Por uma moda sem veneno

Roupas feitas com o uso de toneladas de agrotóxicos são vendidas como sustentáveis pela indústria da moda

Foto: Reprodução

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Por Eloisa Artuso*

Não é de hoje que o agronegócio, autointitulado o setor mais importante da economia brasileira, cria suas próprias narrativas para justificar sua expansão avassaladora por nossos biomas e comunidades, principalmente nas regiões do Cerrado e Amazônia. A boiada – e os agrotóxicos – estão passando sem que muitos saibam os verdadeiros riscos que a natureza e as pessoas correm. Somente no governo Bolsonaro, já foram aprovados mais de mil tipos de agrotóxicos, vários deles proibidos em outros países pelos enormes danos causados à saúde.

 

 

E o que a moda tem a ver com isso? É impossível não relacionar o uso de agrotóxicos ao que levamos diariamente ao nosso prato, mas e ao que está em nossos guarda-roupas? O algodão é a primeira fibra natural mais usada pela indústria da moda e a segunda entre todas as fibras, ficando para trás somente do poliéster, uma fibra sintética originada do petróleo. O Brasil, por sua vez, tem se mantido nos últimos anos entre os cinco maiores produtores mundiais de algodão, ao lado de países como China, Índia, EUA e Paquistão

O Brasil é também o maior mercado de agrotóxicos do planeta e o algodão é a quarta cultura que mais consome agrotóxicos, sendo responsável por aproximadamente 10% do volume total de pesticidas utilizado no País. Entre os agrotóxicos mais utilizados está o glifosato, que pode causar diversos efeitos na saúde, como aborto espontâneo e câncer.

Mas a história que o agronegócio conta é um pouco diferente. O movimento Sou de Algodão, uma iniciativa da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) e do Instituto Brasileiro do Algodão (IBA), nasceu em 2016 para despertar uma consciência coletiva em torno da moda e do consumo responsável, e apresenta o Brasil como o maior fornecedor de algodão sustentável do mundo. 

Sustentável e responsável de acordo com os pilares apresentados pelo movimento: “ambiental – inclui responsabilidade com a preservação do meio ambiente e uso controlado e adequado de defensivos” (defensivo é só um nome bonito para agrotóxico); “social – prevê respeito ao trabalhador e garante relações justas entre contratantes e  contratados, sempre de acordo com a lei e contribuindo para o desenvolvimento da comunidade; e econômico – enfatiza a saúde econômica dos negócios que envolvem o algodão, beneficiando a todos de modo justo e equilibrado e estimulando o crescimento do produto interno bruto brasileiro”. Esse algodão possui a certificação nacional ABR e o licenciamento internacional da Better Cotton Initiative (BCI).

Mas só para contextualizar, apesar de a certificação brasileira unir 25 critérios mínimos de produção da BCI e outros 153 adicionais relacionados com a nossa legislação, estamos falando sobre enormes latifúndios concentrados especialmente no Cerrado, onde a cultura do algodão é intercalada com a soja e o milho, uma prática danosa ao solo, que utiliza sementes transgênicas (também nocivas ao solo), e expulsa comunidades de seus territórios originais devido a forte mecanização do setor.

Já ouvimos falar que “o agro é tech, o agro é pop”, não é mesmo? Pois essa foi a narrativa criada para apagar o que inúmeros estudos científicos apontam sobre os malefícios desse modelo de produção em relação à capacidade regenerativa do solo e a preservação da biodiversidade. Sem contar a exclusão dos pequenos e médios empreendedores e a exposição de comunidades locais a substâncias tóxicas – mesmo que de forma “controlada e adequada”. A exposição cumulativa aos agrotóxicos deve ser considerada visto que alguns compostos amplamente utilizados podem permanecer presentes em organismos, água e solo por muitos anos.

Riscos reais à saúde de trabalhadoras e trabalhadores foram identificados em um estudo feito em 2018 com mulheres expostas ao glifosato em Uruçuí, no sul do Piauí, região de cultivo de soja, milho e algodão, apontando que uma em cada quatro grávidas da cidade sofreu aborto espontâneo e que 83% das mães teriam o leite materno contaminado. 

Então, devemos nos perguntar: é possível estabelecer limites para o que se considera sustentável e responsável? O algodão certificado é, certamente, menos impactante do que um convencional, mas ainda assim pode trazer enormes consequências sociais e ambientais, assim como o modelo produtivo em que está estabelecido. O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro descreve com clareza nossa realidade quando diz que “está demorando tempo demais para se espalhar a consciência ambiental, o sentido de urgência absoluta que a situação do planeta impõe a todos nós” e que “essa inércia se traduz em pouca pressão sobre os governos, as corporações, as empresas – estas investindo cada vez mais na história da carochinha do ‘capitalismo verde’”

Enquanto isso a crise climática bate à nossa porta e as desigualdades no País só aumentam. Ainda segundo Viveiros de Castro, “a aposta de que vamos nos dar bem dentro do capitalismo é algo ingênuo, se é que não é, quem sabe, desesperada… O Brasil continua sendo um país periférico, uma plantation relativamente high tech que abastece de produtos primários o capitalismo central”. O que parece bastante contraditório se considerarmos que exportação do algodão brasileiro começa a ficar ameaçada justamente porque a Europa e os Estados Unidos caminham em um movimento de redução de agrotóxicos, enquanto os produtos proibidos por lá são os mais vendidos por aqui

Isso leva a uma última reflexão: sobre o corpo enquanto território corporativo. Multinacionais da Europa vendem para o Brasil toneladas de agrotóxicos altamente perigosos, proibidos em seus próprios países como, por exemplo, no Brasil, 44% das substâncias registradas são proibidas na União Europeia. A pesquisadora Larissa Bombardi identifica, nesse sentido, uma geografia da assimetria. Por meio de estudos em cima do círculo de venenos e do conceito de colonialismo molecular presentes nas relações comerciais entre o Mercosul e a União Européia, Bombardi aponta que os nossos corpos estão expostos a substâncias químicas tóxicas que os corpos europeus não estão. Como é possível que haja 2 pesos e 2 medidas em um cenário como esse? Nossas vidas valem menos?

Dito tudo isso, a bancada ruralista ainda encontra a possibilidade de aprovar o PL 6299/02, conhecido como PL do Veneno, que visa flexibilizar o processo de aprovação de novos agrotóxicos, mudar critérios de avaliação, banir o termo “agrotóxico” e encontrar brechas para liberar produtos que a atual legislação proíbe. Proposto pela frente parlamentar formada por empresários do agronegócio, o PL, que apesar de impactar diretamente a vida da população, foi construído de forma unilateral, sem qualquer diálogo com a sociedade. Os principais argumentos em favor do PL já foram rebatidos por uma série de especialistas. A Anvisaa Comissão de Direitos Humanosa Abrascoa Fiocruz e uma série de entidades já se posicionaram contra a aprovação do projeto de lei. 

Como forma de dar visibilidade, ampliar consciência e enfrentar a questão de forma transparente, foi criado o movimento Moda sem Veneno, por meio da parceria entre as organizações Fashion Revolution, Modefica e Rio Ethical Fashion. Com base em dados irrefutáveis, o movimento setorial da moda se posiciona contra o PL 6299/02 e em prol de uma moda sem veneno, e conta com o apoio de diversas instituições e indivíduos, que se colocam a favor da ciência e da tecnologia como ferramentas de promoção da vida. 

A petição online dá o pontapé na iniciativa, demonstra a preocupação da sociedade e será utilizada para pressionar congressistas a votarem contra a aprovação do PL. Já são mais de 40 mil assinaturas que provam o importante capital político e social da ação. Assine e compartilhe este abaixo-assinado e junte-se à luta contra a aprovação do PL do Veneno. 

 

*Eloisa Artuso é designer, diretora educacional e cofundadora do Instituto Fashion Revolution Brasil e professora de Design Sustentável do IED-SP. Com um trabalho que se encontra no espaço entre sustentabilidade, design e educação, lidera projetos que incentivam profundas transformações na indústria da moda. Siga @eloartuso

 

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