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Maior ação política de mulheres da América Latina foi ignorada pela mídia tradicional

Marcha das Margaridas reuniu cem mil mulheres em Brasília, mas não foi pautada pelos principais veículos da mídia tradicional brasileira; mídia pública foi a exceção

7ª Marcha das Margaridas. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
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por Sara Brito e Tamara Lopes | Angola Comunicação

Brasília recebeu, nos dias 15 e 16 do último mês de agosto, mais de 100 mil mulheres de todos os estados do Brasil para a sétima edição da Marcha das Margaridas, que é considerada a maior mobilização política de mulheres da América Latina. A cada quatro anos, a mobilização apresenta uma pauta de reivindicações ao executivo e ao legislativo brasileiros. Este ano, a pauta das Margaridas foi dividida em 13 eixos para contemplar questões diversas da vida das mulheres como o acesso à terra, o combate à violência, autonomia econômica, saúde, educação e segurança alimentar. 

Mulheres diversas do campo, da cidade, sindicalistas, agricultoras, professoras, marisqueiras, ribeirinhas, indígenas, quilombolas, LGBTQIA+, jovens, idosas estiveram presentes nos dois dias de evento. A Marcha das Margaridas cobrou respostas do governo e foi recebida na Esplanada dos Ministérios pelo presidente Lula e ministras e ministros de Estado, que responderam às demandas colocadas com o anúncio de investimentos e políticas de governo. O encontro com o presidente da república foi um destaque em relação à última Marcha, que aconteceu em 2019 e foi marcada pela inexistência de diálogo por parte do poder executivo.

Toda essa mobilização a nível nacional, reconhecida internacionalmente, e consequentes medidas governamentais não seria conhecida pela maioria da população se dependesse dos veículos de comunicação da mídia tradicional brasileira, conforme monitoramento feito em parceria pela Angola Comunicação e pelo Intervozes. Em busca nos sites dos jornais O Globo e Estadão, encontramos respectivamente seis e cinco matérias que citavam a Marcha, porém nenhum dos textos era sobre a mobilização de mulheres, e se resumiam a citar em poucas linhas que a Marcha estava acontecendo, sem explicar para o leitor do que se tratava. O foco desses jornais no período foi a “CPI do MST”, cuja intencionalidade era a costumeira tentativa de criminalização do movimento. 

As matérias apenas descreviam alguns acontecimentos, citando declarações de pessoas envolvidas no foco do texto e, quase no final, falavam sobre a Marcha das Margaridas apenas como mais uma agenda na vida de lideranças políticas e representantes institucionais  no Brasil, como o presidente Lula, o ministro Flávio Dino e a ministra Sonia Guajajara. Seguindo a análise da Folha de S. Paulo, Jornal Nacional e SBT Brasil, publicada anteriormente neste blog, novamente nenhuma mulher que participou ou organizou o movimento foi entrevistada. A Marcha das Margaridas, uma ação feita por mulheres de todo país, em sua maioria negras, foi resumida a um pano de fundo para trechos dos discursos dessas personalidades, cuja abordagem beirava o sensacionalismo.

Na notícia do O Globo intitulada “Em ato com mulheres, Lula volta a criticar Bolsonaro e diz que tirou ‘fascista e genocida’ do poder”, o texto se resume a citar uma fala do presidente Lula durante um discurso de aproximadamente sete minutos que fez no encerramento da Marcha e não leva em consideração que durante o evento foram assinadas oito emendas que visam garantir a qualidade de vida das mulheres, incluindo o Pacto Nacional de Prevenção ao Feminicídio e  a retomada do Programa Nacional de Reforma Agrária.

Toda essa mobilização não seria conhecida pela maioria da população se dependesse da mídia tradicional brasileira

Já no texto do Estadão “Flávio Dino recebe apelo na Marcha das Margaridas”, vale destacar o título sensacionalista, uma vez que não houve diretamente um “apelo” feito ao Flávio Dino: o que aconteceu foram gritos de ordem que são comuns em qualquer manifestação. Como esses eram voltados contra o ex-presidente, a autora da matéria viu a oportunidade de criar um clickbait. Esse foi o único texto do jornal que destinou mais de dois  parágrafos para falar sobre a Marcha. Destaca-se ainda o fato da autora classificar como “curioso” o fato da Marcha ter como uma das reivindicações a luta por mais mulheres nos cargos de poder.

Marcha ganha espaço na mídia pública

A exceção à falta de cobertura e aprofundamento da Marcha das Margaridas foi o telejornal Repórter Brasil, da TV Brasil, emissora pública vinculada à Empresa Brasil de Comunicação (EBC). A Marcha das Margaridas foi a pauta que abriu o noticiário, que vai ao ar no horário nobre televisivo (das 19h às 20h), do dia 14, um dia antes do evento. A matéria, realizada por uma repórter mulher, contextualiza a Marcha das Margaridas e traz à pauta o marco de 40 anos do assassinato de Margarida Maria Alves, agricultora e sindicalista assassinada em 1983, que deu nome à Marcha. A matéria traz um trecho em vídeo de fala de Margarida, e a repórter menciona que o crime que vitimou Margarida Alves nunca foi solucionado e ninguém foi condenado, “A primeira Margarida se foi e se tornou semente”.

Na contramão do que foi visto no SBT Brasil, no Jornal da Record, no Jornal Nacional e também na Folha, n’O Globo e no Estadão, a matéria da empresa pública de comunicação traz informações detalhadas sobre a primeira edição da Marcha (em 2000) e traz também falas de duas das organizadoras da Marcha destacando a impossibilidade de diálogo com o governo (Bolsonaro) na Marcha de 2019, quando, pela primeira vez, não conseguiram entregar a pauta de reivindicações. Após a matéria, “para aprofundar ainda mais o tema da Marcha das Margaridas”, a âncora do telejornal, uma mulher negra, junto ao seu companheiro de bancada, entrevistam ao vivo no estúdio Mazé Morais, coordenadora geral da Marcha das Margaridas. Na entrevista, que se estende por mais de quatro minutos, são discutidas as reivindicações da mobilização, as mudanças desde a primeira Marcha e a programação da mobilização. A entrevista finaliza com o âncora dizendo para a entrevistada: “essa luta de vocês é algo para a gente aplaudir de pé”. Afinal, estamos falando da luta por direitos para as mulheres trabalhadoras e agricultoras familiares.   

Nos dois dias seguintes, 15 e 16, quando estavam acontecendo de fato as atividades da Marcha das Margaridas 2023, o telejornal segue apresentando matérias aprofundadas e com muitas informações sobre a mobilização. No dia 15, a cobertura continua, com matéria realizada por repórter que estava no local onde aconteciam as atividades da Marcha, ela destaca os 13 eixos temáticos, citando alguns deles. A matéria foca no tema da sucessão rural, que estava sendo discutido na roda de conversa temática das juventudes, e faz a ligação do tema com o acesso à terra, questão cara à mobilização. Quatro mulheres que participavam das atividades foram ouvidas pela reportagem e, depois da matéria, o apresentador do telejornal completa mencionando a programação do dia seguinte, quando aconteceria a Marcha propriamente dita, e a presença do presidente Lula para receber as reivindicações.

“Marcha das Margaridas: 100 mil mulheres marcham por direitos plenos” é o título da matéria veiculada no Repórter Brasil do dia 16. Já na chamada da matéria o apresentador cita algumas das medidas anunciadas pelo governo federal em resposta às demandas da mobilização: “Já começam os resultados práticos dessa Marcha das Margaridas”. A repórter desta vez é uma mulher negra e está acompanhando a Marcha, ela menciona que esta é a maior mobilização política de mulheres da América Latina e o quantitativo de mulheres presentes. A matéria de quase três minutos é repleta de imagens que mostram a dimensão e diversidade da Marcha. Novamente as mulheres que estavam participando da mobilização foram ouvidas sobre o que desejam e pelo quê estavam lutando. A reportagem menciona ainda que as reivindicações das Margaridas vieram de um processo de dois anos de diálogos regionais, e pontua as respostas do Governo às reivindicações da Marcha, como a retomada da reforma agrária, com prioridade para as famílias chefiadas por mulheres, o lançamento do programa quintais produtivos, e a criação do Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios. Além de trazer partes das falas de Lula (16 segundos), e da ministra das mulheres Cida Gonçalves (20 segundos) para as mulheres no ato de encerramento. 

A cobertura da comunicação pública, portanto, destoa dos veículos comerciais conforme monitoramos. Nota-se que em grande parte da mídia tradicional ainda é proposital o silenciamento das vozes das mobilizações sociais, trazendo citações rasas e insignificantes para eventos de grande interesse público. Tal situação demonstra a importância do sistema público de comunicação, que deve ser resguardado em sua autonomia a governos e imune à censura, atuando, conforme a Constituição estabelece, para a garantia de direitos, inclusive o direito à comunicação e à informação para toda população. Neste caso, o telejornal da EBC cumpriu o papel de realizar uma cobertura de qualidade da mobilização e repassar para a sociedade as suas demandas e os resultados que a mobilização conseguiu. Do lado de cá, seguimos atentas e defensoras da comunicação pública, para evitar que ameaças de censura e desmonte dos últimos anos, não se repitam, e para que possamos ter mais coberturas aprofundadas como esta.

Sara Brito é jornalista e trabalha há mais de 10 anos com comunicação para organizações e movimentos sociais

Tamara Lopes é mulher, negra, jornalista e artista multilinguagem; é mestranda em Comunicação pela UFC.

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