, o PIB, no fim do ano, de 5,28% na semana passada para 5,27% nesta, enquanto há quatro semanas estava em 5,29%. Para 2022, a estimativa de expansão foi diminuída para 2%. Para 2023 e 2024, permaneceu em 2,5%.

 

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Editor de Finanças em CartaCapital.

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