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Ameaça à militância canábica e à autonomia dos corpos

A repressão, sob Jair Bolsonaro, talvez não venha apenas dos “homens da lei”

Felipe Navarro (ilustração) - foto retirada do site antigo
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Se um dia a maconha for legalizada no Brasil, isso só vai acontecer quando o hábito de fumar a erva for moralmente tolerado por boa parte da população. A legalização social chegará antes da alteração na lei. Entretanto, a aposta em candidatos que alimentam uma cultura de intolerância, inclusive contra usuários de drogas, deixa essa mudança mais distante e sangrenta.

O discurso de Jair Bolsonaro contra o ativismo político não poderia ser mais direto. Se este candidato receber a faixa presidencial, a luta pela legalização da maconha terá desafios que podem deixar sequelas eternas na vida de muitos militantes.

A Marcha da Maconha é um exemplo. Até 2011 era comum juízes de diferentes cidades proibirem a manifestação, com uma esdrúxula tese de apologia ao crime. Felizmente o Supremo Tribunal Federal acabou com isso. Atualmente, organizar uma manifestação em defesa da legalização não é algo tão difícil. Basta notificar as autoridades, agitar a divulgação e colocar o bloco na rua.

Isso pode mudar com a cultura de intolerância alimentada pelos discursos de Jair Bolsonaro. Particularmente, tenho medo do que pode acontecer nas Marchas da Maconha de 2019 se este sujeito for o próximo presidente do Brasil.

O maior temor não é de censura pela justiça ou de ações abusivas de agentes de segurança. O inimigo da Marcha da Maconha pode ser qualquer um disfarçado de “cidadão de bem” que, estimulado pelo discurso do presidente, resolva acabar com essa forma de ativismo utilizando os próprios métodos.

A vida do maconheiro pode piorar em todos os aspectos. Até a relação com vizinhos incomodados com a marola provocada pela queima do baseado pode se tornar mais tensa. Temos a vulnerabilidade de estar sempre fora da lei, o que dá ainda mais respaldo para o “cidadão de bem” tomar alguma medida enérgica para acabar com um ato criminoso.

Pode parecer surpreendente, mas os maconheiros estão votando em peso no candidato que coloca a faca no pescoço deles. Nos grupos de Facebook destinados ao fumacê (alguns com mais de 200 mil integrantes) o debate político tem sido intenso. Os que defendem o Bolsonaro alegam que a legalização da maconha é algo de menor importância quando é preciso “arrumar o Brasil”. Esquecem que esse discurso de “mudar tudo isso aí” pode incluir o fim da liberdade de fumar e ser livre.

O momento é de estimular parte da população, inclusive os maconheiros, a se preocupar mais com a integridade de outros. É verdade que vida de um usuário de drogas ilícitas não é tranquila e a repressão abusiva por parte de agentes de segurança é frequente. Com a eventual vitória de Bolsonaro, a situação pode piorar.

Além da violência praticada por fardados, o maconheiro pode virar alvo de grupos intolerantes que vão se sentir com poder e protegidos pelo presidente que prega a intolerância nos discursos.

Como dito no início deste texto, as transformações sociais costumam chegar mais rápido que as eventuais alterações no texto da lei. Antes de Bolsonaro conseguir aprovar alguma mudança na Lei de Drogas, o ódio contra usuários pode se manifestar de forma brutal nas ruas.

A maior parte dos leitores da CartaCapital deve ser formada por gente que não utiliza drogas ilícitas, mas que provavelmente conhece alguém, inclusive na própria família, que pode sofrer com o crescimento desta intolerância.

A escolha do próximo chefe da nação não pode desconsiderar a preservação da nossa própria integridade e/ou daqueles que amamos. O voto, desejando o melhor para o Brasil, também deve considerar essas questões.

Hempadão é um blog especializado em cultura canábica atuante desde 2009. Jornalismo e entretenimento com pitadas de poesia e informação. Saiba mais em http://hempadao.com/ ou fale conosco em [email protected]

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