Quando perceber o naufrágio do governo Bolsonaro, o Centrão o abandonará

Parlamentares da base governista têm um dilema: até que ponto compensa majorar o preço do apoio?

O presidente Jair Bolsonaro. Foto: AFP

O presidente Jair Bolsonaro. Foto: AFP

Fora da Política Não há Salvação

O governo de Jair Bolsonaro vive um momento difícil. Pressionado pela perda acentuada de popularidade de sua administração, constatada por todas as pesquisas recentes, e pela consequente queda nas intenções de voto favoráveis à sua reeleição, o presidente dá seguidas demonstrações de desespero.

Numa frente, bravateia contra a confiabilidade do processo eleitoral e das urnas eletrônicas, adotadas no País já há mais de duas décadas, sem qualquer indicação de que possa ter havido fraude em algum momento. Antecipando uma derrota eleitoral cada vez mais provável, dissemina a desconfiança e, agora, ameaça não concorrer caso seu capricho do voto impresso não seja atendido – até que não seria má ideia, não fosse tão inverossímil.

Diante do embaraço de ter que apresentar provas de que as fraudes que alega realmente ocorreram, anuncia que um “hacker do bem” (ou seja, a seu serviço) apresentará em breve evidências de que foram fraudadas as eleições de 2014, em que Dilma Rousseff bateu Aécio Neves por estreita margem.

A ver. Se não for mera bravata e de fato algo ocorrer, é de se esperar mais uma típica performance bolsonaresca, como as perpetradas por Onyx Lorenzoni, o irrelevante, ao apresentar a “fraude” das invoices da Covaxin, ou a apregoar a impossibilidade de medidas sanitárias conterem passarinhos e mosquitos, supostos vetores do vírus da Covid na fértil imaginação lorenzônica.

 

 

Se a frente eleitoral só traz notícias ruins para Bolsonaro, as coisas não são nada amenas do lado das investigações que o ameaçam e contribuem ainda mais para a erosão de sua popularidade. Por um lado, a CPI da Covid revela nexos antes inimaginados do boicote governamental às vacinas, mostrando que Bolsonaro superou o lema do “rouba, mas faz” – atribuído a seu antigo correligionário, Paulo Maluf –, substituindo-o pelo “rouba, mas mata” – bem mais ao gosto miliciano.

Por outro lado, na frente diretamente miliciana continuam avançando – ainda que a passos lentos – as investigações sobre a família presidencial. Algumas atingem Flávio, o 01, e as rachadinhas herdadas do pai; outras afetam Carlos, o 02, que além das rachadinhas também pilota o Gabinete do Ódio; outras chegam a Eduardo, o 03, que acompanha os familiares na peculiar prática de comprar imóveis em espécie; e, por fim, não escapa nem mesmo Jair Renan, o 04, que, ainda sem um mandato para agregar ao patrimônio do clã, ganhou presentes de empresas para as quais abriu as portas no governo, o que pode configurar tráfico de influência.

Pelo que se nota, na família nuclear do 00 apenas as mulheres – que Jair Bolsonaro tanto despreza – tem-lhe poupado maiores dores de cabeça: Michele teve arquivada a investigação sobre os cheques recebidos de Fabrício Queiroz e Laurinha, resultado de sua alegada fraquejada, é por demais jovem para se meter em enrascadas familiares.

Essa fragilidade crescente leva Bolsonaro e seus acólitos a dois tipos de investida. Por um lado, a da ameaça. O presidente alardeia que, caso seus caprichos não sejam atendidos, não haverá eleição. Já seus aduladores fardados trocam os quepes pelas carapuças e, sujos do sangue da carnificina sanitária que patrocinam e da lama da corrupção em que se meteram no Ministério da Saúde, ladram grosso. O presidente do Superior Tribunal Militar afirma que a oposição estica demais a corda e que o povo brasileiro “precisa saber votar”; o comandante da Aeronáutica ameaça dizendo que homens armados não ameaçam; um general de pijama, levado para o Ministério da Saúde, afirma que mata, morre e faz coisas piores.

Por outro lado, o governo aprofunda seus laços com a banda mais fisiológica da política brasileira, representada pelos políticos e partidos de adesão que compõem o Centrão. O convite para que o senador Ciro Nogueira, presidente do Progressistas, substitua um general na Casa Civil, é mais uma indicação da situação de necessidade em que se encontra o presidente.

Já não se trata mais da esperada construção de uma coalizão de sustentação, necessária a qualquer governo no presidencialismo de coalizão brasileiro e, normalmente, estruturada antes mesmo da posse.

Produzido com um ano e meio de atraso, o pacto militar-fisiológico é para Bolsonaro um instrumento de proteção, muito mais que de construção. E, quanto mais de proteção precisa, mais é obrigado a ceder. O custo-Centrão só faz subir.

O problema é que há limites para esse custo. Eles valem menos para o governo, sem maiores propósitos programáticos que não a destruição de instituições e políticas longamente construídas desde a redemocratização. Para tal administração, ceder mais e mais ao Centrão não chega a comprometer algo que já estava comprometido por sua própria natureza. O problema, a bem da verdade, se coloca para o próprio Centrão: até que ponto compensa majorar o preço do apoio?

Enredar-se com um presidente cada vez mais tóxico é custoso até mesmo para políticos apegados a muita fisiologia e sem maiores pruridos com reputação moral ou consistência programática. Para eles, assegurar a satisfação material de suas bases eleitorais, de seus financiadores e de si mesmos é o que conta. Por isso mesmo, se os danos de sua associação ao caos governamental se tornarem significativos, será difícil cobrir o prejuízo apenas majorando o preço do aluguel de apoio; é aí que se impõe o momento do desembarque.

Em política, tempo não é tudo, mas é parte substancial. Já se passou um ano da entrada no ministério do deputado Fábio Faria, genro de Sílvio Santos. À época, alguns acreditavam que, além de melhorar a comunicação governamental, o deputado do PSD pudesse contribuir para melhorar as relações presidenciais com o Congresso e as demais instituições.

De fato, Bolsonaro avançou algumas casas nas relações com o Legislativo, elegendo os presidentes da Câmara e do Senado e ganhando especialmente em Arthur Lira um aliado importante. Contudo, ao se sentir confortável com tal retaguarda, também se viu mais à vontade para manter o ímpeto de investida contra a ordem institucional. Hoje é Fábio Faria quem se viu radicalizado, ao ponto inclusive de já ter sinalizado sua saída do PSD de Gilberto Kassab, que cada vez mais se descola do governo.

Ingressando no ministério um ano depois de Faria, Ciro Nogueira não entra nas mesmas condições; a margem de manobra para corrigir os rumos diminuiu muito. Tanto parece improvável que o presidente do PP se radicalize (como ocorreu com o genro do Sílvio), quanto é esperado que, notando a inevitabilidade do naufrágio governamental, opte pelo desembarque. E dificilmente desembarcará sozinho.

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Cientista Político na FGV-EAESP

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