Fashion Revolution

Como revolucionar a moda: o advocacy como ferramenta de justiça socioambiental

A indústria da moda pode sim promover uma mudança sistêmica para combater a pobreza, as desigualdades e a degradação ambiental – mas, para isso, precisamos mudar também a legislação

Créditos: Fashion Revolution Brasil
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Qualquer pessoa pode revolucionar a moda. Eu, você, todos nós que buscamos trabalho digno, melhores condições de vida, respeito ao meio ambiente e os animais. O advocacy – importante ferramenta social para formular e pressionar por políticas públicas – é uma destas formas. E a indústria da moda precisa ser revolucionada, pois se continuarmos produzindo e consumindo na velocidade atual, o impacto climático da moda aumentará 49% até 2030.

O Fashion Revolution se propõe a isso: por meio de pesquisa, educação e advocacy, o movimento incentiva a busca por mais transparência e responsabilidade na indústria da moda. Falamos de uma indústria que, somente no Brasil, é o 2º maior empregador da indústria de transformação (ABIT), contendo uma mão de obra de 1,33 milhão de empregados formais (IEMI 2023), com 8 milhões adicionais, referente a empregos indiretos e efeito renda – dos quais 60% são mulheres.

Ainda assim, a indústria da moda convencional funciona sob a lógica da exploração do trabalho, de recursos naturais e saberes de povos historicamente marginalizados. A exemplo, os diversos casos de escravidão contemporânea em oficias de costura, o impacto do desmatamento no Cerrado devido à monocultura do algodão, a contribuição das roupas de fibra sintéticas, proveniente do petróleo, para a poluição plástica nos oceanos.

A moda precisa de mudanças estruturais e o advocacy é ferramenta para sua consolidação. Diante dessa máxima, o Fashion Revolution Brasil acrescentou quatro novos indicadores no Índice de Transparência da Moda Brasil 2023 (ITMB23), sendo o primeiro para averiguar se as marcas divulgam a média do salário líquido mensal dos trabalhadores em nível iniciante da instalação, excluindo horas extras. “Este indicador busca contribuir, a partir das marcas brasileiras, com a campanha de advocacy do Fashion Revolution na União Europeia para uma proposta de legislação sobre salários justos no setor têxtil, de vestuário, couro e calçados, a Good Clothes, Fair Pay”, aponta o relatório.

Por aqui, como destaca o relatório Mulheres na Confecção, “em decorrência do processo de terceirização e quarteirização dentro da cadeia da moda, 98% da produção nacional é realizada por micro e pequenas empresas, com foco em um produto barato e de baixo valor agregado”. A flexibilização das leis trabalhistas brasileiras e o aumento da formalização via MEI trouxe mais benefício a figuras empregadoras – afirma o documento – que não estão dispostas a garantir melhores condições de trabalho para seus trabalhadores.

A busca por melhores condições de trabalho para trabalhadoras da indústria por meio do advocacy são luta constante de organizações como o Instituto Febre, CNTVCUT, Marcha das Margaridas.

Mudanças sistêmicas

Quando presente na COP28, o Fashion Revolution Brasil se uniu às organizações Eco Age, Stand.Earth, Actoion Speaks Louder e Transformers Foundation para exigir compromisso da indústria da moda para combater as mudanças climáticas – e com soluções já presentes no meio. Uma delas foi o fim da utilização de combustíveis fósseis nas cadeias de fornecimento. Ele não só está presente na produção das fibras sintéticas, mas também no uso de energia e transporte por parte dos fornecedores.

As demandas são de que as marcas ajam em prol da descarbonização, divulgando planos de como iriam cortar o petróleo de suas fibras, as emissões anuais da cadeia de abastecimento e o mix de combustíveis por país, entre outras. Em tempos de debate sobre o Tratado Global dos Plásticos, essas exigências precisam de apoio de todos os lados, pois é imprescindível a diminuição da pegada de carbono do setor.

Outro ponto, que mexe mais diretamente com a legislação brasileira, é sobre os resíduos, que, como já falamos, nem mesmo são quantificados corretamente no país. Os resíduos têxteis ainda estão fora da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), lei que determina como o país lida com seu lixo.

Existem tentativas, como o PL 270/22, que cria um sistema nacional de logística reversa para os diferentes tipos de resíduos têxteis, de Nereu Crispim (PSL-RS), que está parado na Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável desde abril de 2022. Já na Alesp está o PL 610/2023, que Institui a Política Estadual de Pagamento por Serviços Ambientais para recicladores.

Uma moda de acordo com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) é uma moda que se preocupa com a sustentabilidade em todos os seus elos produtivos, é por isso que o Fashion Revolution Brasil participa das campanhas Moda Sem Veneno e Cânhamo é Revolução – ações de advocacy que buscam incentivar debates a cerca de fibras mais sustentáveis e o fim do uso de agrotóxicos no campo.

É possível que a indústria da moda tenha uma mudança sistêmica que enfrente a pobreza, desigualdades e degradação ambiental, mas, para isso, precisamos mudar também a legislação. Marcas e varejistas precisam ser responsabilizados pelos abusos ambientais e violações de direitos humanos em toda sua cadeia de suprimentos. Todos podemos revolucionar a moda – participe você também dessa transformação com o Fashion Revolution Brasil.

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