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Do sonho ao pesadelo

A metáfora brasileira da metrópole que cresceu demais

Imagem: Arquivo/AFP
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Pergunto aos meus inquisitivos botões qual haveria de ser o gênero do texto a seguir: melancólico ou passadista? Conheci São Paulo com pouco mais de 1 milhão de habitantes, cavalheiros enchapelados e de meias inexoravelmente brancas, damas enfeitadas com garbosos arranjos próprios para assistir aos páreos do Jockey Club. Quando a cidade passou dos 2 milhões, deu para gabar-se da condição de metrópole que mais crescia no mundo. E um certo e incentivador avanço cultural a tornava de várias formas cidade contemporânea do mundo.

No Teatro Municipal ecoaram as vozes de celebrados cantores, como Mario del Monaco, Tito Gobbi, Nicola ­Rossi-Lemeni e até Maria Callas, então uma gorda senhora casada com um empresário de sobrenome Meneghini. Triunfava na batuta o maestro Tullio Serafin. Logo aconteceu a primeira Bienal e o vencedor foi Giorgio Morandi. Realizou-se o evento nas dependências do Trianon, ao concluir a arrancada vegetal habitada por vetustos bichos-preguiça dados a cair nas calçadas da Rua Peixoto Gomide, também disposta a funcionar como cenário de brigas de sopapos entre alunos do colégio Dante Alighieri.

No Ibirapuera, outrora coalhado de campinhos de futebol e logo reformado arquitetonicamente para ganhar o aspecto mantido até hoje, foi alcançada a segunda Bienal no quarto centenário da fundação da cidade. Ali dei de cara com a belíssima atriz Tônia Carrero. Estampei no rosto uma expressão deslumbrada e ela sorriu lisonjeada.

Entre os modelos T a trafegar no Viaduto do Chá, Luiza Erundina, prefeita redentora, encara o emblema de uma pujança paulistana que ainda não estava perdida – Imagem: Luiz Carlos Murauskas/Folhapress e João Wainer/Folhapress

Importantes diretores de teatro vinham a São Paulo, como Ziembinski, Adolfo Celi, Luciano Salce, Ruggero ­Jacobbi e Gianni Ratto. A atriz mais celebrada era Cacilda Becker, intérprete do talento mundial. Anselmo Duarte, que iniciara a carreira como ator na Vera Cruz, empresa cinematográfica fundada por outro italiano, Franco Zampari, como diretor ganhou a Palma de Ouro no festival de Cannes com o filme O Pagador de Promessas. Atores competentes saíam da Escola de Arte Dramática fundada e comandada por Alfredo Mesquita, filho de Julio Mesquita, o patriarca fundador da Província de São Paulo, que logo seria O Estadão.

Nesta edição, conta-se a história de uma metrópole que tomou, infelizmente, o pior caminho ao cumprir aquela primeira premissa de expansão e ­progresso. É um enredo de dolorosa decadência, marcada por um vício devastador e irreparável, empurrada por um desastre anunciado por maus governos, com raríssimas exceções, desde o advento do longínquo e bem-sucedido governo de Prestes Maia, capaz de um plano regulador profético no melhor sentido.

Nesta tarefa, foram pouquíssimos os políticos destinados a sair-se com honra, como Olavo Setúbal, o banqueiro iluminado que até a morte me honrou com a sua amizade, e Faria Lima, a despeito das suas manias de grandeza. Redentor o desempenho da professora Luiza ­Erundina, que conduzia seus alunos a visitar favelas para ser recebida por saborosos cafezinhos, bolinhos de fubá e biscoitos de polvilho. Mostrava as entranhas da capital, onde ainda era possível se entregar ao sono de portas abertas. Campeões de desastres impunes Ademar de Barros e Paulo­ ­Maluf, sem falar de um zero à esquerda chamado Celso Pitta.

Essa São Paulo teve a desfaçatez de chamar-se Paraisópolis – Imagem: iStockphoto

Meu pai dirigia um carro tcheco, o Skoda, de rodas tortas, substituído mais tarde por um Jaguar usado, indicação do meu irmão que já se imaginava na direção de um veículo britânico. Diretor de arte da Editora Ipê, colaborador da revista Anhembi, de Paulo Duarte, enfim autor da primeira reforma do Estadão, ainda instalado à Rua Barão Duprat, no bairro árabe perfumado de cânhamo e gergelim.

Nas cercanias do Parque D. Pedro II erguia-se o Mercado Municipal, uma baleia a navegar sua imponência exposta à minha visitação, levado pelo meu irmão e inesquecível amigo Claudio Abramo, chamado pelo Jornalão para verter do italiano a rubrica diária que meu pai escrevia e publicava na primeira página, De um Dia para o Outro, dedicada aos eventos da política exterior. Na lembrança dolorosa da encampação sofrida durante a ditadura Vargas, os legítimos donos haviam decidido relegar a última, para ser devolvida ao lugar original pela interferência do próprio Claudio, elevado ao cargo de secretário de redação.

Não esquecerei a presença do restaurante de Dona Celeste, que se tornaria com o tempo um must em vários recantos paulistanos. Havia dois gêneros de cidadãos paulistanos, os “quatrocentões” e os demais, vindos pela imigração estrangeira e nacional, esta, sobretudo, nordestina, nem todas bem-vindas, com a generosa ressalva a poupar os vendedores de peixe chegados do bairro do Pari, para anunciar aos berros a sua mercadoria.

O banqueiro iluminado também merece a lembrança positiva – Imagem: Gustavo Lourenção

Desfilavam pela Avenida Paulista as ricas vivendas dos senhores do café, cada uma no estilo por eles desejado, com destaque para a mansão dos Matarazzo, obra de Marcello Piacentini, bem como o prédio em mármore travertino da empresa familiar no Viaduto do Chá. Imigrante da Campânia, Francisco Matarazzo chegara ao Brasil, em 1880, com um carregamento de banha, muito usada na cozinha nativa e nas fábricas para engraxar máquinas entregues ao trabalho de meninos de 12 anos.

Muitos saíam do bairro operário do Glicério, à sombra da Igreja da Paz, de inspiração românica, abrigo dos afrescos de Fulvio Pennacchi e das esculturas de Galileo Emendabili. Pietro Maria Bardi e sua mulher, Lina Bo, chegaram no imediato pós-Guerra para fundar o Masp, glória e marco paulistanos. Bardi conduziu a presidência do Masp até pouco depois de completar 90 anos e realizou inúmeras exposições nos mais diversos recantos do mundo, com grande sucesso. Lina afirmou-se arquiteta de grande talento, com obras importantes realizadas em vários cantos do Brasil. Nunca perdeu a oportunidade de exibir o seu apego ao País e manteve uma amizade funda e duradoura com artistas nativos, desde cantores e compositores baianos até o diretor de ­teatro Zé Celso Martinez Corrêa.

Muitos dos citados fazem falta, enquanto não a fazem os escolhidos entre o próprio pessoal que passou a dirigir o Masp depois da morte do insubstituível fundador, o qual, entre outras coisas, dedicou-se também à colaboração com as revistas Vogue e IstoÉ. Primou como comprador de obras importantíssimas, com competência e conhecimento, graças a uma habilidosa e profícua chantagem exercida sobre quatrocentões endinheirados.

Primeiro espigão paulistano, o Prédio Martinelli desafia o céu – Imagem: Collection Roger-Viollet/AFP

Mais de uma vez nas três primeiras décadas do século passado, os imigrantes italianos tanto tiveram a decisiva responsabilidade pelas greves anarquistas que acabaram precipitando do governador Altino Arantes a expulsão do País de 400 envolvidos, bem como as mirabolantes façanhas do lendário rei dos ladrões Gino Amleto Meneghetti. Começou adolescente, na Itália, ao surrupiar as maçãs de um quintal de vizinhos e, em São Paulo, assaltou mansões para acabar, já velho, furtando galinhas.

No colégio, que durante a Segunda Guerra Mundial foi privado do seu nome glorioso, substituído por uma discutível homenagem a um malsabido Visconde de São Leopoldo, foi meu professor de Português e Geografia Jânio Quadros, eleito para a vereança ao dar os primeiros passos numa carreira destinada a levá-lo até a Presidência da República com os votos dos pais de alunos. Do colégio tenho as melhores lembranças e até dos embates pugilísticos no parque fronteiriço.

Confrontada com aquela São Paulo, a atual metrópole, sujeita aos dissabores, e digo mesmo às tragédias, apinhada de crimes e miséria, e hoje narrada na reportagem de Rodrigo Martins, prata da casa, e Mariana Serafini, de captura mais recente, realizou o velho sonho de tornar-se um aglomerado combalido de mais de 30 milhões de habitantes. Como intérprete de um recanto doente por intermináveis razões, a transparente saudade que vazou em algumas destas páginas já se perdeu sem a menor pretensão de partir em busca do tempo perdido.

Certas passagens geradas por lembranças, fique bem claro, não ousam ser proustianas. Na melhor das hipóteses, estão mais para Charles Trenet. •

Publicado na edição n° 1269 de CartaCapital, em 26 de julho de 2023.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘ Do sonho ao pesadelo’

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