Fashion Revolution

Uma década do desabamento do Rana Plaza: ainda precisamos perguntar quem fez nossas roupas

Na Semana Fashion Revolution 2023, campanha destaca os 10 anos do desastre de Bangladesh e a necessidade de mais transparência na indústria da moda

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No dia 24 de abril de 2013, o Edifício Rana Plaza em Dhaka, Bangladesh, ruiu, evidenciando a negligência às condições básicas de trabalhadores do setor da moda. Foram mais de mil vidas perdidas, dando origem a diversos protestos, entre eles, o Fashion Revolution – campanha que tornou-se mundial e completa dez anos em 2023. Para evidenciar a necessidade de ainda perguntarmos “Quem fez minhas roupas?”, a Semana Fashion Revolution tem como tema o Manifesto pela Revolução na Moda, com 10 pontos que reforçam a visão rumo uma indústria da moda que conserve e restaure o meio ambiente, e valorize as pessoas acima do lucro. 

Usando os dez pontos do Manifesto pela Revolução na Moda como ponto de partida, o movimento pretende mobilizar pessoas, amplificar vozes não ouvidas ou marginalizadas, e trabalhar em prol de soluções efetivas para a indústria da moda. Com a movimentação de representantes em todo o país, a campanha realiza, este ano, mais de 500 eventos, online e presenciais. “Se cada evento tiver 5,6 participantes, estamos falando de uma mobilização de norte a sul do país com mais de duas mil e quinhentas pessoas”, afirma Fernanda Simon, diretora-executiva do Fashion Revolution Brasil. 

A necessidade de mudanças estruturais na indústria é urgente: na última década, o debate em torno da moda mais sustentável ganhou espaço, mas o progresso real é lento –  considerando o contexto da crise climática e da crescente injustiça social. Segundo o Índice de Transparência da Moda Brasil 2022, a média de pontuação de transparência das 60 grandes marcas analisadas no território brasileiro foi de 17% – uma queda de 1% em relação a 2021. O documento destaca que apenas 33% das 60 marcas publicam listas de fornecedores à nível 1. Esse valor cai para 28% nas listas de instalações e processamento/beneficiamento e 8% para os fornecedores de matérias-primas. 

Partindo da transparência da cadeia de fornecimento aos salários dignos, do desperdício têxtil à apropriação cultural, da liberdade de associação à biodiversidade, da luta antirracista a equidade racial e de gênero, o Fashion Revolution Brasil compartilha soluções para os problemas socioambientais relacionados à indústria.

Foco na equidade racial e de gênero

O Manifesto pela Revolução da Moda chama a atenção para dois pontos fundamentais para ampliar o debate sobre raça e gênero na indústria da moda: 

4 – Que a moda respeite as heranças culturais, celebrando e fomentando a artesania e honrando os artesãos e artesãs. Que reconheça a criatividade como seu ativo mais forte. Que não se aproprie de nada sem permissão ou reconhecimento“. 

5 – Que a moda fortaleça a solidariedade, inclusão e democracia. Que lute contra opressões de gênero, raça e classe e contra tudo que exclui. Que reconheça a diversidade como seu sucesso“.

Esse enfoque tomado pela Semana Fashion Revolution 2023 busca combater cenários preocupantes descobertos pelo Índice, como o fato que apenas 32% das marcas pesquisadas divulgam ações com foco na promoção de igualdade racial entre seus funcionários. O número cai para 7% quando buscamos pela divulgação de programas de desenvolvimento de carreira, voltados para a redução de desigualdade entre raças e à promoção de oportunidades de crescimento. Isso pode ser um indicador de que as marcas ainda estão no início de suas jornadas antirracistas. 

Outra evidência é a baixa porcentagem (15%) de marcas que publicam a distribuição por cor ou raça, por cargo, de seus funcionários. Quanto ao recorte de gênero, apenas 27% das marcas analisadas divulgaram dados sobre os trabalhadores e trabalhadoras empregados, e 23% delas a quantidade de trabalhadores migrantes em cada instalação. Vemos um leve progresso: em 2018, nenhuma marca divulgava essas informações, mas como salientado, ainda não é o necessário diante da realidade atual. 

Sendo 80% da sua mão de obra mundial, e mais de 60% no caso brasileiro, composta de mulheres, essa indústria precisa olhar, representar, e por as mulheres em evidência. Mas, por hora, a maior parte do poder e dos lucros da indústria permanece fora de seu alcance. Dados alarmantes mostram que grande parte dos trabalhadores da indústria do vestuário não recebem remuneração suficiente para permitir um padrão de vida decente, com acesso à alimentação, água, moradia, educação, saúde, transporte, roupas e reserva para eventos inesperados. 

Enquanto isso, as marcas analisadas no Índice estão entre as que mais faturam, e algumas possuem donos e executivos entre as pessoas mais ricas do mundo e do Brasil sob seu comando.

Como participar da Semana Fashion Revolution 2023 

A programação já está disponível no site e nas redes sociais, e foi construída colaborativamente por cerca de 70 representantes locais e aproximadamente 110 docentes e 85 estudantes embaixadores, todos compondo uma rede voluntária espalhada pelo Brasil todo.  “A rede de representantes locais e embaixadores é o maior tesouro do movimento FR Brasil. Elas amplificam as vozes locais, conectando regiões e culturas, trazendo olhares diferentes e regionais para o debate da moda nacional que clama por pluralidade e diversidade”, diz Marina de Luca, coordenadora de Mobilização do Fashion Revolution Brasil. 

A moda precisa estar atrelada à vida e à prosperidade. Fazer parte da construção de sociedades justas, alinhadas com a natureza, em ciclos regenerativos, onde desastres como o Rana Plaza nunca voltem a acontecer “, reforça Fernanda.

Envolva-se na campanha! Pergunte: “Quem fez minhas roupas?”, “Do que são feitas minhas roupas?”, “A cor de quem fez minhas roupas”, para marcas que você consome e gosta – e vamos fazer uma revolução na moda.

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