Precisamos voltar os olhos para os povos originários e tradicionais

Proteger, garantir e respeitar a existência de outros povos do Brasil é imprescindível para a construção de um País mais justo e sustentável

Rozauro dos Santos, ribeirinho do Baixo Madeira

Rozauro dos Santos, ribeirinho do Baixo Madeira

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Faz oito anos desde a primeira vez que pesquei com Rozauro. Ele de arco e flecha, eu de linhada. Rozauro dos Santos, 49 anos, é um dos 11 filhos que Dona Dídima, mulher ribeirinha, criou na Ilha dos Periquitos, região do Baixo Madeira em Rondônia.

Rozauro lembra com nostalgia quando jogava futebol com seus irmãos, brincava de peteca (espécie de bola de gude feita da resina de árvores) e de andar em tamancos (perna de pau que eles mesmo construíam). Enquanto se divertiam no quintal da casa, que se estendia até a margem do Rio Madeira, Dona Didma alertava Rozauro e seus irmãos “Cuidado com o Mapinguari!”, monstro lendário da Amazônia.

Quando saiam para pescar ou colher açaí e castanha na floresta, ficavam atentos para não serem distraídos pelo Curupira ou pelo Índio Juma. “Não faltava nada, tínhamos uma vida simples mas com muita fartura”, diz Rozauro. Do porco que criavam, aproveitavam a gordura e a carne, das plantas extraiam seus remédios, da plantação de macaxeira feita por seu pai Avelino, faziam farinha e beiju. Dona Didma criava patos e galinhas, não faltava ovos. Da plantação da cana era usado o mel para adoçar os alimentos. A terra era muito fertil, as fruteiras tomavam conta do imenso quintal. As folhas do açaizeiro eram trançadas em jacaré e viravam telhado da casa ou paneiro (cesta para carregar açaí e outros frutos).

As roupas da família eram costuradas por Dona Didima. Rozauro relata, com um brilho no olhar, a vida simples e feliz na Ilha dos Periquitos e revela não ter qualquer apreço pela vida na cidade. A família de Dona Didma é uma das milhares que vivem às margens de rios na região Amazônica.

O estado de Rondônia, especificamente, recebeu um grande fluxo migratório de povos do sertão nordestino, que fugiam da seca e da fome no final do séc. XIX. O Estado, que já havia sido explorado por bandeirantes, agora era objeto de atenção por ser rico em seringueiras nativas. Mas precisava-se abrir a floresta para escoar a produção do látex. Em 1878 deu-se início a construção da Ferrovia Madeira Mamoré pelo empreendimento Madeira-Mamoré Company, dos irmãos americanos Philips e Thomas, mas foi declarada a falência da empresa no ano seguinte. Em 1912 foi concluída a Ferrovia Madeira Mamoré, que ficou conhecida como “Ferrovia do Diabo” devido ao grande número de vidas perdidas por doenças como malária e disenteria, falta de medicamentos, fome, além das condições precárias de trabalho.

Segundo o antropólogo Darcy Ribeiro, o ciclo da borracha na Amazônia atraiu meio milhão de nordestinos. Contudo, as sementes das seringueiras nativas foram levadas (roubadas) para a Malásia. Em pouco tempo o investimento dos ingleses foi retirado da Amazônia e investido no país do sudeste asiático. Abrir a floresta amazônica não foi tarefa fácil de executar. Quem sabe se os povos tradicionais da região tivessem sido consultados, seu conhecimento poderia ter sido de utilidade.

 

Seringueiros ribeirinhos

Pois bem. Esses migrantes seringueiros construíram seu novo estilo de vida a partir da vivência na floresta e do relacionamento com os povos indígenas presentes nos mesmos territórios. Constituem-se então os ribeirinhos, também conhecidos como beradeiros, que sobrevivem da pesca e do extrativismo (o jeito ribeirinho de garantir sua sobrevivência mantendo a floresta de pé). Ribeirinhos e seringueiros sabem que precisam da floresta para existir. Eles fazem parte do chamado “povo novo”, termo usado por Darcy Ribeiro para explicar o surgimento de uma nova etnia nacional que miscigena o índio, o branco e o negro.

 

A nova vida

Quando Rozauro tinha 13 anos, a Ilha dos Periquitos foi submergida pelo Rio Madeira, devido a fatores naturais intensificados pelo garimpo. Então Rozauro e sua família se mudaram para a comunidade de São Carlos, também à margem do Rio Madeira.

Em 2008, por causa do potencial hídrico da região, iniciou-se a construção do complexo hidrelétrico do Rio Madeira, que de acordo com o pesquisador Rangel Eduardo Santos, da UFMG, causou a diminuição de 39% da produção de pesca anual, maior fonte de renda dos ribeirinhos. Quem mora nas zonas urbanas também não ficou muito satisfeito: a conta de energia de uma família chega a R$700,00/mês em Porto Velho, capital do Estado. Umas das taxas mais caras do país.

Em 2014, houve uma grande cheia no Rio Madeira, uma das maiores da história, que novamente, além de causada por fenômenos naturais, foi intensificada pelos impactos do complexo hidrelétrico. Muitas comunidades da região do Baixo Madeira foram impactadas, entre elas São Carlos, a comunidade de Rozauro. Como muitos outros ribeirinhos, Rozauro foi forçado a se mudar para Porto Velho. Hoje ele reside em um apartamento na periferia, em uma região onde são registradas a atuação de organizações criminosas.

Privado de exercer sua cultura e fazeres, Rozauro trabalhou então como gari e operador de máquina em uma das hidrelétricas do complexo, as mesmas que contribuíram para a eliminação de seu modo de vida, seu sustento, sua casa e de sua comunidade. Ele nunca recebeu uma indenização.

O modo de vida dos povos da floresta, sejam ribeirinhos ou indígenas, coloca a natureza a partir de uma perspectiva ecocentrista, que se relaciona com as diferentes formas de vida e de existência presentes no ecossistema terrestre, de forma horizontal. Nós temos muito o que aprender com os povos da floresta.

O sistema capitalista e neocolonizador que vivemos atropela o Brasil todos os dias. O modelo econômico e social do Brasil expele povos tradicionais de seus territórios, direto ao caos da cidade. Conhecer a cultura dos povos da floresta pode revolucionar nossa visão de mundo, e transformar nossa visão sobre nós mesmos e sobre a sociedade “civilizada” que construímos.

 

Caminhos possíveis

O cooperativismo é um modelo socioeconômico que propõe, ao invés da competição, a cooperação entre indivíduos com objetivos comuns, gerando assim mais benefícios para todos. Foi a partir desse conceito que, em Careiro Castanho (AM), às margens do Rio Tupana, um grupo de mulheres ribeirinhas se uniu para desenvolver e produzir objetos com trançados de cipós ambé e titica com técnicas da sabedoria local. O grupo, chamado de Teçume da Floresta, com o apoio da Ong Casa do Rio, encontrou ferramentas para tornar o artesanato a principal fonte de renda e de emancipação dessas mulheres, ante a família e a sociedade. A designer Luly Vianna também apoiou a formação do grupo de mulheres, ensinando as artesãs a fazer os designs das bolsas para inseri-las no mercado. “Temos que respeitar o tempo da artesã e da floresta, elas geram renda através do resgate do artesanato tradicional”, pontua Luly.

As mulheres do Rio Tupana, junto a outras mulheres indígenas e caboclas do Amazonas, são importantes agentes de transformação da região, sendo cada vez mais atuantes no debate sobre sustentabilidade, agroecologia, questões indígenas e das mulheres.

 

 

“A floresta é muito importante na minha vida e na da comunidade, pois é dela que tiramos nosso sustento. Açaí, Patoá, Buriti, tudo isso vem da floresta. E nós como artesãos tiramos da floresta a nossa matéria prima, que é o cipó ambé.” Maria Alexandre dos Santos, artesã no Teçume da Floresta

 

A união de mulheres de Careiro Castanho se mostrou como um caminho possível e necessário para a continuidade da cultura e história de Careiro Castanho, e em última instância, para a própria existência da comunidade.

O desenvolvimento no Brasil não tem os mesmos aspectos em todas as regiões. Cada comunidade e cada povo precisa ser ouvido e suas especificidades e individualidade devem ser priorizadas. As grandes obras estruturais no Brasil têm passado como um trator por cima dos povos da floresta. Um modelo de desenvolvimento que não é sustentável, não é desenvolvimento.

Um dos objetivos da Agenda 2030 da ONU é tornarmos as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis. Para que isso aconteça, precisamos voltar nossos olhos para os povos originários e tradicionais, ouvir o que reivindicam. Proteger, garantir e respeitar a existência de outros povos do Brasil é imprescindível para a construção de um país mais justo e sustentável. Precisamos nos descobrir enquanto brasileiros, descobrindo as histórias uns dos outros.

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Dandara Valadares é formada em Relações Internacionais, comunicadora no Fashion Revolution Brasil

Marie Valadares é formada em Letras, professora na Escola Estadual Raimundo Nonato, na região do Baixo Madeira-RO

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