Diálogos Capitais: “Eles querem privatizar e desconstruir”

Evento de CartaCapital em parceria com a Fenae reuniu notáveis no Recife e debateu o papel dos bancos públicos na economia

Diálogos Capitais: “Eles querem privatizar e desconstruir”

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A 6ª edição dos Diálogos Capitais, realizada nesta terça-feira 19 no Recife, capital de Pernambuco, foi um alerta sobre os perigos de uma possível privatização dos bancos públicos, principalmente a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil.

No Estado, 96% do financiamento rural é realizado pelo Banco do Brasil e 86% de todos os financiamentos habitacionais são feitos pela Caixa Econômica Federal.

O Sindicato dos Bancários de Pernambuco, que abrigou os Diálogos, é velho conhecido do cenário político local. A mesa eclética contou com o jornalista e comentarista Xico Sá, com a advogada e professora de Direito Liana Cirne, com o o professor de Desenvolvimento Econômico da Universidade de Campinas (Unicamp) Luiz Gonzaga Belluzzo e o presidente da Fenae, Jair Ferreira, mediados pelo jornalista Leandro Fortes, diretor da empresa Cobra Criada, parceira de CartaCapital e da Fenae no evento.

Clubes de futebol, habitação, pequenos municípios, pequenos negócios, programas sociais, projetos culturais e futuro de programas como o Bolsa Família foram temas do debate. Todos relacionados com os bancos públicos. Jair Ferreira apresentou dados importantes sobre a importância dos bancos públicos para Pernambuco, cenário que se repete em números parecidos nos Estados nordestinos.

Xico Sá arranca risadas de seus companheiros de palco (Foto: Rodrigo Ramos)

“Pernambuco tem 17 bancos. Destes, quatro são públicos. Mas quando você vai para o interior, 53% das agências bancárias estão concentradas nos bancos públicos: Caixa, BB e Banco do Nordeste. Se você tirar a Caixa do jogo financeiro em Pernambuco, por exemplo, quem vai fazer financiamento de 20 ou 30 anos?”, questionou Jair.

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Belluzzo citou que a história dos planos econômicos brasileiros e o impulso da economia em épocas de crise sempre tiveram os bancos públicos como líderes da expansão do crédito. E lembra que toda vez que um governo tinha problemas na economia, “convocava uma reunião com a Caixa e o BB”.

O economista e articulista de CartaCapital teceu duras críticas ao governo Bolsonaro, chamando-o de “primata” e com “déficit de civilidade”. “Eles querem privatizar e desconstruir toda a estrutura e articulação do sistema financeiro que repousa sob os bancos púbicos”, disse.

Para Belluzzo, a burocracia bolsonarista não conhece a importância do Bolsa Família para as pequenas cidades e a importância da economia local garantida por esses depósitos sociais.

Xico Sá lembrou de fatos cotidianos que devem ser comunicados para exemplificar a importância dos programas dos bancos públicos. “Um tio meu de Santana do Cariri dizia que o capitalismo começou em sua cidade com o Bolsa Família, quando começou a vender um quilo de arroz, a matar um bode para vender.”

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Para ele, muitas cidades saíram da condição da “prática de escambo” para passar a operar com moeda. “A crônica social é muito bonita, comovente. O sorriso de quem não tinha sorriso”, alegrou-se.

A professora Liana Cirne questionou “como comunicar a sociedade civil o que nós estamos enfrentando”. Ela lembrou que a defesa dos bancos públicos passa pela conscientização das pessoas de que as instituições são empresas cujo objetivo primordial é prestar serviço e não necessariamente obter lucro.

“Eles podem ter prejuízo financeiro, desde que esse prejuízo seja em benefício da população”, opinou.

Após a participação do plenário, os palestrantes fizeram suas conclusões. “Esclarecimento, debate, ouvir as pessoas e falar com elas. Convocar as pessoas para ir para a rua”, concluiu Belluzzo.

“Vivemos um período de atrocidades e comunicação de guerra”, resumiu Jair Ferreira. “A gente menosprezou esses malucos com discursos alucinados, enganando parte da população. O importante é não entregar os pontos”, bradou Xico Sá.

Representando as mulheres, Liana Cirne fechou o papo com esperança. “Essa ofensa à inteligência da população tem diminuído o capital político desses caras. Mas temos que transformar nossa comunicação em meme. Como eu acredito na força das ruas, como eu acredito nos congressos, acredito na força de Lula e de Marielle, acredito que temos a possibilidade de destituir esse ‘poder’. Se fizermos isto, não podemos abrir mãos da participação popular em todas as empresas de economia mista do Estado”, disse, aplaudida.

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