Um golpe bolsonarista, com policiais e milicianos, não produziria algo funcional

O governo faz água e o presidente vê no dia 7 de setembro uma oportunidade para tentar provar que 'o povo' está a seu lado

Foto: EVARISTO SA / AFP

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Fora da Política Não há Salvação

Às vésperas das manifestações fascistas do 7 de setembro, convocadas por Jair Bolsonaro, seu governo faz água por todos os lados – na economia, na popularidade, no apoio empresarial, nas relações institucionais e na política externa. É por isso, aliás, que o presidente tem na mobilização do feriado da Independência – como ele mesmo deixou claro – uma oportunidade. Disse a seus apoiadores que seria um ensejo importante, embora sem definir para quê. Diante da situação que vive, a chance buscada é de tentar escapar ao puro e simples fracasso – assim como à cadeia, como ele também já observou.

Mas como um presidente malogrado naquilo que se espera de alguém em sua posição – governar – pode vislumbrar saída na promoção de uma mobilização antidemocrática? As explicações são basicamente duas.

 

 

Em primeiro lugar, não se trata de um governo normal, voltado à formulação e implementação de políticas públicas, compondo uma agenda substantiva. A presidência de Bolsonaro configura um governo-movimento, mais voltado à ativação constante de sua base social com base em quimeras do que a resolver problemas concretos. Por isso cria constantemente cavalos de batalha baseados em absurdos, mas que têm a capacidade de inflamar os seguidores do “mito”, mobilizando-os (como para o 7 de setembro fascista) e contribuindo para a deterioração do ambiente político.

Em segundo lugar, a vocação autoritária do governo Bolsonaro torna necessárias suas seguidas investidas contra todo e qualquer freio que o Estado democrático de direito lhe coloque. Governadores e prefeitos não lhe prestam vassalagem? Que sejam atacados e sabotados. Os tribunais dizem não a seus caprichos? Que sejam deslegitimados e alvo da ira de “seu povo”. O Legislativo investiga seus malfeitos? Que se achincalhem os parlamentares responsáveis por isso. A imprensa dá notícias incômodas? Que se vitupere contra jornalistas e veículos. Atores internacionais contestam seus delírios? Que sejam objeto de comentários vis e zombaria.

Bolsonaro convoca seus seguidores às ruas para tentar provar que “o povo” está a seu lado.

Como todo populista, só considera como sendo povo aqueles que lhe apoiam. Os demais são “vagabundos”, “imbecis”, “idiotas” e tudo mais que o indigente repertório do “mito” puder conter de xingamento. É apenas para esse “povo” que supostamente governa (ainda que não governando); os demais atrapalham e, portanto, segundo a ótica bolsonaresca, sua ausência no 7 de setembro fascista preenche um vazio. Esses outros, quando se manifestam contra ele, nada mais são do que um bando de “maconheiros”, “pobres coitados”, “massa de manobra”, gente que “vive de esmola”.

Acredita Bolsonaro que com “seu povo” na rua, de forma massiva, será capaz de, ao mesmo tempo, intimidar os demais atores políticos e justificar alguma tentativa de ruptura da ordem institucional. Afinal, insinua ele, se “o povo” clama por essa ruptura, sua voz deve ser ouvida. E, como se sabe, “a voz do povo é a voz de Deus”, que está “acima de todos”.

Contudo, num aparente paradoxo, ao mesmo tempo que o cenário se deteriora, aumentando a possibilidade de uma onda de violência política bolsonarista, reduz-se a chance de um golpe bem-sucedido. Para isso, seria necessário apoio de segmentos relevantes – mídia, empresariado, políticos, potências estrangeiras, elites estatais. O atual morador do Alvorada não dispõe de nada disso.

Como deixou claro o imbróglio em torno do insosso manifesto empresarial, abortado pelo longevo oligarca da Fiesp, há muita insatisfação com os rumos desse desgoverno entre comandantes do PIB. Entre aqueles que o apoiaram para evitar “a volta do PT”, alguns começam a perceber, embora tardiamente, que apostar num desqualificado e seus prosélitos para conduzir o país talvez não seja uma ideia das melhores. Quem poderia pensar n’algo assim, não é mesmo?

Um golpe bolsonarista, com o apoio de bandas podres e tresloucados das polícias, milicianos dos mais variados matizes, empreendedores predatórios e lumpempolíticos, dificilmente poderia produzir algo funcional. E, mesmo que lograsse ocupar o poder por algum tempo, dificilmente teria um projeto minimamente consistente de país.

Se, enquanto ainda tinha que minimamente dar alguma satisfação e prestar contas, o bolsonarismo produziu a calamidade em que nos encontramos, imagine-se o que não faria sem ter qualquer limite? Por mais que tenha feito uma aposta temerária em 2018, boa parte dos membros de nossas elites vai se dando conta do erro cometido.

Isso ficou claro quando, depois da refugada do pato da Fiesp, setores mais modernos, internacionalizados e de maior valor agregado do agronegócio, cada vez mais insatisfeitos com Bolsonaro, soltaram uma nota bem menos insípida do que aquela outra, que já havia obtido pelo menos 200 assinaturas.

E, claro, não se deve ignorar um ponto. Se não bastassem as quase 600 mil mortes da pandemia, a destruição ambiental e o desmonte de setores relevantes da administração pública federal, há o fracasso econômico. Seria difícil que o prejuízo aos negócios, causado pelo desgoverno, não abrisse os olhos de quem, desde 2018, só quis ver o que seus preconceitos permitiam.

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Cientista Político na FGV-EAESP

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