Fashion Revolution

Por que as iniciativas ‘culpa-consumidor’ continuam existindo na moda?

Governos e empresas buscam solucionar problemas da indústria da moda sem alterar seu core: a superprodução, a poluição e a alta carga de resíduos têxteis

Recolha seletiva têxtil realizada em 2021
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Recentemente, o governo francês anunciou uma iniciativa verde voltada a “solucionar” a superprodução e descarte de resíduos têxteis no país: as pessoas poderão receber um reembolso (de € 6 a € 25, aproximadamente de R$ 31 à 131 em conversão direta) para consertarem suas roupas e sapatos velhos. O investimento será da casa dos € 154 milhões (aproximadamente 807,4 milhões de reais) para os próximos cinco anos – mas especialistas afirmam que essa medida joga muita responsabilidade para cima dos consumidores. Casa de grandes marcas mundiais – Louis Vuitton, Chanel, Yves Saint Laurent, para citar algumas – medida francesa segue sem abordar a superprodução.

Estima-se que cerca de 700 mil toneladas de roupas sejam descartadas anualmente, sendo dois terços dessa fatia destinados a aterros. Apesar do Plano Verde francês incluir diretrizes para outros setores que não miram apenas no consumidor, por exemplo, a exigência de que prédios públicos tenham bebedouro, o campo da moda segue livre para poluir, super produzir e jogar o impacto de 8% da geração de gases do efeito estufa no colo do consumidor. Todos saem ganhando, menos nós.

A cadeia de suprimentos da moda é uma das maiores no mundo, incluindo desde o plantio do algodão, à manufatura, processamentos, tratamento de tecidos, uso, reciclagem (menos de 1% do total produzido, segundo a Fundação Ellen MacArthur) e descarte.

Em todas as etapas existem impactos ambientais: na agricultura, uso de pesticidas no algodão; uso intensivo de água e energia durante o processo de produção têxtil – para cada camisa de algodão, são utilizados 2.700 litros de água e, para cada jeans, 1.800 litros-, aplicação de químicos no tingimento – responsável por 20% da poluição industrial global da água, o que torna a indústria têxtil a maior poluidora de água doce do planeta.

Há também a poluição por micro-plástico: com o aumento da produção de roupas sintéticas – o poliéster representa 60% do montante das fibras produzidas no mundo globalmente. Dados de 2017 da IUCN (União Internacional para Conservação da Natureza) apontam que cerca de 35% de todos os micro-plásticos nos oceanos vêm de lavagem dessas peças, dando à indústria da moda o pódio de maior fonte de micro-plástico, à frente dos pneus.

Por fim, que fique claro: toda essa poluição custa muito. Aos governos – cerca de  £140 milhões (734 milhões de reais) em roupas são enviados para aterros no Reino Unido a cada ano – e aos impactos imensuráveis à natureza e a vida de todos. Ignorando tudo isso, a indústria da moda segue produzindo em excesso: nos últimos 15 anos, o montante de vestuário duplicou, representando 60% da produção total.

Ao olhar as principais poluidoras do setor da moda em 2022, é possível ter uma ideia da dimensão das suas responsabilidades. A Zara, por exemplo, fabrica mais de 450 milhões de itens de vestuário todos os dias e, apesar de ter anunciado planos de utilizar apenas materiais de algodão e poliéster que sejam sustentáveis e recicláveis, a empresa não chega nem perto desta meta e não pretende desacelerar sua produção. O poliéster, aliás, demora 200 anos para se desintegrar.

Já a H&M, conhecida pelas precárias condições trabalhistas, também utiliza produtos químicos nocivos em seus produtos. Apesar das tentativas de lançar uma coleção com itens “50% de materiais sustentáveis” em 2011 e prometer adotar práticas mais ecofriendly, especialistas apontam que suas alegações são vagas e configuram greenwashing, destacando a falta de transparência.

Por fim, as peças da Forever 21 são quase exclusivamente feitas com tecidos sintéticos, podendo, apenas um trabalhador, produzir até 700 camisas por dia. Apesar da sua coleção cápsula doar US$ 1 para “ajudar a conservar e restaurar florestas saudáveis”, a varejista não criou planos para reduzir sua poluição têxtil e demais impactos.

Mas joguemos a culpa nos consumidores

Como se esquivar desse desastre? “Compre roupas 100% algodão orgânico”, “lave menos”, “compre menos”, “compre de 2ª mão”, “remende, reinvente, mas não descarte” são algumas das opções dadas aos consumidores para “colaborar” com uma moda mais sustentável. O consumidor tem, sim, uma parcela de responsabilidade. Mas esta, talvez, seja mínima. Principalmente se considerarmos a implicância de viver em uma sociedade que põe o “ter” acima do “ser”, e a subjugação do feminino pela aparência e trends do momento.

Em 2009, a Levi Strauss & Co. introduziu a “Etiqueta de cuidado para o nosso planeta”, que fornece instruções de lavagem para economizar água e orientações sobre como doar a peça. Já em 2015, a Levi trouxe uma análise de especialistas sobre os impactos ambientais do ciclo de vida do seu jeans. A área que recebeu destaque para o maior uso de água e impactos ambientais negativos foi na produção têxtil (36% de energia). Mas houve também o destaque para a lavagem (37% de energia).

O que nos leva a pensar: é culpa do consumidor que a roupa vendida a ele tenha todas essas problemáticas? Ou é da empresa que a produz?

A opção do algodão 100% orgânico (fibras mistas seguem a mesma problemática de decomposição, então uma peça 50% reciclada não é sustentável), ainda é inviável financeiramente para grande parte da população. Sem subsídios estatais, tão pouco do mercado – pois o algodão tradicional é produzido junto da soja e milho – a produção é pequena e o produto final, caro.

Ensaios de saídas possíveis

Algumas iniciativas ensaiam saídas para a indústria da moda que não focam no consumidor – elo com menor poder financeiro e de escolha nessa equação. Em maio de 2020, o diretor criativo da Gucci, Alessandro Michele, anunciou a redução dos cinco desfiles anuais para dois por ano, para “reduzir o desperdício”.

O relatório Making Fashion Sustainable (2020) aponta que a Mud Jeans também tem buscado fazer peças mais atemporais, quebrando o ciclo de “estação” para suas coleções. Além disso, o documento destaca empresas que estão introduzindo processos de tingimento que requerem menos água, focando na melhoria, também, da reciclagem têxtil.

Um ponto é fato: como assegurado por políticos tanto de esquerda quanto direita, em relação ao benefício entregue aos franceses por consertarem suas roupas, “se o governo realmente levasse isso a sério, encorajaria fabricantes e vendedores de roupas a produzirem bens de melhor qualidade”.

O Greenpeace afirmou que a lei não abordava “a emergência da situação”, e não aborda mesmo, tendo em vista que a Europa não só têm sofrido com duas ondas de calor – promovidas pelo El Niño e acentuadas pela crise climática – neste ano. Uma rápida busca pelo verão do ano passado mostra temperaturas acima dos 35ºc em diversas cidades francesas. Mais uma consequência de aquecermos o planeta em 1.3ºC.

O Fashion Waste Index contabilizou, em 2020, que a França produziu cerca de 210 mil toneladas de resíduos têxteis por ano, dos quais 0.3% foram reciclados. Já a Changing Markets Foundation aponta sobre a problemática da exportação desse montante para países do Sul Global, como Quênia, Gana e Índia – um cenário que nos lembra muito o cemitério de roupas no deserto do Atacama.

Desde 2019, a União Europeia tem um acordo que impede os Estados-membros de exportar plástico não reciclável para países em desenvolvimento, mas a circulação de vestuário é um ponto cego. Talvez seja aí que a política verde de Macron – e dos países desenvolvidos – deva investir.

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