O prazer vai bem além do pênis nas relações homoafetivas masculinas

A exploração de áreas erógenas, mamilos, nuca, atrás da orelha, ânus e pés, entre diversas outras, pode ser igualmente prazerosa

(Foto: Sasha Kargaltsev / Wikimedia Commons)

(Foto: Sasha Kargaltsev / Wikimedia Commons)

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Quem já usou aplicativos de relacionamento, principalmente aqueles voltados para homens gays, já deve ter recebido uma foto do pênis antes mesmo de ver o rosto do seu interlocutor. A pergunta “ativo ou passivo?” também permeia a maioria das conversas. A existência dessas plataformas fez com que muitas pessoas explorassem sua sexualidade, que antigamente permaneceria “discreta e no sigilo”.

Entretanto, a facilidade de encontrar um parceiro por perto para uma transa rápida tem exposto outros problemas: a superficialidade nos relacionamentos e o falocentrismo (phalos = pênis) das relações homoafetivas masculinas.

Cada vez mais pacientes, muitos deles jovens ainda, têm apresentado queixas de impotência e perda da libido. Precisamos inicialmente diferenciar essas duas disfunções: 

  • Impotência é o conjunto de queixas relacionadas à dificuldade em iniciar, manter ou terminar o ato sexual. O principal exemplo são os problemas de ereção. Mas há outras questões que podem interferir numa relação satisfatória, como a ejaculação precoce ou a retardada.
  • Já a libido é o desejo ou vontade de se relacionar sexualmente. Muitas vezes confunde-se com a impotência. Mas apesar de estarem intimamente ligadas, são processos diferentes em nosso corpo, cujos problemas podem ter causas distintas.

A ereção ocorre por um processo cerebral involuntário, desencadeado pelo sistema nervoso parassimpático. Pode ocorrer após um estímulo, seja ele tátil, visual ou até mesmo um pensamento erótico. Também pode ocorrer sem estímulo algum, como, por exemplo, durante o sono.

Já a disfunção erétil pode ocorrer por diversos motivos, como doenças nas artérias e veias, diabetes, tabagismo, abuso de drogas e cirurgias na região da pelve. Mas a maioria dos episódios são de fundo psicológico, ou seja: não tem causa orgânica definida. Os tratamentos são diversos: o uso de medicação, próteses penianas e estimulação e fisioterapia pélvica. O médico responsável por tratar o problema é o urologista. E NÃO se deve tomar nenhum medicamento sem prescrição e orientação médica.

E, por último, a falta de libido pode estar relacionada com doenças sistêmicas e sofrimento psíquico. Muitas vezes, uma conversa franca com o parceiro e o apoio de um psicoterapeuta podem revelar o motivo para a perda do apetite sexual.

Voltando ao início do texto: a pressão em ter uma boa performance sexual (muitas vezes inspirada na pornografia) e o sexo centrado no pênis podem contribuir para o aumento dos casos de impotência e perda da libido.

O estímulo do pênis é prazeroso para ambos os parceiros. Mas sexo vai muito além disso. A exploração de zonas erógenas como mamilos, nuca, atrás da orelha, ânus e pés, entre diversas outras, pode ser igualmente prazerosa.

Realizar suas fantasias e fetiches de forma consensual e segura também podem ajudar a aumentar a libido. O corpo é um mapa de prazer a ser explorado. E tirar um pouco o foco do pênis também pode ajudar a lidar com a ansiedade.

Caso esteja passando por esse tipo de dificuldade, não sofra sozinho. Compartilhe com seu(s) parceiro(s) e procure ajuda profissional.

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Cirurgião do aparelho digestivo formado pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Atua também como coloproctologista no Ambulatório de Doenças Infecciosas Anorretais do HCFMUSP.

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