Fashion Revolution

Se o lixo é um erro de design, qual é o papel do designer de moda? 

O lixo e a indústria da moda. Onde estamos? 

Imagem: Cottonbro para Pexels
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Delimitados a um sistema linear, já bastante “démodé”, seguimos em ritmo frenético, condicionado à exploração, alta produtividade, consumo exacerbado e costurado à obsolescência das coisas e descarte de artigos de moda como commodities. Sem tempo, pulsão criativa ou qualquer entrega de valor que se faça presente. Materializando um modelo socioeconômico fadado ao fracasso. 

De acordo com alguns dados compartilhados pela ABIT [Associação Brasileira da Indústria Têxtil e Confecção] em 2020, o Brasil produziu 7,93 bilhões de novas peças – contra 9,05 bilhões em 2019. Algo em torno de 1,91 milhões de toneladas têxteis. No mundo todo, estima-se que sejam confeccionadas, aproximadamente, 150 bilhões de novas roupas – a cada ano [e ainda não somos 8 bilhões de pessoas…]. O que vemos são coleções completamente desconectadas com as relações sociais, elaboradas de maneira pouco estratégica, descoladas de necessidades cotidianas, sugestionadas exclusivamente para atender os novos anseios de plataformas digitais e o ticket médio de grandes corporações. 

Outros estudos indicam que, pelo menos, 30% de todos os itens produzidos globalmente nunca são comercializados. Números que impressionam e relacionam problemas envolvendo a reciclagem, o alto volume de descarte têxtil em aterros, lixões, incineradoras e tantos outros espaços. 

Em janeiro de 2022, um “cemitério de roupas” ganhou as manchetes e reacendeu a discussão acerca do tema. Localizado no deserto do Atacama, na cidade de Iquique – que fica a cerca de 1.800 km da capital Santiago – o grande lixão têxtil chama a atenção pela quantidade de peças acumuladas. Estima-se que, pelo menos, 40 mil toneladas estejam sendo enviadas a esse local anualmente. E, para que possamos compreender esse recorte, precisamos entender como essas peças chegam até lá. 

O “comércio” de segunda mão opera de forma legal, na Zona Franca de Iquique. Mais conhecida como Zofri. As cerca de 50 importadoras, instaladas na região, são responsáveis pelo recebimento de dezenas de toneladas de artigos usados do mundo todo – especialmente Estados Unidos e países da Europa. De acordo com o OEC [Observatório de Complexidade Econômica], plataforma que registra diferentes atividades econômicas pelo mundo, o Chile é o maior importador de roupa de segunda mão na América do Sul. 

A maior parte das peças são doadas a algum tipo de instituição e, o que não é aproveitado [ou endereçado corretamente] segue para regiões como Chile, Índia ou Gana. Após uma espécie de triagem, o que não é considerado “vendável” – por conter pequenos defeitos, manchas ou outro tipo de imperfeição, acaba no lixo. Segundo um dos responsáveis pela área de meio ambiente na municipalidade de Alto Hospicio, estima-se que 60% do que é importado é resíduo ou descartável. Vale lembrar que no Chile, é proibido destinar resíduos têxteis a depósitos legais e tudo que acontece nesse trajeto é parte de uma operação articulada de maneira ilegal e subsídiada por pagamento à quem se disponibiliza a realizar tal manejo. 

É importante destacar que, em meio às pilhas de “lixo”, também são encontrados: calçados, bolsas e diversos outros acessórios. Para além do produto pelo produto, não podemos esquecer da falência sistêmica por melhorias acerca das embalagens que acondicionam e viabilizam a venda e entrega dessas peças. Segundo a Ellen MacArthur Foundation, mais de 20% de todo o plástico produzido é destinado para embalagens e 72% dele é jogado no lixo. 

Modelagens mais inteligentes à favor da circularidade: O papel do designer de moda 

O Sebrae [Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas] identifica o designer como aquele capaz de propor soluções criativas e inovadoras ao mercado onde está inserido. Além de compreender o design como: uma atividade responsável pelo planejamento, criação e desenvolvimento de produtos e serviços. Um processo que busca soluções criativas e inovadoras para atender características dos produtos, necessidades do cliente e da empresa de forma sintonizada com as demandas e oportunidades do mercado. Mas como isso vem sendo desenrolado na prática? 

Se de um lado ainda assistimos a inúmeros profissionais desgastados, presos a grandes players do mercado, se deparando com um cenário de ritmo massacrante onde até 100 novas coleções são criadas [sucateadas] a cada ano, do outro acompanhamos um levante – mesmo que tímido e silencioso, de quem está sendo fronte a mudanças verdadeiramente revolucionárias. Estilistas que desafiam o status quo e se mostram como agentes de transformação. Rompendo padrões e sendo fiéis à uma entrega mais propositiva. 

Modelagem afetiva, circular, mais inteligente, zero waste, upcycling, customização e tantos outros nomes começam a costurar esse novo presente. Amparado por estímulo ao pensamento crítico, empatia, sustentabilidade e impacto positivo. Capazes de resgatar etapas criativas, funcionais e humanizadas. 

Para falar mais sobre esse tema e aprofundarmos nesse assunto, tivemos o prazer de bater um papo com a Monayna Pinheiro. Estilista graduada em Moda pela Faculdade Santa Marcelina (FASM), especialista em Estética e Gestão de Moda (ECA-USP), possui mestrado profissional em Comunicação pela Universidade de São Paulo, entusiasta da sustentabilidade, professora de moda em grandes instituições de ensino e empreendedora da marca de acessórios para o corpo e pra casa, Nós mais Eu

Julia Codogno para Fashion Revolution: Mona, como designer, professora e atuante no mercado há tantos anos defendendo um presente mais sustentável, como você vê a educação em moda nos dias atuais? Estamos possibilitando uma formação mais crítica e conectada com as demandas (reais) do mercado? 

Monayna Pinheiro: Julia, eu acredito que a consciência sobre os impactos da indústria já reverbera ao ponto dos alunos ingressarem no curso de moda com uma postura mais crítica e com um repertório maior sobre o assunto. Quando eu me formei, há 20 anos atrás, nada

disso era questionado e ficávamos impactados pelo discurso da “democratização” da moda rápida. Hoje os alunos entendem a problemática e a questão dos impactos do fast fashion e do ultra fast fashion, por exemplo, pois eles “cresceram interagindo” com este tipo de produto e este recorte de moda. Discutimos muito em sala sobre a questão do consumo e do pertencimento na moda. Eu sempre falo que a questão do fast fashion “não é uma conta simples” de ser resolvida e não podemos demonizar, mas sim, estabelecer uma postura crítica e questionar as marcas, o estado, legislação vigente e nossas próprias ações como consumidores. 

Julia Codogno para Fashion Revolution: Ainda falando sobre a relação entre designer e o desenvolvimento de produtos mais propositivos, o que você compreende como modelagens mais inteligentes e responsáveis? 

Monayna Pinheiro: Tem um estudo que foi divulgado pelo próprio Fashion Revolution que indica que 80% do impacto ambiental que um produto gera, pode ser reduzido no momento da criação/design de uma peça. 

A questão é que as roupas que produzimos DEVERIAM ser duráveis o suficiente para ter um longo ciclo de vida útil em nosso guarda roupa. Mas, infelizmente, na nossa indústria a questão da durabilidade e reciclabilidade das peças ainda não é efetiva. Percebemos que a indústria da moda não está focada nessa questão. Quando você desenvolve uma peça com potencial de reciclabilidade, muitas vezes você abre mão da durabilidade, e quando você projeta um design para a durabilidade, a reciclabilidade é muitas vezes sacrificada. A maioria das confecções ainda opera em um ciclo de vida linear (EXTRAÇÃO, MANUFATURA E DESCARTE). Logo, isso gera uma enorme quantidade de resíduos “descartados”, enviados para o aterro sanitário ou incinerados. 

Uma saída seria a migração para o sistema circular, (moda circular) aliviando a pressão sobre os recursos virgens e reduzindo o número de têxteis usados que acabam com destinação errônea. Se conseguíssemos que a moda fosse circular, em um sistema fechado, nenhuma peça de roupa iria para o aterro sanitário. Os materiais de vestuário percorreriam infinitamente as fábricas têxteis e de vestuário, lojas, armários, brechós, recicladores têxteis, etc. É urgente conseguirmos aplicar metodologias de circularidade no processo fabril, para que essa transição seja efetiva. 

Julia Codogno para Fashion Revolution: Diante de tantas possibilidades crescentes, o que você já vê acontecendo positivamente no mercado? Você pode falar pra gente sobre as técnicas existentes e como elas funcionam na prática? Também esteja à vontade para partilhar marcas, negócios e inspirações. 

Monayna Pinheiro: Eu tenho me interessado muito em pesquisar estratégias de produção relacionadas à circularidade, principalmente na área de modelagem e “engenharia” – construção de peças, como modelagem desperdício zero, upcycling, modularidade, etc. Eu acredito que apesar de muito desafiador, aplicar esse sistema produtivo em larga escala na indústria de moda é fundamental. Vou fazer um breve resumo de cada um deles: 

Modelagem Zero Waste: A técnica de modelagem Zero Waste ou sem resíduos é basicamente uma forma de adaptar o molde das roupas, para que NÃO TENHA desperdício

de tecido! Em média, de 15% a 20% do tecido novo é descartado logo após o corte, sem nem chegar a virar a roupa. 

A Modelagem Zero Waste ou Resíduo Zero, busca um novo processo de criação e modelagem de peças de roupas, que utiliza a matéria-prima de forma integral no desenvolvimento das peças. Propondo novas estratégias de construção e volumetria das roupas. 

Já o Design Zero Waste é uma importante alternativa para o desenvolvimento de produtos com redução do desperdício ao longo da cadeia produtiva. Ele tem como foco a minimização do desperdício nas fases de design, modelagem, e confecção, proporcionando nova abordagem ao desenvolvimento de produto, conhecido como Resíduo Zero. Este princípio busca eliminar o descarte de tecido, não gerando resíduos têxteis durante o processo de confecção da roupa. 

Existem várias metodologias no Zero Waste e a designer neozelandesa Holly McQuillan é uma referência na integração desse método em seu processo produtivo. Ela tem como ponto de partida uma ideia fora do comum – um detalhe de uma roupa, ou mesmo uma silhueta definida a partir de uma parte do corpo. Só então ela começa seus estudos de como se dará o encaixe dos moldes, levando em conta o tecido a ser utilizado – largura e caimento. Aqui no Brasil, temos o trabalho da Tsuru Alfaiataria. Que utiliza da totalidade do tecido na criação das peças, fazendo uso de alças, botões encapados e revel. Adoro analisar a modelagem das peças e entender mais sobre a criação deste modelos. Também sou a apaixonada pelo trabalho do americano Daniel Zero Waste, que utiliza retalhos de tecido presentes no estoque de seu ateliê. Diferente de outros designers, ele não cria peças com grandes volumetrias ou modelagens complexas, mas utiliza os retalhos para aplicações, criando desenhos e estampas por meio dessa configuração. 

Upcycling: Upcycling ou referenciando Vicente Perrotta “transmutação têxtil” talvez seja um dos processos mais “conhecidos”. Ele envolve o reaproveitamento de materiais já utilizados como roupas, aviamentos ou retalhos (sobras) de tecidos para a fabricação de peças. Agregando maior valor a um produto ou material. Na prática podemos falar que são peças de roupas que seriam descartadas e, por meio de interferências na modelagem, e reconstruímos e damos um novo status àquele artigo. 

Existem diversos estilistas e estúdios criativos fazendo trabalhos incríveis e estabelecendo metodologias para o Upcycling como: Comas, Transmuta, Ventana e até estilistas independentes como: Ego Oliver. Que disponibiliza na rede, tutoriais utilizando todo tipo de material: pano de prato, cobertor, saco de ração… A criatividade não tem limite! 

Rework: Possui um conceito muito parecido com o upcycling. O termo significa retrabalho, proposta de que algo já estava pronto mas foi retrabalhado de alguma forma. Designando a estética de peças que não escondem que foram recicladas. Com costuras aparentes, cores diferentes, recortes e uma imagem de retalhos utilizando costura de overloque. Também podem ser adicionados bordados, costuras aparentes e outras aplicações. Deixo o perfil @ruacarlota para vocês conhecerem. 

Design Modular: O Design Modular faz com que as roupas não sejam mais consideradas um produto completo, mas sim, um todo. Composto por vários módulos independentes, que

quando conectados, possam interagir entre si, permitindo um intercâmbio de peças ou sua substituição. O conceito de modularidade na moda pode desempenhar um papel muito importante no ciclo de vida de um produto, pois facilita a modificação da “estética da peça” possibilitando várias peças em uma única, além da manutenção (reparo) e reciclagem mais eficientes. Para um design modular eficaz, é fundamental entender a complexidade não apenas da modelagem e das formas, como também os mecanismos utilizados para encaixe dos módulos e seu potencial impacto no desempenho econômico, ambiental e social. Aqui, compartilho os trabalhos de: @flavialarocca e @mementomori_mmm. 

Julia Codogno para Fashion Revolution: Mesmo com tantas possibilidades, a gente sabe que ainda precisa de muito para avançarmos. Percebemos alguns pontos de atenção, como: falta de capacitação ou resistência quanto à estética adquirida. Na sua opinião, quais são as maiores dificuldades ou vulnerabilidades em trabalharmos com tais técnicas ou formatos? 

Monayna Pinheiro: Pensando na lógica produtiva, já temos disponível softwares que otimizam o encaixe das modelagens no mapa de corte, buscando minimizar resíduos e, é claro, gerar mais lucro. Temos também softwares como o CLO3D que possibilita a construção da roupa diretamente no sistema. Desta maneira, conseguimos avaliar o caimento e acabamento das peças, sem precisar confeccioná-las. A vantagem é obtermos um consumo bem mais assertivo de matéria-prima. O desafio ainda é aplicação em escala produtiva, principalmente em relação a modelagem zero waste, pois são processos que necessitam de uma outra estratégia produtiva. Também temos carência de mão de obra qualificada. 

Do ponto de vista do consumidor, temos o desafio de quebrar alguns estigmas, com relação a estas técnicas, como upcycle, por exemplo. Costumam ocupar o imaginário de peças “sem design”, ou valor agregado. Gosto sempre de divulgar marcas que tenham uma linguagem contemporânea para conseguirmos quebrar essa primeira resistência, e entender que o mercado de luxo já faz uso do upcycle em diversas coleções. 

Julia Codogno para Fashion Revolution: Para quem está em formação ou já está atuando na indústria, quais dicas você poderia compartilhar para que sejam implementadas tais possibilidades? Por onde começar? 

Monayna Pinheiro: Primeiramente se interessar. Se sentir instigado para iniciar a implementação desses o processo e experimentações. Quanto maior o número de marcas e profissionais que colocarem essas estratégias de circularidade em prática, mais nosso mercado poderá migrar para uma economia circular. 

O presente precisa ser circular. 

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