Fora da Política Não há Salvação

Um espaço para discutir política, uma dimensão inescapável de nossa existência. Idealizado pelo cientista político Cláudio Couto.

Fora da Política Não há Salvação

Quem se compadece do sofrimento de Bolsonaro?

Por que agora seria de se esperar para com ele uma compaixão que fez questão de mostrar não ter por ninguém?

Foto: Reprodução/Redes Sociais
Foto: Reprodução/Redes Sociais
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Após diversos dias de férias, parte no Guarujá, no litoral paulista, parte em São Francisco do Sul, no litoral catarinense, Jair Bolsonaro teve de ser levado às pressas para um hospital na capital paulista, novamente em decorrência de uma oclusão intestinal.

Rapidamente, foi postada fotografia sua com uma sonda nasal, na cama do hospital, como a demonstrar a fragilidade da saúde presidencial. Simultaneamente a isso, bolsonaristas lembraram da facada desferida em Bolsonaro por Adélio Bispo, ressaltando serem esses recorrentes problemas intestinais nada mais que consequências das sequelas do atentado.

Nas redes sociais – sempre nelas – pulularam manifestações de escárnio dos críticos do presidente e seu governo. Houve até quem desejasse sua morte em meio aos dejetos fecais. Bolsonaro amealhou solidariedade somente entre seus apoiadores de sempre, que pediram orações para o mandatário enfermo e condenaram com veemência as demonstrações de falta de empatia e, ainda mais, os desejos de morte. Uma vez mais o lema irônico de “ódio do bem” foi brandido contra os que não se compadeceram do presidente.

E, por falar em ironia, é mesmo irônico que, até a véspera de sua internação, esse mesmo mandatário se esbaldasse numa farra à beira mar sem dar a mínima importância para o sofrimento dos governados flagelados por enchentes no sul da Bahia e norte de Minas Gerais. Foi cobrado por muita gente justamente por tal falta de empatia e compaixão para com aqueles que, pela natureza do cargo que ocupa, estão sob seus cuidados.

Bolsonaro preferiu delegar a terceiros – ministros e governantes locais – a responsabilidade por tentar resolver problemas e minimizar danos. Pouco antes de sentir as dores que alertaram para a necessidade de ser levado a tratamento médico, disse risonho a um apoiador que esperava não ter que regressar ao trabalho antes do dia 4 de janeiro. De fato, não regressou para a labuta; teve de ir voando para o hospital.

Foi tanta a indignação de seus apoiadores com o escárnio popular manifesto nas redes, que alguns deles exigiram até que o Supremo Tribunal Federal agisse contra isso. O pastor-deputado Marco Feliciano questionou no Twitter: “Alguma investigação, diligência ou atitude parecida será tomada com os donos das contas das mídias sociais que ameaçam e desrespeitam o Presidente Jair Bolsonaro? Ou só é crime qdo atacam V.Exmas?”

Ora, mas o que espera Feliciano? Que se criminalize a falta de empatia? Que se façam diligências contra quem deseja que o presidente exploda em excrementos? Com base em que legislação? O problema é ético e político, não de natureza legal ou judicial.

O problema de Bolsonaro é como o do pastor da fábula de “Pedro e o Lobo”. Na estória, depois de reiteradamente clamar por socorro dos aldeões, falsamente alertando para a chegada do animal selvagem, Pedro, o pastor, viu-se abandonado quando seu pedido de ajuda ocorreu por um perigo real, pois ninguém mais nele acreditava. Da mesma forma, depois de tantas vezes demonstrar completa falta de empatia e compaixão para com seus concidadãos, Bolsonaro se tornou incapaz de suscitar neles esses mesmos sentimentos. Pelo contrário, sua impiedade e, mais ainda, sua crueldade semearam nos demais o ódio contra si.

Foi noutro dia que esse mesmo presidente desejou que a ex-presidenta Dilma Rousseff morresse de câncer para deixar o cargo. Foi também há pouco tempo que ele mesmo votou por seu impedimento homenageando o criminoso que a torturou e escarnecendo de seu sofrimento nas mãos do canalha. Foi há menos tempo ainda, já na cadeira presidencial, que fez troça do sufocamento daqueles que agonizavam afetados pela Covid. Foi ele que decretou luto nacional uma única vez em três anos de mandato, mesmo em meio às mortes massivas causadas pela pandemia e às muitas perdas de brasileiros ilustres, de contribuições fundamentais para a cultura e a vida nacional de forma geral.

Por que agora seria de se esperar para com ele uma compaixão que fez questão de mostrar não ter por ninguém? A quem seus acólitos pensam enganar?

Mesmo para quem, diferentemente de Bolsonaro e dos bolsonaristas, tem humanidade, há limites. A paciência e a condescendência para com o mal são finitas.

Cláudio Couto

Cláudio Couto
Cientista Político na FGV-EAESP

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