Cinco anos depois, quadrinho ilustra nuances e ‘vilões’ do golpe contra Dilma Rousseff

As muitas mãos que se apertam no 'Grande Acordo' motivam o novo livro de Robson Vilalba, ilustrador, cientista social e mestre em sociologia

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Era 31 de agosto de 2016, exatos cinco anos atrás, o Senado Federal confirmou a remoção de Dilma Rousseff do cargo de presidente da República. A primeira mulher eleita para governar o Brasil deixava definitivamente o cargo para o qual foi alçada, dois anos antes, pelo voto de 54 milhões de brasileiros.

Robson Vilalba. Foto: Divulgação

O episódio sacramentava o ‘grande acordo nacional’, orquestrado por muitas mãos para depor Dilma e ‘estancar a sangria’ causada pela Lava Jato na política e no mercado. A expressão cunhada por Romero Jucá, então ministro do governo interino de Michel Temer, em conversa com Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, um dos alvos iniciais da operação, define bem o que se sucedeu naquele mês.

Esse aperto entre muitas mãos inspira o mais novo livro do ilustrador e sociólogo paranaense Robson Vilalba. Um Grande Acordo Nacional (Elefante) ilustra em traços pesados e bem marcados as nuances do impeachment da ex-presidenta.

“Mais do que uma denúncia do golpe é uma forma de olhar o que aconteceu”, resume o autor em conversa exclusiva com CartaCapital. “O livro tem o papel de expor nossas próprias feridas e entender as marcas que elas deixaram, pra gente poder superá-las nesse sentido.”

A vida na ‘República de Curitiba’ — ou ‘Disneylândia lavajatista’, como prefere chamar — teve impacto direto nos relatos. Em entrevista a CartaCapital, Vilalba comenta o nascimento do atual governo Jair Bolsonaro que, segundo ele, pode ter sido gestado ainda em 2012, em outro ‘grande acordo nacional’ firmando entre empresários e Dilma.

Vilalba é também autor de outra HQ jornalística, as Notas de um Tempo Silenciado (Besouro Box) e vencedor do Prêmio Vladimir Herzog de Jornalismo e Direitos Humanos. O ilustrador também teve reportagens em quadrinhos publicadas por Folha de S. Paulo, Gazeta do Povo e Le Monde Diplomatique.

Confira, a seguir, os destaques da entrevista.

CartaCapital: Essa história é construída em quadrinhos, mas o leitor que tiver o Grande Acordo em mãos estará diante do que? Jornalismo ou ficção?

Robson Vilalba: O livro tem uma ideia de reportar fatos. Assim como o texto jornalístico, o documentário ou o vídeo reportam fatos. Até por isso me filio a essa escola de fazer quadrinhos, que é o jornalismo. Não tenho intenção ali de ficcionar realidades. Claro que tem cenas que não acompanhei presencialmente, em que me dou a liberdade de pensar como ela teria acontecido, mas ainda assim as palavras que estão na boca das personagens são reais, que busquei em fontes e algumas referências bibliográficas. O livro tem essa preocupação.

Todas as informações que estão ali presentes, estão também nas páginas de referências bibliográficas ao fim do livro para serem checadas. Você pode pegar o Grande Acordo e checar se o que retratei ali é real e se as formas como interpretei os fatos são fiéis. São fatos, não há espaço para invenções, não ficcionei nenhuma sequência de ações, reportei acontecimentos.

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CC: Na orelha do livro, ‘você vem diretamente do precipício bolsonarista’ para nos explicar ‘o que nos levou a esse rol de escolhas desatinas’? O que nos levou a esse ‘desatino’?

RV: Quando a gente olha pro o golpe de 2016, tende a recortar um único evento. Recortamos, por exemplo, a relação de Dilma com o vice-presidente [Michel Temer] ou recortamos a pressão dos movimentos de direita que ocuparam as ruas. As análises que vinha lendo sempre tentavam recortar um único evento que tivesse possibilitado esse ‘golpichement’. O que percebi ao longo da apuração foi que esse impeachment fajuto foi desencadeado na verdade por uma série de eventos. Mas, se a gente fosse colocar marco zero, seria 2013…

A própria burguesia financeira, os ‘faria limers’, a Fiesp, os ruralistas, os militares, todos são vilões

CC: Junho de 2013?

RV: Um pouco antes. Não colocaria assim junho de 2013… Na verdade, 2012. Tem um fato que é o seguinte: em 2012, o governo havia feito um acordo com a Fiesp. E a Fiesp não é um personagem que a gente pode negligenciar, lembre que ela colocou um pato gigante na Paulista. Esse acordo é chamado ‘Plano Brasil Maior’, entre centrais sindicais, governo e os patrões, representados pela Fiesp. Esse acordo previa muitas coisas, inclusive que o País teria desemprego zero dentro de poucos anos, controle da tarifa da energia elétrica e em outros termos um controle dos combustíveis. São essas medidas que, ao meu ver, vão dar estofo pra que mais tarde seja feito o pedido de impeachment. O que vem em seguida é que o governo de fato seguiu as recomendações daquele grupo com que sentou e acordou em 2012, mas essas recomendações não vão dar certo e esse fato faz com que esse mesmo grupo da Fiesp force uma saída golpista.

Não tenho intenção ali de ficcionar realidades. Claro que tem cenas que não acompanhei presencialmente, em que me dou a liberdade de pensar como ela teria acontecido

CC: 2012, então?

RV: É, este evento vai desencadeando os demais. Por exemplo, depois a Fiesp vai se encontrar com o Temer, vai patrocinar de certa forma os protestos nas ruas, o Ives Gandra que é o primeiro [jurista] a fazer o parecer favorável ao impeachment, vai fazer palestras dentro da Fiesp. Há o apoio de uma burguesia industrial que vai tirar a presidente por ela seguir recomendações que essa mesma burguesia fez. E tudo isso começa em 2012 e desencadeia uma série de eventos a partir de junho de 2013.

O que há ali [junho de 2013] é um evento com uma reivindicação muito específica, por mobilidade urbana. E isso vai acontecer em vários lugares do Brasil e com caráter progressista, digamos assim, da esquerda. Só que depois ela começa a ganhar alguns contornos que lhe dão um aspecto generalizado, pautado pela grande mídia, depois que a polícia comete abusos, a direita passa a ocupar as ruas de uma maneira muito xistosa, tirando sarro desses eventos. Lembra de cartazes com jocosas as empregadas e selfies com os policiais naquela época? Virou uma confusão de signo, uma coisa interceptada pela direita pra tirar fotinha no face. Tínhamos, ao mesmo tempo, direita e esquerda na rua. Mas em pouco tempo esses dois grupos se separam completamente e nunca mais dividiram a rua.

Até 2013, essa discordância entre direita e esquerda de hoje era ainda meio tácita, não se falava muito. Mas quando eles se veem na rua, fazendo reivindicações diferentes, percebem que não tem o mesmo projeto e se separam totalmente. E isso vai desaguar nos grupos que vão se fazer presentes em 2015, 2016 até hoje.

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CC: Como em um bom e clássico quadrinho, temos um vilão no ‘Grande Acordo’?

RV: O que o livro acaba conduzindo é pra uma alternância de vilões, são vilões que se sucedem. Primeiro a gente tem as manifestações que separam grupos em 2013 e que voltam em 2014 com grupos muito bem separados durante a Copa. A direita fica dentro dos estádios, enquanto a esquerda fica fora dos estádios. É aqui que surge o primeiro vilão, que é o Aécio Neves. É importante lembrar, que havia naquele momento uma disputa sobre quem seria o candidato do partido tucano e essa disputa se travava entre os três de sempre: [José] Serra, [Geraldo] Alckmin e Aécio.

O Serra e o Alckmin têm esse discurso meio pastoso, não por acaso, meio atucanado. O Aécio precisava se diferenciar, mostrar que não era ‘aquilo’, que era ‘uma outra coisa’. A escolha que ele faz é radicalizar o discurso. Se coloca de vez mais à direita, com ações mais agressivas. A gente consegue ver isso bem claro nos debates e nos primeiros memes eleitorais que surgiram naquele momento. Ele vai fazendo esse confronto e se firmando como uma opção radical dentro do PSDB contra o PT. O ápice desse radicalismo é questionar os resultados das urnas, que agora, ironicamente, quem ajudou ele na época, nega que alegou fraude. O fato é que ele fez uma opção pela radicalização.

CC: E depois?

RV: Nesse momento acontece, simultaneamente, algo que eu chamo no livro de ‘imponderável’ que é a Lava Jato. A Lava Jato começa a pegar pessoas de vários partidos, o primeiro é o Partido Progressista, com José Janene. Importante lembrar que falo aqui do mesmo partido que hoje abriga o líder do governo Ricardo Barros e que na época era o partido do deputado Jair Bolsonaro. Esse mesmo partido foi protagonista no escândalo da Lava Jato e hoje é protagonista no escândalo da compra de vacinas. Como a operação uma hora chega até Aécio Neves, ele perde a força, pois tinha um discurso de ética, anticorrupção que não se confirmou.

Isso já é início de 2015 e nesse início de ano uma nova figura começa a dominar o cenário político que é Eduardo Cunha. Eleito presidente da Câmara em 2014, ele começa em 2015 a impor sua própria pauta, começa a organizar o tal dos ‘jabutis’. Ou seja, ele consegue o apoio do Centrão oferecendo em troca esses ‘jabutis’, suas emendas, pra que eles tenham ali suas comissões. Isso o Eduardo Cunha conseguia fazer com muita facilidade.

Quando ele faz isso, começa a impor o seu governo, o que faz com que a gente tenha um governo paralelo de Cunha no segundo mandato da Dilma. Só que, ainda assim, ele mantinha uma distância, não tinha nisso uma pretensão golpista. Essa pretensão só surge quando ele se vê encurralado com os escândalos na Suíça com seu nome, que fazem o PT, que vinha pressionado pela base a agir contra ele na Comissão de Ética, fazer de fato um pedido contra ele na Câmara. Ele assume o papel de vilão deixado por Aécio Neves.

CC: E o Temer?

RV: Isso. Aí vem o Temer. O Cunha conta com esse aliado que é muito na surdina, que é o perfil dele, que vai se revelar só quando ele escreve uma carta à Dilma. Na carta ele vai se dizer magoado e é muito interessante que nos detalhes da carta ele diz que entre as razões da sua mágoa está o fato de que Dilma não confiaria nele, nem em seus amigos. Todos foram enquadrados depois pela promotoria pública no crime de formação de quadrilha. Ou seja, na carta ele mesmo mostra que Dilma não confiava naquelas pessoas, mas com razão, que obviamente só vamos saber mais tarde…Agora parece que o processo não foi pra frente, mas o grupo de fato conspirou ali e deu razões para que Dilma não confiasse…O Temer aqui passa a fazer esse papel com a capacidade para transitar entre vários grupos. Importante lembrar que é ele quem abre a porta para os militares passarem pra política, fazendo virar o que virou.

Então diria que é isso, uma alternância: Aécio, depois Cunha que vai ficando fraco, porque a direita precisava de um herói puro. Por isso nesse meio tempo eles se apegam ao Sérgio Moro, que naquele momento tenta fazer um papel de ‘isentão’, mas que hoje sabemos suas reais intenções, se aliando ao governo do adversário que ele mandou prender em um processo totalmente parcial. E depois chegamos em Temer.

CC: Aécio, Cunha, Temer… E Moro

RV: Assim, acho que é importante olhar também para os grupos como vilões. Como o livro é uma reportagem e não uma análise sociológica, eu preciso de personagens pra conduzir a narrativa, mas é importante entender que eles representam grupos de interesses e esses grupos não precisam de um vilão, eles precisam de alguém que os represente enquanto lhes é favorável. Se essa pessoa depois precisar ser descartada, ok. Diferente do ‘18 de brumário’, a gente não precisou de um Napoleão para dar o golpe, por isso tivemos vários napolões. A própria burguesia financeira, os ‘faria limers’, a Fiesp, os ruralistas, os militares, todos são vilões e iam trocando os seus ‘representantes’. Tanto que depois de tudo isso acabar, surge como representante desse grupo…e aqui muito por causa da malandragem dele mesmo…é o Bolsonaro.

CC: Bolsonaro aparece no seu livro diversas vezes, mas não parece ser um ‘vilão fundamental’… Qual o papel que você dá a ele nessa trama?

RV: Ele é um oportunista,: quando a gente olha pra história e olha pros personagens, a gente perde de vista que eles representam interesses de determinados grupos. São esses grupos que vão deflagrar o golpe contra a Dilma e esses grupos precisam de um ator específico. Uma hora era um, outra hora era outra. Até que surge um oportunista. E quem é ele? É um cara denunciado por relação com milícias, por enriquecimento ilícito, que vive da política há 30 anos, mas que naquele momento aglutinou os interesses populares e desses grupos que depuseram Dilma. Esse mesmo malandro coloca ao lado dele alguém ‘de puro sangue’ pra representar esses grupos, que são Paulo Guedes e Sérgio Moro.

Por isso tomo o cuidado de não tomar Bolsonaro como um completo estúpido. Tem um ‘puro sangue’ pra burguesia e um ‘puro sangue’ pra população, mas que depois que ele assume de fato, ele guarda os dois no bolso, toca a vida, faz seu governo. Bolsonaro é um sábio oportunista, soube aproveitar a brecha que a direita lhe deu, o que os outros não souberam fazer.

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CC: Em algumas publicações nas redes sociais, antes do lançamento do livro, você fala de um receio em lançá-lo agora. Pode falar um pouco sobre este receio? De alguma forma ele se concretizou?

RV: Antes mesmo da publicação do livro, já não era bem visto por essa turma, dos fascistas. Mas não é só isso… Eu tinha um receio de que o livro enfraquecesse, que eu tivesse perdido o fio da história, que aquilo fosse uma história datada. Mas agora conseguimos revisar o que aconteceu, olhar pra trás sem o nervosismo do momento. É uma forma de ver o que aconteceu de errado e como chegamos até aqui. Mais do que uma denúncia, é uma forma de olhar o que aconteceu. O livro não isenta a esquerda do golpe – não que a esquerda comungue com o golpe, mas em alguma medida o PT meio que abandonou a Dilma. O livro tem o papel de expor nossas próprias feridas e entender as marcas que elas deixaram, pra gente poder superá-las.

CC: Você escreve e publica diretamente da ‘República de Curitiba’, casa da Lava Jato…

RV: A Disneylândia da Lava Jato…

CC: Isso foi importante?

RV: Uma coisa que pensei muito foi me colocar ou não presente na obra. É sempre um receio de parecer um ‘aparecidão’. O Joe Sacco, referência no jornalismo em quadrinho, quando se coloca presente, é uma testemunha do fato, ou seja, é uma das fontes. O que quis trazer foi parecido, um livro contado por alguém que estava dentro dessa Disneylândia lavajatista… Teria outro ponto de vista se estivesse em outro lugar… Tem outras histórias que devem sair em breve e em uma delas conto como foi o meu contato com os lavajatistas, fui conversar com eles pro ‘Grande Acordo’. E foi uma cena de loucura…

CC: Loucura dos lavajatistas?

RV: É. Os caras falando em intervenção militar e em como o Sérgio Moro apoiava a intervenção, mas que não poderia dizer isso publicamente porque não era bem visto. E isso vai sair agora, em mais três histórias inéditas. Vai ser esse encontro com os fascistas, um outro quadrinho da aula que fui ver do Sérgio Moro na Federal [Universidade Federal do Paraná] e uma minibiografia da Dilma.

Curitiba aparece meio que assim na história, na minha perspectiva. Já a Lava Jato, olhando daqui, ela tinha um potencial muito grande. Sempre fui muito cético a ideia de que ela existe só pra acabar com o PT, me parece muito ególatra. É claro que elite financeira e burguesia não gosta da esquerda. Mas dizer que foi feito só por isso…

Em outro contexto, estaríamos tratando o legado da Lava Jato de outra forma. Como, por exemplo, enquadrar as grandes empreiteiras que sempre tiveram negócios com os governos. Era inimaginável, entendeu? O esforço pra prender o Lula foi tão grande que deixaram de fazer o trabalho deles como procuradores e juízes. Se tivessem feito só o trabalho deles, talvez o rumo das coisas fossem outros e isso diz muito sobre o caráter do Sergio Moro. No fim, minha conclusão é de que a Lava Jato contribui com o golpe, mas não é o vetor no golpe.

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CC: Em outro livro [Notas de um tempo silenciado], você pesquisou a ditadura no Brasil. Neste, estudou um outra ruptura. No atual momento estes dois fantasmas parecem ecoar no nosso tempo. Há elementos para afirmar que Bolsonaro tentará um golpe?

RV: Eu dividiria em dois tópicos essa resposta. Primeiro sendo bem direto: acho que há uma configuração global na política hoje que não dá pra fazer o golpe nos moldes de 64. Se Bolsonaro tentar isso será isolado. Ele não tem o apoio do capital internacional como em 64, ele não tem os Estados Unidos bancando a coisa, dizendo ‘pode fazer que eu seguro as pontas financeiramente’ e nem ninguém interessado nisso. Se pegarmos os países no cenário político com golpes recentes, em questão de horas já veio o embargo internacional. Então o golpe de Bolsonaro agora, se tentasse, seria um fracasso, sem apoio da burguesia nacional e internacional. Para além disso, tudo mostra que para se dar um golpe exige-se uma valentia, você romper com um status de Estado exige isso. Você dizer que o ‘Estado c’est moi’ exige algo que Bolsonaro não tem. Ele tem mostrado cada vez mais sinais de covardia do que de valentia. Ele não parece alguém com capacidade de fazer algo como isso.

CC: E o outro tópico?

Outro ponto que observo enquanto pesquisador do golpe de 64 era que o Brasil tinha uma tradição muito positivista. E o positivismo dividia a revolução social em etapas. Tem uma etapa pré-religiosa, outra etapa um pouco mais científica, e uma terceira etapa em que seríamos governados pelos melhores intelectuais armados, esse seria o futuro. Esse positivismo chegou a virar uma religião. Entre os militares que formaram o governo na ditadura, quase todos tiveram formação positivista. Por exemplo, na Escola Militar da Praia Vermelha, quem dava aula era Benjamin Constant, nome forte do positivismo. Então ficou no imaginário brasileiro de que uma hora nós seremos salvos pelos melhores armados e isso continua de 64 pra agora.

Existe uma parte significativa da população que sempre espera ser salva e isso é uma contradição com o pensamento liberal também vigente no Brasil, que fala do seu papel individual para mudar algo e não de um Estado. Os liberais bolsonaristas acabam sempre querendo que alguém faça por eles, é uma aliança do positivismo com o liberalismo. Esse espírito médio está sempre na expectativa de que alguém as salve e é o que estamos vendo.

Esse mesmo sentimento vejo nas eleições de 2022 em que parece que teremos que escolher ‘um salvador’, um sebastianismo. E falo isso sem cair em uma comparação vulgar entre Bolsonaro ou Lula, não são iguais. Digo isso porque é um exemplo desse espírito que vai sempre nos abrir espaço para um aventureiro, como foi Bolsonaro e isso que vai nos deixar sempre essa sensação de quando houver uma crise a gente vai precisar de um salvador. É por isso que o ‘fantasma’ do golpe parece rondar sempre.

CC: E o impeachment? Além da ditadura você também pesquisou um…há indícios pra comparar?

RV: Aparentemente não. Você não tem as disputas de grupos na rua como com Dilma. Além disso, hoje a burguesia, a elite que financiou o golpe, está muito mais interessada em deixar o jogo rolar do que qualquer outra coisa. A impressão que temos hoje é de que esses ‘faria limers’ estão fazendo um jogo como se estivessem comprando um carro novo: você vai em uma loja e diz ‘a outra loja está me vendendo mais barato’, pega essa contraproposta e faz a mesma coisa na próxima loja. E isso está sendo feito tanto pelos ‘faria limers’, quanto pela elite industrial. Elas vão pra Lula e Bolsonaro fazendo esse jogo, estão muito mais interessados em deixar a coisa correr para barganhar do que forçar uma ruptura.

Temos pouquíssimos elementos que indicam um impeachment, muito também porque o Centrão está feliz com Bolsonaro. Essa elite política está feliz com ele, porque o governo mesmo cada vez menos é de Bolsonaro e cada vez mais de Arthur Lira. Quem diz o que vai ser e o que não vai ser é Lira. Bolsonaro é hoje um bufão que mais atrapalha, mas é um bufão que tem a caneta e que libera a verba pra essa elite governar. É uma espécie de rei louco que o parlamento deixa pra lá e corre sozinho. No caso da Dilma vejo que era uma oportunidade do Centrão tirar a esquerda do poder, todos os fatos que dão substância pra dar o golpe são reunidos em torno disso, tirar o PT.

Independente de como fosse esse PT, mezzo social democrata, mezzo liberal, ainda assim ele era ‘pintado de vermelho’. O golpe da Dilma é muito mais isso, contra o ideário de esquerda, tanto que em seguida o que vem a governar é essa contraposição de qualquer ideia que representa a esquerda, mesmo coisas que nem deveriam ser ligadas só à esquerda, como liberdade de pesquisa científica, igualdade racial, igualdade de gênero, etc. Hoje o que temos é uma perseguição a isso.

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Repórter do site de CartaCapital

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